Elucubrações sobre um véu

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Como todo o mundo viu, a mulher do presidente dos Estados Unidos recusou-se a usar véu na cabeça durante a recente visita de estado à Arábia Saudita, na qual o acompanhou.

Até aqui nada de especial. Podemos até pensar que o terá feito como afirmação de independência e de recusa a subjugar-se – mesmo do ponto de vista simbólico – a uma certa cultura de menorização da mulher e de desigualdade de género. Nada de inédito, pois em 2015 já Michelle Obama havia feito o mesmo, mas na altura o dúplice Donald Trump correu a condenar a atitude na sua conta do Twitter… Acusou-a então de “desrespeito” pelos sauditas e recordou que os EUA “já tinham inimigos suficientes”.

Mas também a chanceler alemã Angela Merkel e a primeira-ministra britânica Theresa May recusaram cobrir a cabeça aquando da visita àquele país muçulmano, e Marine Le Pen, líder da Frente Nacional, anulou uma visita ao Líbano por lhe ter sido imposto o uso do véu.

O problema é que, a mesmíssima visita de estado, depois de passar por Israel chega ao Vaticano, e aí a D. Melania Trump decidiu vestir-se a rigor, de acordo com o protocolo papal, de negro e com um véu a cobrir-lhe a cabeça. Poder-se-á dizer que existem motivos religiosos, mas não consta que ela ou o marido sejam católicos romanos. Ainda que assim fosse, esta atitude de dois pesos e duas medidas não deixaria de parecer um desrespeito para com os sauditas, com a agravante de América e Europa estarem a braços com o terrorismo fundamentalista islâmico.

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Não. Não há qualquer explicação possível para o sucedido. O sinal que Melania poderia ter dado em defesa do estatuto da mulher nos países islâmicos caiu por terra ao chegar a Roma. Ambas são visitas de estado. O que a mulher de Trump recusou a um aceitou a outro. Mas Michelle Obama já tinha feito o mesmo, embora em viagens distintas…

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Tudo isto não passa de mais uma acha para a fogueira da confrontação ideológica (neste caso religiosa) entre Islão e Ocidente, quando os tempos são de diálogo inter-religioso e de firmeza nos princípios de liberdade e da dignidade de todos os seres humanos. O que irão pensar disto os muçulmanos americanos? E os jovens europeus à beira da radicalização? Os sauditas não se incomodarão muito, pois o que querem é aquele negócio galáctico que pode chegar a 380 mil milhões de dólares de armamento que Trump foi lá vender e que eles pagarão com o dinheiro do petróleo, para depois cederem parte do arsenal aos grupos terroristas. A serpente morde a sua própria cauda e há que alimentar o complexo militar-industrial, que é como quem diz, parte significativa dos apoiantes de Trump.

O mundo democrático não sabe muito bem o que há de fazer com o hijab (véu islâmico), mas parece que também não sabe lidar com os seus próprios véus.

 

Fonte: José Brissos-Lino, O Setubalense, 2/6/17.

 

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