O fenómeno da corrupção – II

arton7326

 

Na semana passada reflectimos aqui sobre o fenómeno da corrupção, a sua influência na vida democrática e na sociedade em geral, e sobre as razões porque as pessoas se corrompem e deixam corromper. Mas como atacar tão momentoso problema?

Desde logo através da disponibilização aos cidadãos de informações práticas, em linguagem clara e acessível, que lhes permita não só identificar os casos concretos de cometimento deste crime, mas também lhes faculte o conhecimento dos procedimentos a adoptar perante essas situações.

De todo o modo o crime de corrupção tende a crescer quando os procedimentos na administração pública não são adequados, do ponto de vista da transparência, mas também quando os cidadãos não tendem a escrutinar devidamente a res publica. Creio que o segundo caso é o mais fulcral nesta matéria, uma vez que, se os consumidores estiverem cientes dos seus direitos, os utentes forem exigentes quanto à prestação dos serviços a que recorrem, e os cidadãos em geral não se alhearem da vida pública, decerto que muitos destes comportamentos problemáticos desaparecerão.

A cultura da cunha, do facilitismo e do nacional-porreirismo, em contraste com a da responsabilidade e do mérito, tem-se transformado em terreno fértil para o crime de corrupção. As populações têm que ser exigentes. Veja-se o recentemente sucedido na Roménia, onde um governo sem um pingo de vergonha na cara tentou fazer passar uma lei para amnistiar os crimes de corrupção até um certo valor, e como o povo respondeu nas ruas de forma tão frontal que o executivo teve de recuar. Não contentes com isso, as populações continuam agora a exigir a queda desse mesmo governo, que perdeu toda a credibilidade e não merece mais a sua confiança.

Mas creio que, e acima de tudo, o caldo de cultura que permite o fenómeno da corrupção é um individualismo feroz em lugar do sentido de comunidade. A modernidade libertou a importância do indivíduo e a sua autonomia no todo social. Levou-o a pensar pela sua cabeça, a ter uma voz na definição do seu destino e a escolher a sua forma de relação com a transcendência. Deixou de ser súbdito sem direitos e passou à condição de cidadão com dignidade pessoal e direitos garantidos por lei. Só que, neste momento, assiste-se a um extremar das posições individualistas em prejuízo do colectivo, o que se torna nocivo para o tecido social e em particular para a construção dum sentido de comunidade de interesses e de destino.

Se eu sobrevalorizo o que me diz respeito a mim, à minha família e grupo, desprezando o interesse geral da comunidade, estou a abrir caminho para a corrupção e todos os inúmeros crimes a ela associados.

 

Fonte: José Brissos-Lino, O Setubalense, 17/2/17.

 

 

 

 

 

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