Manuel Sérgio: contra Descartes, pelo homem todo

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Parece que só agora, já a caminhar para o final da vida de Manuel Sérgio, se começa a prestar a devida atenção à obra e pensamento do filósofo que revolucionou a forma de olhar o desporto e a actividade física.

A verdade é que este académico operou uma mudança de paradigma, ou um corte epistemológico no seio da educação física de inspiração cartesiana, abrindo caminho a uma nova disciplina científica, a motricidade humana.

Manuel Sérgio percebeu que a educação física nasce no século XVIII, no período alto do racionalismo e nada tem que ver com os Gregos. Estes tinham uma visão do ser humano integrado, que passava pela música e pela ginástica, enquanto Descartes dividia a pessoa em duas substâncias. Por um lado o espírito, a ser trabalhado pelos religiosos e a parte física onde entrava a educação física. Foi contra este dualismo antropológico que o filósofo trabalhou boa parte da vida, rejeitando a educação física clássica instituída, defendendo que o desporto se destina ao homem todo.

Manuel Sérgio superou assim o fisiologismo ou biologismo que dominava no mundo das ideias e no treino desportivo, sublinhando que o desporto é apenas um dos aspetos de uma nova ciência humana.

Sendo assim, não é correcto continuar a falar em educação física, porque segundo Wittgenstein a nossa linguagem é o nosso mundo. Ao dizer educação física está-se a reduzir ao físico algo que tem dimensão humana, que extrapola o físico, e de acordo com o filósofo, não há educação do físico mas de pessoas no movimento intencional da transcendência.

Quando Miguel Real e José Eduardo Franco leram a tese de doutoramento de Manuel Sérgio, marcaram um almoço com ele e disseram-lhe que ela era um verdadeiro acontecimento na vida cultural portuguesa. Foi aí que o pedagogo tomou consciência da importância revolucionária das suas ideias.

Manuel Sérgio defende que o desporto reproduz e multiplica as taras da sociedade capitalista. A mania do rendimento, do recorde, da medida, da alta competição, tudo típico da economia capitalista. Ou seja, perdeu-se a dimensão humana e ficou-se pelo desempenho meramente físico, o que é altamente redutor, pois o atleta não é uma máquina mas um ser humano.

Por tudo isto foi muitíssimo oportuna a realização recente de um Colóquio Internacional dedicado à obra e pensamento do filósofo, com o objectivo de “analisar e salientar o legado pedagógico, filosófico e cívico do Professor Doutor Manuel Sérgio, contribuir para uma visão de conjunto em torno da sua obra, e prestar igualmente uma justa homenagem a este vulto da cultura portuguesa contemporânea.”

 

Fonte: José Brissos-Lino, Sem Mais, 27/5/17.

 

 

 

 

 

 

 

 

O défice e a dívida

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O grande bau-bau até agora era o défice, inventado, de resto, de forma incompreensível e atrabiliária pelos tratados europeus. Mas eis que a retórica política passou para a dívida, uma vez controlado o défice.

Sim, temos uma dívida muito elevada. Se analisarmos os países com maior dívida são os periféricos, menos desenvolvidos – que utilizaram os baixos juros e a disponibilidade de financiamento para desenvolverem mais rapidamente os seus territórios e infraestruturas – e de economia mais frágil. Por isso mesmo, quando veio a crise foram os mais penalizados. A nossa dívida é semelhante à de Espanha, em termos relativos, a meio caminho entre a de Chipre e Grécia e a dos outros países.

Mas o défice e a dívida têm servido propósitos políticos perversos.

Desde logo porque serve de pretexto para a implementação de políticas de recorte neoliberal, muitas vezes de empobrecimento objectivo e intencional das classes baixas, de modo a embaratecer o custo dos salários e criar um exército de trabalhadores que quase pagam para trabalhar. A dignidade humana e a coesão social vão assim às malvas, em nome da “falta de alternativa”, de modo a criar uma cultura de “comer e calar”. Esta tem sido a política europeia dos últimos tempos, mesmo durante toda a crise iniciada em 2008, apesar de vir ao arrepio das intenções iniciais do projecto europeu.

A direita clama por reformas, mas todos sabemos que “reformas” são essas: cortes nos salários, pensões e prestações sociais, aumento brutal de impostos (Gaspar “dixit”), falências, desemprego, emigração e empobrecimento geral do país. Isto é, a receita da troika, alegremente adoptada e amplificada pelo governo anterior.

As reformas que realmente importam e estão por fazer são a normalização do sistema de justiça, em especial no que respeita à rapidez dos procedimentos, a estabilização do sistema fiscal, a produtividade e a simplificação dos procedimentos da máquina administrativa, que trata o cidadão-contribuinte e as empresas invariavelmente como súcia de ladrões.

O saneamento das contas públicas levado a cabo nos últimos anos, permitiu que saíssemos agora do procedimento de défice excessivo e abre a porta à saída da classificação de “lixo” nas agências de rating. Claro que temos que reduzir a dívida, mas sem hipotecar o desenvolvimento do país.

Entretanto parece que o “diabo” anda longe. Pelo contrário, a economia está a crescer, o investimento a subir, o desemprego a cair e a criação de emprego em força. Depois da pantufada da crise internacional de 2008 e dos que, inviabilizando o PEC IV (aprovado pela Europa) com sede do poder, abriram a porta à troika, fazendo dela o seu programa e indo até “além dela”, finalmente o país começa a estabilizar e a recuperar a sua dignidade.

Já não era sem tempo.

 

Fonte: José Brissos-Lino, O Setubalense, 26/5/17.