O ditador

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André Carrilho.
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A revolução necessária

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Toda a gente com dois dedos de testa já compreendeu que no mundo em que vivemos a educação de crianças e jovens é fundamental para o seu futuro sucesso profissional. Os estudos indicam-no claramente. Daí que as políticas de educação sejam centrais, qualquer que seja o modelo de desenvolvimento que se adopte ou a ideia de país que se tenha. Numa sociedade globalizada ainda mais, por maioria de razão.

O grande desafio está em dar o salto de uma escola formatada no século XIX para o tempo presente, tendo em conta as incríveis alterações de ordem social e científica verificadas nos últimos cem anos. Mas a sensação que se tem é que o sistema de ensino continua atrasado em relação à dinâmica da sociedade e tem muita dificuldade em mudar.

Sou docente universitário mas não especialista em educação, mas creio que se pode afirmar que esta matéria é importante de mais para ser deixada apenas a especialistas.

As crianças não estão todas destinadas a serem investigadores e docentes. Têm que sair da escolaridade obrigatória com determinadas competências para a vida. Por exemplo, não faz sentido que não tragam feito o exame do Código da Estrada e tenham que vir pagar a privados para o obter. Todos eles virão a ser condutores de algum tipo de veículo ou peões. Ou uma formação prática em economia pessoal e doméstica. Ou em primeiros socorros. Ou em cidadania (sistema de Justiça, ambiente, política, segurança). Ou em religiões do mundo (educação para a diversidade, a multiculturalidade e a paz). Isto teria muito mais valor pessoal e cívico do que aprofundar em demasia matéria nas áreas de matemática, literatura, física ou química, para aqueles que não se sentem vocacionados para tal.

O exagero dos livros didácticos é escandaloso, não apenas pelo alto preço que obrigam as famílias a desembolsar (parte dos quais nem são utilizados uma única vez), mas também pelo peso que põe em causa a saúde das crianças. Porque não enfrentar os lóbis das editoras e proporcionar a cada aluno, a partir do 2º. Ciclo, um tablet (que fica na escola) e onde acedem aos conteúdos?

E porque não passar a ter algumas aulas ao ar livre, se possível na Natureza? Resolvam-se os constrangimentos burocráticos. E porque não desenvolver um tronco comum, nos primeiros anos, e depois derivar, numa segunda fase, para áreas específicas como ciências, humanidades ou artes, de acordo com a vocação de cada aluno? E porque se valorizam tanto as ciências e quase nada as línguas e a música? E porque não substituir parte das aulas dadas em sistema unidirecional, onde o professor fala e os alunos ouvem (?) por “ilhas” de exploração de interesses em plena sala, com tarefas diferenciadas? Resolvam-se os problemas de falta de professores. E porque não substituir os por vezes pesados trabalhos para casa (TPC) por aulas estimulantes, que vão ao encontro dos interesses dos alunos e onde eles aprendem muito mais do que em forçados TPC ou aulas a debitar matéria?

Tanto para fazer e tanto para mudar.

 

Fonte: José Brissos-Lino, Jornal Sem Mais, 25/2/17.

O lado negro da Democracia

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O caso Centeno constitui um exemplo notável do lado negro da luta político-partidária.

Vejamos o que está em causa. A Caixa Geral de Depósitos (CGD) necessitava de uma administração profissional, depois de décadas a servir como prateleira dourada a políticos, opção que acabou por prejudicar seriamente a instituição. Precisava também de se reforçar financeiramente, em consequência das chamadas imparidades, isto é, dos créditos concedidos sem critério a amigos e correligionários políticos, que quase a fizeram afundar, por se terem revelado incobráveis.

Perante isto o ministro das Finanças e o governo arregaçaram as mangas e resolveram o que nenhum governo tivera antes coragem política para fazer. Mas como está difícil fazer oposição a António Costa a direita concentra-se na forma e não no conteúdo, na agenda política e não no interesse colectivo e nacional.

Assim, há que atacar Mário Centeno, que tem conseguido alguns desempenhos notáveis na sua área de intervenção. Note-se que nem PSD nem CDS têm qualquer força moral para exigir a demissão dum ministro, alegando que mentiu ao parlamento. Primeiro porque ninguém o provou até hoje, preto no branco, depois porque ambos têm telhados de vidro. Será necessário recordar Dias Loureiro, Miguel Relvas e Maria Luís Albuquerque no PSD, por exemplo, ou a demissão “irrevogável” de Paulo Portas no CDS?

Segundo Manuela Ferreira Leite “a questão da correspondência trocada entre Centeno e António Domingues está a ser tratada como ‘se fosse um problema fundamental’ do banco público quando ‘não é’. ‘Isto não é um problema dos portugueses. É político e é uma trica entre duas pessoas”.

O presidente da república tem-se mantido firme na defesa do interesse nacional e coloca-se acima dos partidos. O PSD é o mais ressabiado com isso, pois é sabido que Passos Coelho era contra Marcelo em Belém e este nem precisou do apoio do partido para se fazer eleger à primeira volta, mantendo níveis de popularidade invejáveis, e mostra que é presidente de todos os portugueses, não estando refém da sua família política.

O que interessa ao país é que o governo defenda os seus interesses, governe para as pessoas e não apenas para Bruxelas e os grandes grupos económicos. Ora, a recapitalização da Caixa – um sucesso inegável de Costa e Centeno, face à Comissão Europeia – e a nova administração, competente e especializada, representam um salto em frente na resolução dos inúmeros problemas do sector financeiro, que o governo PSD/CDS nunca se mostrou capaz de resolver.

A direita tem vindo a desenvolver esta campanha pessoal contra Centeno porque os sucessos económico-financeiros da geringonça destroem o seu discurso do medo. E porque Passos Coelho queria privatizar a CGD.

Temos pena.

 

Fonte: José Brissos-Lino, O Setubalense, 24/2/17.