A ponte

 

A ponte sobre o rio Tejo completou 50 anos de vida.

Creio que único percalço que teve até agora foi a questão da sua nomeação. Primeiro chamaram-lhe Salazar, contra a vontade do ditador, que, ao que consta, já muito idoso e poucos anos antes de cair da cadeira do poder para sempre se terá oposto até à sua construção, sendo vencido pela maioria dos ministros.

A razão não era de natureza económica mas sim ideológica. Havia financiamento assegurado, mas Salazar queria manter o país como uma espécie de pequena aldeia (para ele os bairros e as vilas operárias lisboetas não passavam disso) e era contra o cosmopolitismo, ao contrário de qualquer pessoa que já tivesse saído de Portugal e viajado pela Europa.

Depois da revolução de 1974 passaram a chamar-lhe Ponte 25 de Abril, na fase da fúria revanchista contra o Estado Novo. Mas creio que esta magnífica obra de engenharia mereceria um nome neutro, que não fosse nem o do ditador que nunca a desejou, nem da revolução que nada fez por ela. Agora que completa meio século já era tempo de existir por ela mesmo, sem conotações políticas, pois os regimes passam e ela vai ficando. Se se tivesse chamado Vasco da Gama como a sua companheira mais a montante, decerto ninguém pensaria em mudar-lhe o nome.

Esta ponte – como qualquer outra – é um símbolo de ligação entre o Norte e o Sul, de união de um território descontinuado por razões naturais, que permite o intercâmbio entre as margens vencendo o largo rio que as separa. Já dizia a canção “a ponte é uma passagem p´rá outra margem”. Mas também representa a partilha, a continuidade física de um país, além da facilitação em termos de comunicações e trocas comerciais e culturais.

Há trinta anos um amigo meu, americano de origem alemã, que vinha a Portugal pela primeira vez, grande empresário da construção civil na Califórnia, alugou um carro e viajou pelo país com a esposa, em tempo de férias. Disse-me que não fazia sentido que a ligação entre as margens fosse pelo meio da cidade de Lisboa, por isso a ponte sobre o Tejo devia ter sido construída de modo a escoar o tráfego por fora do perímetro urbano da capital. Muitos anos depois a Ponte Vasco da Gama veio exactamente a concretizar esta ideia.

Simbolicamente as pontes servem para unir.

Neste tempo de desconfiança, de reacções primárias contra o desconhecido, o estrangeiro, o de outra religião, torna-se imprescindível sublinhar que o caminho está muito mais na união dos seres humanos do que na disputa, na paz do que na guerra.

 

Fonte: José Brissos-Lino, O Setubalense, 12/8/16.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s