Azedume

Sócrates disse há dias que nunca aceitaria ser primeiro-ministro sem ter ganho as eleições. Bicada ao actual PM que, não tendo ganho as eleições, conseguiu construir e alcançar o indispensável apoio parlamentar e constitucional para governar, face à incapacidade de quem as ganhou sem maioria.

Passos Coelho disse ainda há menos dias que, se fosse primeiro-ministro, não estaria na inauguração do túnel do Marão. Bicada ao actual PM, por manifesta azia pelo facto dele próprio, tendo ganho as eleições sem maioria, não ter sido capaz de encontrar na AR apoio para constituir governo.

Ambos são representativos dum certo azedume como forma de fazer política. Não sei se António Costa vai ou não fazer o mesmo com o chefe do governo que o vier a substituir um dia. Só sei que isto fica mal a qualquer político.

Em democracia os cidadãos propõem-se a eleições, procurando fazer crer aos eleitores que são as pessoas mais capazes e com as melhores intenções, ideias e equipa para governar a comunidade. Quando os concidadãos optam por uma outra solução, seja ela qual for, tudo o que os servidores da república não precisam é de ficar com azedume. Pelo contrário, devem remeter-se à oposição, crendo que chegará a sua hora, se souberem interpretar correctamente o sentir popular e as necessidades do país. Até porque a oposição não é menos nobre do que o exercício do poder, quando exercida em consonância com um espírito de serviço público.

Agir com quem está no poder como uma criança a quem um colega lhe surripiou um brinquedo, não abona da maturidade democrática nem humana de quem se encontra fora do poder.

Passos chega ao limite ridículo de criticar o presidente da república por surgir em público cheio de boa disposição e a semear esperança à sua volta. Bem sei que em tempos lhe chamou “catavento mediático” e que não o queria de modo algum como candidato a Belém, mas colar-se assim tanto a um Cavaco de triste memória, que acabou o seu mandato de rastos já é demais.

A política portuguesa comporta demasiado azedume. Talvez por isso a classe política estranha tanto a postura do novo presidente. Talvez pela primeira vez tenhamos em Belém um homem que, mais do que afinar a sua tarefa pelo diapasão do espírito de missão, do imperativo nacional ou do sacrifício pessoal, não faz questão de esconder que se diverte com o desempenho das funções oficiais, em especial quando toca aos contactos com as populações, dentro e fora do país. Mas não poderá ser assim, porquê?

Faz-me lembrar aqueles religiosos que confundem reverência a Deus com tristeza e sentimento de culpa.

 

Fonte: José Brissos-Lino, O Setubalense, 13/5/16.    

 

 

 

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