Perguntas soltas

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Em trânsito de Belém da Judeia para o mundo

Circunscrito dos homens, viajando

Em todos os comboios, com o sono

Do Menino em sobressalto, com anjos

Sem sapatos

(João Tomaz Parreira, Salmo de Natal)

 

Como conseguiremos escrever alguma coisa sobre uma quadra tão relevante no calendário religioso cristão como o Advento, face a uma sociedade materializada e secularizada, sem perder o sentido da coisa nem soar a algo ultrapassado?

Como alertar para o facto de o Natal não ser o que a lógica capitalista fez dele, transformando-o na sua essência e reduzindo-o a uma lamentável pulsão consumista, despesista e hedonista?

Como faremos para lembrar que as renas substituíram o burro, a vaca e as ovelhas do presépio, os gnomos substituíram os pastores, e que o Pai Natal usurpou o lugar da figura central da Natividade, e notarmos que o homenzinho gorducho de vermelho e longas barbas brancas oferece coisas, mas Jesus Cristo se deu a si mesmo a todos os homens, e que entre uma atitude e outra vai todo um mundo de diferenças?

Como entender que uma quadra como esta sirva tantas vezes para acirrar rivalidades familiares e até cortes de relações entre pessoas do mesmo sangue, que durarão longos e bons (?) anos?

Como aceitar que a quadra não passe dum pretexto para alguns beberem imoderadamente, se embebedarem e fazerem figuras tristes, criando constrangimentos em todos os outros e brigas sem sentido nem substância alguma?

Como aceitar que a Consoada sirva apenas para, perante uma mesa farta, dar vazão à gula e comerem descontroladamente até se sentirem indispostos e doentes?

Como compreender que as pessoas se sintam obrigadas a trocar presentes só porque sim, ou porque senão parece mal, e tantas vezes essas mesmas prendas não passem de objectos sem qualquer utilidade, que apenas provocam desperdício?

Como faremos para passar a mensagem de que o Natal é muito mais do que uma festa para crianças pequenas, que pensam que o homenzinho de vermelho desce pela chaminé, muito mais do que um pretexto para juntar a família à volta da mesa para comer e beber até cair?

Como entender que alguém se afirme cristão e nem sequer numa data como esta se junte com outros cristãos a fim de cultuar a Deus e celebrar o nascimento do Salvador?

E como entender a loucura habitual do fim-de-ano que, afinal, não passa de uma folha virada no calendário, a caminho de um novo dia que ninguém sabe se vai ser melhor ou pior do que o anterior? A economia vai conseguir crescer em 2017? O desemprego vai reduzir? Vamos aguentar o serviço da dívida? E que efeito vamos sofrer com o Brexit e com aquele aventureiro em Washington? E as eleições na Alemanha, França e Itália?

Apesar de tudo talvez seja melhor ser optimista e acreditar, por isso desejo um bom ano.

 

Fonte: José Brissos-Lino, Sem Mais, 31/12/16.

 

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