Marcelo Coca-cola

 

“Primeiro estranha-se, depois entranha-se!…” Foi o slogan comercial concebido em 1927, por Fernando Pessoa, para uma conhecida marca de refrigerantes. Bem se poderia aplicar ao actual presidente da república.

Marcelo tem feito questão de marcar a diferença desde a tomada de posse. Diferença quando comparado com qualquer dos anteriores chefes de Estado, desde sempre, mas em particular, uma diferença chocante com Cavaco Silva, seu antecessor. O homem não pára, parece o tal refrigerante doce e gaseificado do Pessoa.

Nunca deixa jornalistas pendurados, debita discurso sempre que vê um microfone ou uma câmara à frente, fala para a esquerda e a direita. Ao governo dá a sensação de que têm ali um aliado, à oposição vai estendendo umas mãos, em suma, vai a todas.

Marcelo custa a despir a pele de comentador, naquela sua versão típica de “explicador”, o que, implicando uma dimensão pedagógica indubitável, parece não casar bem com a gravitas que se espera do mais alto magistrado da nação. O que o país quer ver na presidência não é um “gajo porreiro” que entra em todas as tascas, nem um comentador ou “explicador”, mas sim um verdadeiro factor de equilíbrio do sistema, um comandante supremo das forças armadas e alguém que fala o que é necessário, nos momentos certos, sem exageros que possam vir a torná-lo uma figura mediaticamente cansativa.

 O equívoco dos afectos

Compreende-se que a presente política dos afectos cumpra idêntica função à da política do diálogo – depois do consulado em Cavaco em Belém – a qual permitiu, em 1995, que Guterres se diferenciasse do primeiro-ministro que então substituiu, por sinal a mesma pessoa. Mas, como dizia um amigo meu, não precisamos dos afectos de um político, mas sim do seu desempenho digno e positivo do cargo que ocupa.

Marcelo sabe que Costa é um político fino e não adianta afrontá-lo por agora. Por outro lado, o presidente não vislumbra alternativa ao actual poder no seu PSD, enquanto Passos lá estiver. Por isso sabe que vai ter de aguentar, pelo menos até às autárquicas, para ver o que acontece. E até lá vai falando de afectos, que é um produto de “marca branca” em termos ideológicos e não compromete.

Mas a verdade é que só com estes poucos meses de presidência, Marcelo já fez mais pelo país, pela unidade dos portugueses, pela auto-estima nacional, pelos entendimentos entre forças políticas, pela cultura, economia e relações com a Europa, do que Cavaco durante todos aqueles seus dez anos dolorosos, cinzentos e carrancudos em Belém, de triste memória. Mas convém não exagerar.

 

Fonte: José Brissos-Lino, O Setubalense, 8/6/16.   

 

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