Carácter e ideologia em política

 

 

Em política a ideologia é importante. Os ideais, as ideias políticas, as propostas e o modelo de sociedade que se preconiza são fundamentais. Mas o carácter do indivíduo político também é. Não no sentido da chamada moralidade sexual. Bill Clinton foi um dos melhores presidentes que a América teve no último século, mas foi perseguido por problemas laterais, que dizem respeito à sua vida privada, e que se inserem na habitual hipocrisia e tendência para policiar costumes em terras do Tio Sam.

O carácter dum político vê-se no seu discurso, antes de mais.

É demagogo, manipulador e mente de forma deliberada e consciente? Não inspira confiança?

Quando um político distorce factos históricos ou estatísticas de forma calculista não pode merecer a confiança das pessoas de bem.

Quando usa e abusa duma invocação de inimigos imaginários para mobilizar as hostes, entrando pelos caminhos da manipulação de massas e da demagogia, está o caldo entornado.

Quando sobrevaloriza os perigos reais e potenciais, está a ser pouco sério e não merece o nosso respeito.

Quando mente para fazer valer a sua posição e agregar apoios está a ser desonesto e há que fugir dele.

Quando faz questão de dizer aos quatro ventos que a sua carreira política é um sacrifício pessoal, familiar e económico, invocando razões patrióticas e de dever para com a coisa pública, escondendo frequentemente muitas benesses que passam debaixo da mesa, está a ser aldrabão e a tratar o eleitorado como um rebanho de carneiros.

Mas o carácter vê-se também na acção política. Ele cumpre ou não aquilo que prometeu? Joga limpo com os adversários, ou sujo? Para ele os fins justificam os meios, ou nem tanto? É corrupto? Tem profissão ou é carreirista (tem vivido sempre duma carreira no aparelho político-partidário)?

Quando a ideia peregrina de tratar a integridade com os pés, do tipo “eu roubo, mas faço!”, segundo a famosa máxima de Paulo Maluf, começa a fazer escola também por cá, ou a avalanche crescente de escândalos tipo “Panamá papers”, tal não nos pode fazer baixar a guarda. Pelo contrário, estas informações deviam tornar os cidadãos muito mais exigentes com os actores em quem delegam a condução de res publica.

Dir-me-ão que vivo noutro planeta, que não há políticos que fujam à fotografia acima descrita e que       “eles” são todos iguais. Talvez seja ingénuo mas quero crer que não. De todo o modo não acredito que a resposta seja a política do ódio racial, religioso ou a repressão das minorias. A possível saída da Grã-Bretanha da União Europeia pode provocar uma verdadeira revolução no continente. Oxalá varresse também a velha política e os velhos políticos que levaram o mundo ao ponto de colapso em que se encontra.

 

Fonte: José Brissos-Lino, O Setubalense, 17/6/16.

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1 comentário a “Carácter e ideologia em política”

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