Um tiro no pé

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O mundo está cada vez mais transformado num sítio estranho e perigoso. Muitos foram aqueles que despertaram na passada quarta-feira em estado de choque ao receber a notícia de que Donald Trump tinha ganho as eleições nos Estados Unidos.

Fui-me deitar na terça-feira com uma sensação estranha, de desconforto, justamente com o sentimento de que o homem iria mesmo ganhar, apesar de tal coisa parecer inconcebível, mesmo com as últimas projecções a manterem proximidade apertada nas intenções de voto.

Nessa noite tinha estado reunido com casais amigos na minha casa e discutimos sobre o assunto, em particular sobre a posição dos evangélicos americanos – normalmente muito conservadores – no apoio maioritário à personagem.

Em ética fala-se de duas linhas teóricas: os deontologistas e os consequencialistas ou utilitaristas. Os primeiros observam um conjunto de valores, devidamente escalonados por grau de importância, agindo em função dos mesmos e da sua posição relativa. Os segundos defendem que os meios justificam os fins, isto é, que o que interessa são os objectivos finais que se pretendem alcançar. Se o caminho para lá chegar for pouco recomendável não importa, o que conta é sempre o final.

É confrangedor ver como muitos líderes religiosos evangélicos (e não só) acabaram a vender a alma ao diabo ao defender o indefensável Trump. Para eles o que importa é que o presidente impeça o casamento de homossexuais, mas acabar com o Obamacare deixando morrer sem assistência médica cerca de quarenta milhões de americanos que não têm condições para pagar um seguro de saúde, isso já não interessa.

O que importa é impedir as mulheres de interromper a gravidez (sendo que, se forem suficientemente abastadas podem sempre ir ao estrangeiro abortar), mas vender armas a qualquer pessoa, que depois vão provocar massacres recorrentes em escolas e no espaço público, já não interessa. Ou enviar os mancebos para a guerra de modo a fazer prosperar o complexo militar-industrial também pouco interessa. Aliás, Trump fez questão de humilhar os heróis de guerra vivos e mortos, ele que fugiu à guerra do Vietname através do dinheiro de um pai rico…

Os líderes religiosos deram um tiro no pé. Ninguém mais vai acreditar em discursos éticos esquizofrénicos, ou nas atitudes de alguém que se vende por um prato de lentilhas, que vê o mundo a preto e branco, e o divide entre anjos e demónios, esquecendo que, afinal, todos temos um pouco de cada. Pobres seres humanos que temos a pretensão de obrigar os outros a viver de acordo com os nossos códigos particulares de ética, esquecendo o princípio que o apóstolo Paulo endereçou aos cristãos de Roma: “cada um dará conta de si mesmo a Deus” (14:12).

 

Fonte: José Brissos-Lino, O Setubalense, 11/11/16. 

 

 

 

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