A verdade sobre o amor de mãe num poema triste: “A senhora de Brabante”

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Não, de todo, o amor de Mãe não se revela apenas e torna capa de revista cor-de-rosa quando o filho é belo e bem-sucedido na vida.

O poeta do final do Romantismo português, Gomes Leal (1848-1921), em 68 versos de 17 quadras, prova-o no belíssimo quanto triste “A Senhora de Brabante”.

O amor de mãe é um oceano que encerra todas as procelas, todas as calmarias, todas as vicissitudes, as piores, onde apenas de uma profundidade inexplicável o rosto do filho ou da filha se vislumbra. No caso do poema referido, um filho.

Não existe simbolismo literário ou romantismo poético que cheguem, nestes versos, a sua corrente poética é a realidade profunda do coração de mãe. É um caso excepcional, mas está todo no poema “A Senhora de Brabante”.

Se tivéssemos que catalogar este poema e o retrato que nele é feito da Senhora e do seu filho “horroroso”, “raquítico, enfezado, excepcional”, não usaríamos o preto-e-branco, que é uma abstração, mas sim a fotografia a cores, que é a realidade – conceito de um dos célebres fotógrafos da Magnum.

Claro que há as excepções, e mesmo na ficção literária mundial. Em “A Leste do Paraíso”, a saga de John Steinbeck,  a mãe é um deus-ex-machina do romance que vem destruir toda a suposta harmonia familiar, com o abandono dos filhos ainda na infância destes.

A mãe, apesar do seu esplendor que se depreende de bela mulher, no poema de Gomes Leal vive na mais profunda tristeza, reflexo do seu filho que ama.

Gomes Leal, enquanto poeta de uma geração, chamada de os Modernos Românticos do Século XIX, terá transposto ao contrário para o poema em análise, o que o derrotou na vida: “ a morte da mãe estremecida” (como escreveu José Régio).

Mas a construção do seu poema “A Senhora de Brabante” prepara uma dimensão mais universal, sobretudo para quantos já perderam, como eu perdi, a Mãe. Eis alguns momentos dessa construção poética de puro adágio de dezassete quadras:

O que é certo é que a pálida Senhora,
a transcendente dama de Brabante,
tem um filho horroroso… e de quem cora
o pai, no escuro, passeando errante. 

É um filho horroroso e jamais visto! —
Raquítico, enfezado, excepcional,
todo disforme, excêntrico, malquisto,
— pêlos de fera, e uivos de animal! 

Ora o monstro morreu. — Pelas arcadas
do palácio retinem festas, hinos.
Riem nobres, vilões, pelas estradas.
O próprio pai se ri, ouvindo os sinos… 

— Só chora o monstro, em alto choro, a mãe!…

Só, sobre o esquife do disforme morto,
chora, sem trégua, a mísera mulher.
Chama os nomes mais ternos ao aborto…
— Mesmo assim feio, a triste mãe o quer!

© João Tomaz Parreira

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