Os cafés literários inventados na escrita

 

«Estou no café mais medonho que tenho encontrado na minha vida », escrevia de Paris, em 1949, António Maria Lisboa. Os destinatários eram alguns dos mais destacados poetas surrealistas da década, Cesariny, Pedro Oom, Cruzeiro Seixas.

A correspondência entre o poeta surrealista AML e os seus amigos, do grupo apelidado de «guerrilhas surrealistas», passava a palavra pelos cafés reencontrados, na escrita literária, em Lisboa ou em Paris.«Estou no café mais medonho…», e o poeta referia-se ao café Dupon ( «ou tout est bon», o café pelo menos não presta, a cerveja é fraca- dizia Lisboa ), utilizando a ironia como um dos aspectos referenciais do surrealismo.

Os cafés estiveram sempre presentes nas obras de muitos escritores, como local de encontro para uma tertúlia literária, como espaço de criação em que a solitùdine se faz rodear do cosmopolitismo.

Há mesmo cafés que pertecem, na Europa, à História da Literatura dos séculos XIX e XX, o Antico Café Greco, em Roma, o Le Flore, em Paris, talvez os mais conhecidos. Outros, porventura, menos falados, a não ser na própria Poesia: no Café Glorieta de Bilbao se sentava o poeta espanhol Antonio Machado.

Mário de Sá-Carneiro ao escrever um poema sobre as horas – o fluir do tempo- nos Cafés e sobre o próprio mobiliário, particular e único-a mesa do café-, apreciou esse espaço por inteiro. E escreveu versos imortais na literatura portuguesa, sobre a posse dessa sua mesa no Café tão subsidiária da vida. Quadra tão misteriosa, na sua aparente clareza, como os próprios veludos e cetins que o mármore por vezes exibe, com o seu frio colorido…

Minha mesa no Café,

Quero-lhe tanto… A garrida

Toda de pedra brunida

Que linda e que fresca é !

Fernando Pessoa também esperava a vida nos cafés. Numa carta dirigida a Armando Cortês-Rodrigues, em 28-6-1914, construída na sua essencialidade epistolar sobre floreados, ironias, classicismo, e até sobre ideias espíritas, dirigindo-se ao seu destinatário como «Irmão em Além», o Poeta pede ao interlocutor que venha com «a sua presença carnal – sem prolongamento gesticulante de bengala agressiva – à vil cova ou jazigo de utilidades e propósitos artísticos que dá pelo nome humano de Brasileira do Chiado».

Cafés de Lisboa, mais modernos, serviram no final da década de 40 do século passado como um palco para «performances» apreciáveis, já em pleno Neo-Realismo. Nas cartas mencionadas do poeta António Maria Lisboa, são referidas duas ou três Pastelarias (ou Cafés) da capital, sendo mesmo revisitadas não só como «material» epistolar, mas sobretudo como tendo sido historicamente ponto de encontro de uma Cultura, melhor uma Contra-Cultura, e de um labor intelectual. Nesses espaços, os escritores trocavam experiências, permutavam volumes, corrigiam provas e trovas, cumpriam palavras dadas.

Vou na terça-feira a Lisboa. Não posso ir mais cedo do que as 5 horas estar contigo e o Pedro Oom. Portanto às 5 horas da tarde estou na Mexicana.

Vou amanhã sábado a Lisboa. Só hoje me apetece escrever. Em algumas coisas cheguei a sínteses engraçadas. Estou no Café Chiado às 2,30 horas da tarde. Se não te encontrar estou na Smarta.

Muito do que a nossa História da Literatura do século XX regista, foi criado à mesa do café, fora das torres de marfim.

 

© João Tomaz Parreira 

1 comentário a “Os cafés literários inventados na escrita”

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