Uma telenovela manhosa

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Se alguém dissesse há duas semanas que o juiz Carlos Alexandre iria dar uma longa entrevista a um canal de televisão, ninguém acreditava. Se alguém acrescentasse que nessa mesma entrevista, o magistrado iria falar da sua infância e vida privada julgaríamos mesmo ter entrado no domínio da ficção.

Se, ainda, esse alguém afirmasse que o superjuiz iria fazer insinuações, mais do que uma vez, contra José Sócrates, ou que se iria queixar de que este, enquanto primeiro-ministro, lhe tinha cortado o vencimento, então acharíamos que tal não passaria duma peça de teatro de quinta categoria. Pois bem, tudo isto aconteceu – e mais ainda – na surpreendente entrevista à SIC.

A primeira e grande estupefacção, antes de ir ao conteúdo, é a oportunidade. Quando o juiz de instrução está prestes a tomar a decisão de arquivar ou levar a julgamento José Sócrates, no caso Marquês, estranha-se muito que tenha escolhido este tempo para vir a público. O nosso sistema judicial continua a ser incapaz de criar uma relação informativa sã com os concidadãos, dando assim aso a toda a espécie de especulação jornalística, confusão mediática, perturbação política e crimes de quebra do segredo de justiça.

O senhor magistrado não disse uma palavra para justificar o facto de ter mandado prender preventivamente uma pessoa – por acaso um antigo primeiro-ministro de Portugal – durante cerca de dez meses, sem que, passados quase dois anos, o tenha acusado de qualquer crime. Ao que parece o Ministério Público tem andado todo este tempo a lançar balões de ensaio, a mudar constantemente a sua linha de investigação. Isso revela decerto a dificuldade em apurar os factos e encontrar meios de prova.

Ao queixar-se do primeiro-ministro Sócrates lhe ter reduzido o vencimento passa a ideia de vingança pessoal. Ao insinuar que Sócrates tem contas escondidas em nome de amigos, está a abandonar a posição de imparcialidade que não pode deixar de manter enquanto juiz de instrução.

De forma muito pouco inocente, Carlos Alexandre vem ainda sugerir a delação premiada, como instrumento de justiça. Apesar dos prós e contras aceito que é um tema que poderia e deveria ser amplamente debatido no país e não apenas nos meios judiciais. Mas na boca do juiz de instrução, nesta altura do campeonato, dá ideia de ser apenas uma desculpa para a montanha ir acabar por parir um rato.

O que o país quer saber não é se Carlos Alexandre é pessoa frustrada por não ter sido padre, se trabalha muito ou se os colegas gostam dele ou não. Isso é para as revistas cor-de-rosa. O que todos queremos saber é há indícios suficientemente fortes para acusar Sócrates de algum crime. E isso – que é a única coisa que importa – Carlos Alexandre ainda não disse. Se é inocente, arquive-se ou absolva-se em julgamento. Se é culpado, condene-se. Já chega de telenovelas manhosas.

 

Fonte: José Brissos-Lino, O Setubalense, 16/9/16.        

 

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