O fenómeno Marcelo

mrs. Foto Miguel A. Lopes

Foto: Miguel A. Lopes.

 

O presidente da república cumpriu o primeiro ano do seu mandato, para o qual foi eleito à primeira volta e por margem confortável.

A marca que deixou, para já, foi a de um presidente popular mas não populista. Sempre tem levado a sério a sua função institucional, acompanhando atentamente os trabalhos governativos e parlamentares. Mas também tem querido ser um “presidente do povo”, sem pretender assumir o papel de caudilho.

Já disse que a sua principal referência em Belém foi Mário Soares, o presidente cuja postura levou o centro-direita a apoiá-lo na reeleição, ainda que também por falta de referências próprias. De facto, tirando Eanes, com o seu perfil pessoal hirto e a condição militar, dos civis, além de Soares temos Jorge Sampaio – um homem com dificuldades discursivas e sem chama, e Cavaco, um institucionalista – em especial para o que lhe interessava – que manifestava grande desconforto em lidar com as populações e que exibia sempre uma postura rígida, hirta e pouco empática. Por alguma razão Soares foi o presidente mais popular até Marcelo chegar a Belém.

A crispação durante os anos negros da troika foi de tal ordem que a classe política estranhou a elevada cooperação institucional deste último ano, entre presidência e governo, e vão surgindo os comentadores de direita a sugerir que Marcelo será um traidor por não combater a “geringonça”. Dizem aquilo que os líderes de PSD e CDS não podem dizer abertamente, pois claro.

Estavam habituados a ter em Belém uma figura que fez tudo para atirar ao chão o governo socialista minoritário, e fechou os olhos a todas as tropelias que o governo anterior cometeu contra os interesses do país e em especial das populações socialmente mais frágeis.

Marcelo apoia o governo do país como apoiaria se o mesmo fosse de outra cor política, pois tem presente que o país é mais importante do que os partidos, essenciais ao regime democrático. E ele, como presidente, tem que estar acima das querelas e dos interesses partidários. Mas também há quem assegure que estará a preparar desde já a sua reeleição, por isso não pode afrontar um governo que tem o apoio da maioria do eleitorado, como se vê de forma recorrente e cada vez mais acentuada nas sondagens.

Seja como for, o certo é que a sua popularidade contrasta com a porta baixa pela qual saiu Cavaco na fase final do último mandato, nunca tendo sido o presidente de que o país necessitava.

Talvez Marcelo fale demais, talvez se mexa demais, mas suspeito que o que incomoda mesmo algumas cabeças bem pensantes da nossa praça é, por um lado, a alegria que demonstra no exercício da função, assim como o fim da sacralização do poder, de inspiração salazarista, nesta “apagada e vil tristeza” que costuma ser Portugal.

 

Fonte: José Brissos-Lino, O Setubalense, 17/03/17.   

 

 

 

 

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