A seita

 

Um falso psicólogo lembrou-se de criar uma seita religiosa falsa, em Setúbal, a fim de praticar o crime de abuso sexual de crianças. Este caso nada tem de novo a não ser o facto de ter ocorrido por estas bandas, já que é o pão nosso de cada dia por outras paragens, por esse mundo fora. A polícia apanhou-o, mas não sem alguma estranheza.

De facto a religião pode ser uma capa ou um meio de contornar a lei e abrir a porta a inúmeros crimes de diversos tipos.

Nos últimos trinta anos instalou-se em Portugal uma imensidão de grupos religiosos pouco transparentes no seu funcionamento. A cidade de Setúbal, que antes tinha meia dúzia de igrejas cristãs não-católicas, viu crescer esse número para mais de quarenta, nas últimas décadas, com vantagem para as neopentecostais.

Os grupos neopentecostais – normalmente de origem brasileira – desenvolvem uma praxis baseada nas emoções, na manipulação psicológica, na exploração económica dos fiéis e visam essencialmente retirar lucro financeiro imediato.

A sua teologia é incipiente, pouco estruturada, quase infantil, mas sempre orientada para as necessidades básicas das populações, usando como ferramenta o chamado pensamento mágico, muito presente noutros domínios da religião, mas sobretudo da superstição. Por exemplo, é vulgar encontrarmos nesses meios elementos do ocultismo misturados com simbologia cristã e práticas espíritas, numa amálgama confusa.

As universidades brasileiras têm vindo a desenvolver importante investigação sobre o fenómeno neopentecostal, quer do ponto de vista psicológico, sociológico, histórico ou no âmbito da ciência das religiões, que ajudam a compreender o seu crescimento e desenvolvimento. Em Portugal a academia começa agora a interessar-se por estas matérias do âmbito da psicologia da religião e da ciência das religiões.

Sabemos que não é fácil encontrar o justo equilíbrio entre a liberdade religiosa – característica dum estado laico e de direito – e a prevenção dos abusos e demais práticas criminosas perpetradas sob a capa de grupos religiosos, falsos ou não.

As instituições portuguesas que poderiam ajudar a clarificar estas matérias não funcionam, em parte por inércia estrutural, ignorância da matéria ou falta de informação.

Por exemplo, em Portugal qualquer desconhecido se pode autointitular pastor ou líder religioso sem qualquer formação ou crivo que ateste a sua credibilidade. A liberdade não pode permitir tudo. É porque há leis e normas que vivemos num país livre, o que é diferente duma república das bananas.

 

Fonte: José Brissos-Lino, O Setubalense, 29/7/16.

 

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