O dia em que Egas Moniz fintou a Censura

 

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Egas Moniz, o cientista português galardoado com o Nobel da Medicina em 1949 protagonizou um episódio de afronta à ditadura de Salazar que ainda hoje surpreende pela coragem.

Entrevistado pelo República nas vésperas das legislativas de 1953, o médico, que era conhecido pelas suas ideias progressistas e crítico do regime de partido único, surpreendeu tudo e todos com o desassombro das suas declarações. A Oposição vinha a queixar-se desde 1934 da falta de condições de liberdade para concorrer, tanto devido à habitual censura aplicada à Imprensa, como pela impossibilidade de fiscalizar o acto eleitoral, como seria normal em quaisquer eleições livres e justas, já que se sabia das “chapeladas” do costume praticadas pelos legionários.

A famosa entrevista ocupava toda a primeira página do jornal e levava em título “A comédia vai repetir-se!”. O lead era ”Eleições sem fiscalização da Oposição não merecem esse nome: são nomeações que podiam ser feitas pelo Ministério do Interior – declara à ‘República’ o eminente sábio de prestígio internacional”. Em subtítulo dizia-se “Egas Moniz, Prémio Nobel, glória da nossa cultura, produz um depoimento esmagador contra a actual situação”.

Salazar viu-se obrigado pelas circunstâncias políticas a permitir que a Censura deixasse passar a entrevista explosiva. Ainda assim a Pide tentou fazer parar as máquinas de impressão, mas a coragem do director do jornal prevaleceu: “Ou sai daqui a tiragem toda ou não sai nada!” E assim foi, saiu a tiragem toda.

Egas Moniz tinha envolvimento político de há muito, tendo chegado a ser um dos primeiros presos do regime republicano. Em 1926, quando a ditadura militar se estabelece fica expectante, mas desilude-se logo que Salazar sobe ao poder e proíbe qualquer oposição, momento em que se tornou também um opositor frontal.

Alvejado por um paciente, Salazar informava-se todos os dias do seu estado de saúde, mas depois recusou-se a recebê-lo, mesmo com o intermédio de amigos. Em 1951, dois anos depois de receber o Nobel, foi convidado a candidatar-se à presidência da República. A reacção foi contundente: “Lembraram-se agora de mim? Já não interessa…”.

JB-L

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