Arte e vandalismo

Large Scale Street Art Murals

 

As nossas cidades começam a estar cada vez mais caracterizadas por intervenções pictóricas de carácter marginal na via pública. Edifícios de habitação, comerciais, de serviços e outros equipamentos urbanos e de transportes públicos estão hoje grafitados, a maior parte das vezes sem qualquer tipo de critério artístico ou estético, desfeando grosseiramente avenidas, ruas e praças.

É certo que tal prática não tem nada a ver com a arte urbana da pintura mural, de que temos excelentes exemplos um pouco por todo o país, assinados por reconhecidos artistas, como é o caso da reprodução da fotografia do menino que vendia pássaros, que embeleza o equipamento do Largo José Afonso, em Setúbal. Não me refiro, portanto, a arte mas a puro vandalismo.

Trata-se dum fenómeno cultural intimamente associado à vida nocturna, ao desemprego e à desocupação e falta de horizontes de vida das camadas jovens da sociedade, que traduz um desejo de afirmação, daí as assinaturas dos executantes, em forma de pseudónimo, mas também os códigos gráficos através dos quais comunicam e que são característicos desta subcultura.

O facto é que tal actividade desfigura o espaço público, manifestando mesmo uma notória falta de respeito pelos concidadãos e pela convivência em comunidade, em especial quando se vandalizam muros ou paredes de edifícios particulares recentemente pintados.

Talvez esta actividade traduza, afinal, a compulsão comunicativa de que sofre actualmente o mundo. Desde as redes sociais onde as pessoas expõem toda a sua vida, minuto a minuto – o que comem, aonde vão, o que vestem, e muitas outras vertentes até da sua intimidade – na esperança de receber uns likes, aos programas popularuchos de televisão aonde há sempre alguém disposto a despir-se emocionalmente, na perseguição dos seus três minutos de fama.

No fundo o que parece é que há aqui um problema de autoestima grave, que leva as pessoas a necessitarem de se sentir aceites, apreciadas e amadas pelos outros para serem gente. É o velho problema do locus de controlo externo. Se eu não me considero a mim mesmo o suficiente para me sentir bem na minha pele, vou necessitar do reforço positivo dos outros para esse efeito. Para isso tenho que aparecer, dizer coisas que revelem a minha sensibilidade, bom gosto, ou mesmo rebeldia – conforme os casos – através dos canais que tenho à disposição, de modo a suscitar um feed-back sem o qual não consigo viver, pois o anonimato equivale à inexistência ou à morte.

Embora as artes de rua possam trazer um contributo muito positivo para a paisagem urbana, o que mais se vê por aí é puro vandalismo. E é pena.

 

Fonte: José Brissos-Lino, O Setubalense, 4/11/16. 

 

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