Os filhos não são nossos

 

Os filhos não são propriedade dos pais, são emprestados. Logo, os pais não podem usar os filhos como coisas, objectos, como animais de companhia ou bens pessoais.

Os filhos são pessoas, seres humanos, com vida própria e personalidade específica, sendo ainda sujeitos jurídicos independentes.

Nada disto é novo, mas convém relembrá-lo numa altura em que mais uma mãe decidiu suicidar-se matando um filho de seis anos, ao atirar-se do alto de uma ponte sobre o rio Cávado, em Barcelos. Diz-se que estaria deprimida e terá reagido movida por ciúmes, por ter descoberto mensagens comprometedoras no telemóvel do marido.

O Ministério Público procedeu à abertura de um inquérito para investigação dos factos, sublinhando que eles “podem integrar, em abstrato, a prática de infração criminal de natureza pública, nomeadamente o crime de homicídio qualificado, na forma tentada ou consumada”.

Esta senhora precisa de tratamento psicológico – se acaso está doente – mas também precisa de ser levada à justiça, por ter cometido homicídio na pessoa do seu próprio filho. Certamente terá algumas atenuantes, em sede de julgamento, mas não deixou de ter cometido um crime hediondo.

Nenhum pai ou mãe tem o direito, em caso algum, de querer castigar o cônjuge através dos filhos. Eles não são pedras que se atiram ao outro para magoar ou para exercer vingança. Têm sentimentos, vida própria – por muito pequenos que sejam – e sobretudo uma coisa chamada futuro, que ninguém tem o direito de lhes roubar. Nem o pai, nem a mãe.

Matar uma criança não significa apenas tirar-lhe a vida e matar-lhe o futuro, mas igualmente roubar à sociedade um indivíduo com potencialidades que a poderiam vir a beneficiar. Quantos cientistas, músicos, escritores, intelectuais, professores, homens de negócios e artistas foram exterminados nos campos nazis de concentração? Milhares de milhares. Quanto se hipotecou o futuro da sociedade em geral na Europa, com a matança desta gente? Quantos génios desapareceram então?

Os pais precisam redescobrir que os filhos não são propriedade deles, apesar de os sustentarem e cuidaram. Não. Os filhos estão à nossa guarda. Não podemos fazer com eles o que nos der na gana. Nem molestá-los sexualmente, nem exercer violência gratuita sobre eles, nem oprimi-los de modo a hipotecar-lhes um futuro saudável, harmonioso e equilibrado, e muito menos tirar-lhes a vida. Mas os pais também não podem ser omissos enquanto progenitores, no seu exercício parental.

A obrigação de pais e mães é sustentar os filhos, protegê-los e educá-los, preparando-os para enfrentar o mundo quando crescerem, com base numa ética de vida entretanto adquirida. A escola só dá instrução, a educação é tarefa da família. E não os educar devidamente é também uma forma de os molestar e matar-lhes o futuro.

 

Fonte: José Brissos-Lino, O Setubalense, 24/6/16.   

 

 

 

 

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