Dylan e Amália

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A academia de Oslo surpreendeu recentemente o mundo com a atribuição do Prémio Nobel da Literatura 2017 a Bob Dylan, tendo dado origem a uma imensa polémica em todo o mundo, em particular nos meios literários.

Em que é que um escritor de canções é menos escritor do que um romancista, um contista ou um poeta? Um songwriter não será um poeta?

Amália teve a lucidez de trazer para o Fado inúmeros grandes poetas, a começar por Camões e D. Dinis, até Pedro Homem de Mello e David Mourão Ferreira. Toda a gente achou muito bem. Mas “trazer” um escritor de canções para a Literatura já faz urticária a alguns autores por esse mundo fora.

A academia norueguesa não fez mais do que valorizar uma tradição tão antiga, que casava a música com a poesia, que vem pelo menos desde os aedos dos antigos gregos, passando pela arte trovadoresca, onde cresceram os dentes à língua de Camões, Bocage e Pessoa, permitindo-lhe autonomizar-se do então galaico-português.

Bem sei que ir contra a tradição é sempre perigoso, mas basta olharmos para a lista de escritores nobilizados, desde sempre, e vamos encontrar muitos ilustres desconhecidos, que nunca deixaram marca na sociedade nem na literatura. Vamos perceber igualmente a falta de muitos outros que, nunca tendo sido distinguidos com este prémio, se tornaram monstros da cultura universal.

Portanto, das duas uma, ou o homem não merece o prémio, e nesse caso é mais um duma longa lista, ou está sob o “efeito Schweppes”, primeiro estranha-se e depois entranha-se.

Mas o autor recém-laureado é igualmente homem da prosa e destacou-se como ícone da cultura americana.

Outros autores mereceriam esta distinção? Certamente. Sempre foi assim. Por exemplo, andamos há anos a falar do nosso Lobo Antunes, e nada. Mas não deixa de ser refrescante observar que a academia do Nobel não se deixou anquilosar pela tradição, nem enredar no pó dos pergaminhos bafientos, revelando-se ainda capaz de ousar um rasgo de inconformismo num mundo de permanente inovação. Saber agitar as águas é sintoma de vida, vitalidade e juventude.

Queremos uma academia atenta aos tempos em que vivemos e não encerrada numa torre de marfim onde pontificam meia dúzia de iluminados.

A atribuição de um prémio desta natureza é (e deve ser) sempre questionável. Os critérios podem variar. Mas acredito que quase ninguém prestou atenção à justificação que a própria academia prestou ao mundo pela sua escolha: por ter criado “um novo modo de expressão poética na tradição americana”, e isso é inquestionável.

 

Fonte: José Brissos-Lino, O Setubalense, 21/10/16.

 

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