O lado negro da Democracia

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O caso Centeno constitui um exemplo notável do lado negro da luta político-partidária.

Vejamos o que está em causa. A Caixa Geral de Depósitos (CGD) necessitava de uma administração profissional, depois de décadas a servir como prateleira dourada a políticos, opção que acabou por prejudicar seriamente a instituição. Precisava também de se reforçar financeiramente, em consequência das chamadas imparidades, isto é, dos créditos concedidos sem critério a amigos e correligionários políticos, que quase a fizeram afundar, por se terem revelado incobráveis.

Perante isto o ministro das Finanças e o governo arregaçaram as mangas e resolveram o que nenhum governo tivera antes coragem política para fazer. Mas como está difícil fazer oposição a António Costa a direita concentra-se na forma e não no conteúdo, na agenda política e não no interesse colectivo e nacional.

Assim, há que atacar Mário Centeno, que tem conseguido alguns desempenhos notáveis na sua área de intervenção. Note-se que nem PSD nem CDS têm qualquer força moral para exigir a demissão dum ministro, alegando que mentiu ao parlamento. Primeiro porque ninguém o provou até hoje, preto no branco, depois porque ambos têm telhados de vidro. Será necessário recordar Dias Loureiro, Miguel Relvas e Maria Luís Albuquerque no PSD, por exemplo, ou a demissão “irrevogável” de Paulo Portas no CDS?

Segundo Manuela Ferreira Leite “a questão da correspondência trocada entre Centeno e António Domingues está a ser tratada como ‘se fosse um problema fundamental’ do banco público quando ‘não é’. ‘Isto não é um problema dos portugueses. É político e é uma trica entre duas pessoas”.

O presidente da república tem-se mantido firme na defesa do interesse nacional e coloca-se acima dos partidos. O PSD é o mais ressabiado com isso, pois é sabido que Passos Coelho era contra Marcelo em Belém e este nem precisou do apoio do partido para se fazer eleger à primeira volta, mantendo níveis de popularidade invejáveis, e mostra que é presidente de todos os portugueses, não estando refém da sua família política.

O que interessa ao país é que o governo defenda os seus interesses, governe para as pessoas e não apenas para Bruxelas e os grandes grupos económicos. Ora, a recapitalização da Caixa – um sucesso inegável de Costa e Centeno, face à Comissão Europeia – e a nova administração, competente e especializada, representam um salto em frente na resolução dos inúmeros problemas do sector financeiro, que o governo PSD/CDS nunca se mostrou capaz de resolver.

A direita tem vindo a desenvolver esta campanha pessoal contra Centeno porque os sucessos económico-financeiros da geringonça destroem o seu discurso do medo. E porque Passos Coelho queria privatizar a CGD.

Temos pena.

 

Fonte: José Brissos-Lino, O Setubalense, 24/2/17.

 

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