O imperador nu

 

 

“Foi quando se ouviu claramente uma voz espantada de criança:

— O imperador não leva nada vestido!” 

(Hans Christian Andersen, “O Fato novo do Imperador”)

 

A narrativa oficial europeia e dos partidos de direita é sempre a mesma: austeridade e mais austeridade. Mas já vai sendo tempo de desmascarar tal embuste.

A austeridade fiscal foi um fracasso para a economia portuguesa. Não sou eu que o digo, mas sim o Nobel da Economia Joseph Stiglitz, ao comentar a baixa perspectiva de crescimento da economia do nosso país.

Afirmou-o pública e recentemente no Fórum Fiscal que discutiu o sistema tributário internacional na sede do Fundo Monetário Internacional (FMI), em Washington: “A austeridade foi um fracasso para Portugal, como também representou para todos os outros países em que se tentou esta mesma política”. Não é o único a dizê-lo, nem sequer o primeiro. Paul Krugman, outro Nobel da Economia, já o tinha afirmado reiteradamente aos quatro ventos, para quem o quis ouvir.

Stiglitz defende que a situação económica estabilizou, não por virtude do “ajustamento”, mas porque o BCE baixou a taxa de juros. Mas indicadores macroeconómicos como a dívida pública estão agora pior agora do que antes, o que prova o falhanço austeritário.

Céptico quanto aos sinais de recuperação da zona euro, o economista não acredita que os problemas estejam resolvidos e considera que tais sinais apenas evidenciam uma “calmaria antes da tempestade”. O professor de economia, administração de empresas e negócios internacionais na Universidade de Columbia, crê que o cerne da questão está na capacidade de a zona euro ser capaz de mudar de política. Não o fazendo, a nossa recuperação económica pode retardar até uma década.

A verdade é que cinco anos depois do resgate e quase dois anos após a sua conclusão, os números indicam que o país melhorou nalguns indicadores mas ainda não cumpre os parâmetros de referência de Bruxelas. Continuamos com um défice orçamental acima do limite, uma dívida pública superior a 120 por cento e desemprego acima dos 10 por cento.

O combate ao défice fez-se essencialmente através da desvalorização do trabalho, de cortes em salários e pensões, do aumento de impostos e do desemprego, da quebra do investimento público, de falências de empresas, e de uma emigração em massa, em especial de jovens qualificados.

À revelia da cartilha neoliberal, os Estados Unidos superaram a crise através do investimento público e o próprio Vítor Gaspar anda hoje a defender o mesmo. Stiglitz diz à boca cheia que “a austeridade foi um fracasso para Portugal”. O imperador vai nu mas, como diz o ditado, não há cego maior do que aquele que não quer ver.

 

Fonte: José Brissos-Lino, O Setubalense, 29/4/16.

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