O mata-borrão

 

Cristiano Ronaldo anda a ser utilizado como mata-borrão para limpar as borradas do país. Se quiserem, estamos perante o messianismo português revisitado. Uma espécie de V Império de que falava o padre António Vieira, mas agora no mundo da bola.

CR7 é o profeta que há de restaurar o orgulho lusitano aquém e além-mar, através dos inúmeros recordes que bate, das vitórias que oferece à sua equipa, dos troféus conquistados e por ser considerado o melhor futebolista do mundo. (Bem sei que outros preferem Messi, mas ainda agora mostrou não ter estofo, ao abandonar a sua selecção por ter falhado um penalti e saído derrotado da Copa América, de novo.)

Nós, os Portugueses, que já demos “novos mundos ao mundo”, pioneiros da globalização, que chegámos aos quatro cantos da terra e desvendámos o mar oceano na epopeia dos Descobrimentos, precisamos de novo herói.

É certo que vivemos nesta “leda e vil tristeza” desde o século dezasseis, impotentes, endividados, sem rumo, inspirados pelo mito do retorno de D. Sebastião, numa manhã de nevoeiro, agarrados a um messianismo bacoco, sempre à espera que alguém resolva os problemas domésticos por nós.

Foi assim que aguentámos uma monarquia decadente, a bandalheira da I República e quase cinquenta anos de Estado Novo. E é assim que aceitamos este regime democrático na forma, mas ferido na essência.

Durante anos a fio idolatrámos Eusébio, Amália e mais alguém que aparecesse a levar o nome de Portugal ao mundo. Mas, ao mesmo tempo, apagámos da memória colectiva os nossos maiores, ignorando Aristides Sousa Mendes, obrigando Jorge de Sena ao exílio e estrangulando quase toda a actividade e criação culturais. Agora expulsamos Bocage e tantos outros ilustres dos manuais escolares.

O que queremos é a glória ali à esquina, o sucesso fácil, a espuma dos dias. Por isso temos tendência a fabricar heróis por tudo e por nada, como se precisássemos de provar a nós mesmos que somos bons, capazes e, se possível, os maiores do mundo e arredores.

Cristiano Ronaldo é fruto do tempo por isso mesmo. Exigimos que seja perfeito a lidar com a imprensa, mas que também carregue o país às costas. Não lhe admitimos que falhe, que esteja lesionado, cansado, dorido, perturbado ou desmotivado. Queremos é saltar, gritar e celebrar vitórias à sua custa, sentados no sofá, de copo na mão. E quando ele não nos dá o céu caímos-lhe em cima de pau na mão, como se a sua brilhante carreira não falasse por si e como se necessitasse de provar ainda alguma coisa a alguém.

Sejamos francos. Se calhar o país não o merece.

 

Fonte: José Brissos-Lino, O Setubalense, 1/7/16.

 

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