Corrupção, coragem e risco

arton7326

 

“Vi a corrupção e fui-me embora. Fui mais útil ao PS saindo do que ficando. Hoje tudo está comprado ou vendido. Quase tudo.” (António Arnaut)

Ninguém já se ilude com a actual tendência perversa da política em todo o mundo. Inicialmente considerada com a lidação da polis parece hoje reduzida à mera defesa dos interesses particulares e de grupo, com a agravante de alguns deles serem absolutamente ilegítimos.

Questões como a salvaguarda do interesse público, qualificações como o sentido de Estado, virtudes como a probidade e a integridade, tudo isto é hoje visto como bizarrias, se levarmos em consideração a corrupção galopante a todos os níveis do aparelho de Estado e na sociedade em geral, o abuso de poder e o nepotismo de governantes e até de legisladores.

O desencanto com os desvairados e tortuosos caminhos da política tem levado os povos a um adormecimento democrático, com o consequente alheamento e abstenção eleitoral, mas ultimamente surgiu um despertar muito mais perigoso porque influenciado pelos populismos que varrem a Europa e o mundo.

Está a ser hoje colocada no poder a elite mais desqualificada de sempre, seja por golpismo seja pelo voto. Olhemos para os Estados Unidos, com a pessoa porventura mais desqualificada de sempre à frente dos seus destinos, um homem sem moral, sem ética, completamente irresponsável.  Na Europa enfrentamos a eterna gestão das crises, sem futuro, nem equidade nem solidariedade, enterrado que já foi o sonho europeu.

Nas Filipinas temos um presidente que faz de Hitler um menino de coro, ao apelar declaradamente ao assassínio de toxicodependentes e traficantes de droga. Putin é o que se sabe, assim como Maduro na Venezuela e Mugabe no Zimbabwe. Aliás, em matéria de corrupção e despotismo, África é uma desgraça e até o presidente da nação mais evoluída do continente – Jacob Zuma – está sob fortes suspeitas.

A crise generalizada das lideranças em países supostamente democráticos é sobretudo uma crise de falta de esperança no ser humano. Perdeu-se o sentido de futuro e tudo isto se transformou no “cada um por si”. Quando falta a esperança, começa por se perder a coragem e acaba por se ficar também sem a dignidade. Sim, porque é necessário ter coragem para um líder se manter íntegro neste lamaçal de corrupção, mas também para fazer a diferença e correr riscos.

Renzi é um jovem político que foi primeiro-ministro de Itália até agora. Correu um risco com este referendo e perdeu. Sai de cabeça levantada. Gabo-lhe a coragem. Precisamos de mais governantes que estejam dispostos a superar os calculismos e a teia da baixa política. Que arrisquem ser genuínos.

Fonte: José Brissos-Lino, O Setubalense, 9/12/16.

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5 comentários a “Corrupção, coragem e risco”

  1. Bem direto e instigante. Tem profundos ecos no Brasil de agora! Obrigado, por não me deixar pensar só!!

  2. Não concordo com a suposta coragem do ministro italiano, é minha convicção que estava ali uma amostra de Mussolini.
    Se o referendo fosse a favor dele, passava a ter todo o poder para fazer e desfazer ao seu belo-prazer o percurso político da Itália.
    Ainda assim, creio que poupou por excesso a corrupção em toda a Europa e sem qualquer excepção porque único salpico que deu foi a Rússia do Putine porque se pôs mais a jeito. Então o que falar dos países latino-americanos, ficar pela Venezuela é muito curto e revelador de tendência. Na Ásia: a China ea Índia, a corrupção é universal porque é a crise de um sistema esgotado e sem saída e não é por acaso que começa ser difícil parar as guerras.
    And the show must go on…
    Mother should i trust in Government…
    Mother should i run to President..
    Oh.Oh.Oh is a Christmas Time.

  3. Não percebo como conclui que Maduro é um corrupto, e o mistura com os outros que refere. Talvez seja incompetente.
    Gostei bastante do seu texto, mas listando assim um conjunto de pessoas a eito, aqueles que os media referem, media que reproduzem fielmente a opinião de quem lhes paga, o seu estilo pode aproximar-se dos populistas que critica

  4. Não leu o que eu escrevi. Não disse que Maduro era corrupto, mas poderia dizer coisas ainda piores do que essa. A mistura com outros nomes é baseada nesta frase, que precede os nomes:
    “Está a ser hoje colocada no poder a elite mais desqualificada de sempre, seja por golpismo seja pelo voto.”

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