Cinco elefantes e um camelo

 

A famosa hipérbole utilizada por Jesus Cristo sobre o camelo passar pelo buraco duma agulha pode ter sido influenciada por um provérbio grego, bem mais antigo, e que terá sido transmitido por Adamâncio no Physiognomonicon:

“Mais facilmente se esconderiam cinco elefantes sob uma axila do que alguém de costumes infames (pathicus)”.

Este tipo de figuras de estilo enquadrava-se perfeitamente no discurso do Mestre, e ele utilizou-as abundantemente, pois permitia-lhe ser entendido por gente culta e indouta, judeus ou gentios, de todas as idades, género, culturas e etnias.

“Porque é mais fácil entrar um camelo pelo fundo de uma agulha do que entrar um rico no reino de Deus.” (Lucas 18:25)

A importância do episódio revela-se pela atenção que lhe dedicam tanto Lucas como os outros evangelistas autores dos sinópticos: Mateus (19:24) e Marcos (10:25).

Qualquer análise à frase em si mesma resulta numa impossibilidade. Assim como não se podem esconder “cinco elefantes sob uma axila”, também será impossível “entrar um rico no reino de Deus”. Ou “no reino dos céus” (Mateus 19:23).

Ao longo dos séculos tentou-se “amaciar” o sentido do texto. Para isso recorreu-se à interpretação do termo “camelo”. Que seria a Porta do Camelo, uma porta muito baixa em Jerusalém, que obrigava as pessoas a curvarem-se para a passar, significando que um rico poderia entrar no reino de Deus desde que se humilhasse.

Outros afirmaram que o tal “camelo” seria o cabo de sisal de amarração dos barcos, o qual, sendo pacientemente desfiado, passaria fio a fio pelo buraco da agulha. Ou seja, seria muito difícil que um rico acedesse ao reino mas não impossível.

O termo grego kámelos (κάμηλος) significa exactamente o nosso camelo-animal, do latim camelus. Em Marcos 10:25 e em Lucas 18:25 a palavra usada é kámelon (κάμηλον), referindo-se claramente ao animal. Vem do termo hebraico gamal (למג), usado para identificar aquele mamífero ungulado nosso conhecido (Camelus Bactrianus). E o termo grego para agulha éraphís (ραφίς), aquele objecto utilizado na costura, com a especificidade de Lucas usar o termo belónes (βελόνης), que significa agulha cirúrgica.

Portanto, nenhuma destas interpretações satisfaz, nem vem na linha da impossibilidade prática para que aponta a hipérbole. De facto nem se podem esconder elefantes numa axila, nem um rico pode entrar no reino de Deus. Não, não se trata de discriminação, nem de inveja social. Um rico não pode entrar no reino tal como um pobre também não pode, nem um remediado.

Porquê? Então quem entra?

É simples. Ao sermos acolhidos no reino de Deus deixamos pelo caminho todos os factores de distinção social. Deixamos de ser ricos ou pobres, feios ou bonitos, gordos ou magros, pretos ou brancos, cultos ou indoutos, homens ou mulheres, crianças ou velhos. Somos apenas seres humanos totalmente iguais em dignidade perante Deus e o próximo, pois Ele não discrimina pessoas: “Porque, para com Deus, não há acepção de pessoas.” (Romanos 2:11).

As barreiras entre seres humanos são construídas por nós e não podem subsistir no reino de Deus, que se pauta por outros valores e filosofia. Jesus de Nazaré nasceu numa manjedoura, sendo adorado pelos anjos, por pobres pastores e por abastados sábios vindos do Oriente. Todos convergiram sobre aquela estrebaria precária.

O Eterno fez-se “rei dos judeus” e, sendo homem, abriu a porta para que todos os homens pudessem entrar no seu reino, sem ter que pagar qualquer espécie de portagem.

José Brissos-Lino

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