O défice e a dívida

Resultado de imagem para defice

 

O grande bau-bau até agora era o défice, inventado, de resto, de forma incompreensível e atrabiliária pelos tratados europeus. Mas eis que a retórica política passou para a dívida, uma vez controlado o défice.

Sim, temos uma dívida muito elevada. Se analisarmos os países com maior dívida são os periféricos, menos desenvolvidos – que utilizaram os baixos juros e a disponibilidade de financiamento para desenvolverem mais rapidamente os seus territórios e infraestruturas – e de economia mais frágil. Por isso mesmo, quando veio a crise foram os mais penalizados. A nossa dívida é semelhante à de Espanha, em termos relativos, a meio caminho entre a de Chipre e Grécia e a dos outros países.

Mas o défice e a dívida têm servido propósitos políticos perversos.

Desde logo porque serve de pretexto para a implementação de políticas de recorte neoliberal, muitas vezes de empobrecimento objectivo e intencional das classes baixas, de modo a embaratecer o custo dos salários e criar um exército de trabalhadores que quase pagam para trabalhar. A dignidade humana e a coesão social vão assim às malvas, em nome da “falta de alternativa”, de modo a criar uma cultura de “comer e calar”. Esta tem sido a política europeia dos últimos tempos, mesmo durante toda a crise iniciada em 2008, apesar de vir ao arrepio das intenções iniciais do projecto europeu.

A direita clama por reformas, mas todos sabemos que “reformas” são essas: cortes nos salários, pensões e prestações sociais, aumento brutal de impostos (Gaspar “dixit”), falências, desemprego, emigração e empobrecimento geral do país. Isto é, a receita da troika, alegremente adoptada e amplificada pelo governo anterior.

As reformas que realmente importam e estão por fazer são a normalização do sistema de justiça, em especial no que respeita à rapidez dos procedimentos, a estabilização do sistema fiscal, a produtividade e a simplificação dos procedimentos da máquina administrativa, que trata o cidadão-contribuinte e as empresas invariavelmente como súcia de ladrões.

O saneamento das contas públicas levado a cabo nos últimos anos, permitiu que saíssemos agora do procedimento de défice excessivo e abre a porta à saída da classificação de “lixo” nas agências de rating. Claro que temos que reduzir a dívida, mas sem hipotecar o desenvolvimento do país.

Entretanto parece que o “diabo” anda longe. Pelo contrário, a economia está a crescer, o investimento a subir, o desemprego a cair e a criação de emprego em força. Depois da pantufada da crise internacional de 2008 e dos que, inviabilizando o PEC IV (aprovado pela Europa) com sede do poder, abriram a porta à troika, fazendo dela o seu programa e indo até “além dela”, finalmente o país começa a estabilizar e a recuperar a sua dignidade.

Já não era sem tempo.

 

Fonte: José Brissos-Lino, O Setubalense, 26/5/17.  

 

 

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s