O amarelo

 

Carlos do Carmo popularizou em fado o eléctrico de Lisboa, a que chamou “o amarelo da Carris”. Mas agora a cor está capturada por um pequeno grupo de colégios privados que parece querer continuar a viver às custas do Estado.

“Pago impostos, tenho direito a escolher a escola dos meus filhos”, reza um dos cartazes das manifestações dos amarelos. Não creio que tal direito conste da constituição. O que me parece é que ela consagra o direito de todo o cidadão a um ensino público, tendo em vista a igualdade de oportunidades para todos os cidadãos. É por isso que é tão importante preservar e reforçar a escola pública, por ser a única que tende a superar os naturais problemas de discriminação social existentes.

Manuela Ferreira Leite diz não entender qual é o problema da “guerra” entre os colégios privados subsidiados pelo Estado para suprir falhas do ensino público e a decisão do Governo de dispensar alguns. Nem nós. É que o direito de escolha continua intacto e nunca esteve em causa. Qualquer família é livre de escolher a escola dos filhos: ou opta pela pública, gratuita, ou pela privada e paga as propinas correspondentes.

Qual é a loucura que leva esta gente a tentar instrumentalizar até o presidente da república, que teve de vir a público demarcar-se do comunicado dos amarelos?

Um dos maiores enganos é vender a ideia de que a escola privada é de melhor qualidade do que a pública. É falso. Uma investigação realizada pela universidade do Porto concluiu que os alunos saídos da escola pública têm melhor desempenho no superior do que os das privadas. E as experiências estrangeiras não são animadoras. A Suécia, por exemplo, privatizou totalmente as escolas, nos anos 90, e acabou por cair drasticamente nos rankings do PISA.

Recorde-se que em Maio de 2013, o anterior ministro da Educação obrigou seis colégios deste grupo a devolver cerca de 47 mil euros aos encarregados de educação, visto que haviam recebido cerca de 27 milhões de euros do Estado nos últimos dois anos para assegurar a escolaridade obrigatória gratuita e depois cobraram, de forma irregular, uma taxa de matrícula com o valor de 10 euros.

Mais. Segundo o Diário Económico, em 2014 terão sido efectuadas buscas a vinte colégios privados, no âmbito de um processo-crime aberto pelo DIAP, por alegada apropriação ilícita de verbas transferidas pelo Estado no âmbito dos contratos de associação.

Mas o que está hoje em questão nem sequer é a discussão ideológica sobre qual a melhor forma de garantir educação para todos (Estado ou a compra de serviços a privados), mas sim cumprir os contratos estabelecidos. O país progrediu imenso em saúde e educação nas últimas décadas porque o Estado investiu a sério nestes sectores. Já agora não estraguem.

Fonte: José Brissos-Lino, O Setubalense, 3/6/16.

 

 

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s