A dama de pau carunchoso

May

 

Theresa May repetiu o erro do anterior primeiro-ministro conservador – David Cameron – ao forçar uma consulta ao eleitorado motivada por calculismo político. Cameron pariu assim o Brexit sem querer, e May perdeu a força política e parlamentar que dele havia herdado.

May quis apresentar-se como a nova Margaret Teatcher mas falhou em toda a linha. O que resulta desta campanha eleitoral é a fuga aos debates políticos com os adversários, os chavões atirados ao ar mas despojados de sentido e os zigue-zagues constantes nas propostas políticas.

Depois de ter anunciado a marcação de eleições legislativas antecipadas Theresa May anunciou pretender reforçar e fortalecer a maioria para enfrentar as negociações com o “Brexit”. May tinha garantido: “Não se iludam, pode acontecer. O facto duro e difícil é que, se eu perder seis lugares, perderei estas eleições e Jeremy Corbyn vai sentar-se para negociar com os Presidentes, primeiros-ministros e chanceleres da Europa”. O facto é que a “linha vermelha” que resolveu delimitar foi ultrapassada (perdeu o dobro dos lugares no Parlamento e com eles a maioria absoluta que detinha) e não se demitiu, o que é bem demonstrativo do ser carácter.

Dentre as múltiplas atoardas a que Donald Trump nos tem vindo a habituar, uma das mais graves do ponto de vista político e diplomático foi o ataque lançado contra o mayor de Londres, dias depois do último ataque terrorista.

Além de insultar Sadiq Khan, chamando-lhe “patético”, ainda se imiscuiu na política interna dum aliado ao sugerir que os londrinos têm todas as “razões para estar alarmados” com a atitude do autarca. Claro que o faz apenas pelo facto de o mayor ser muçulmano, sendo que a sugestão encapotada é a de que um filho de imigrantes paquistaneses não pode ter lugar numa sociedade ocidental. Mas Khan tinha tido uma atitude exemplar ao condenar os actos terroristas com palavras muito duras. Perante isto o que fez a primeira-ministra britânica? Remeteu-se a um silêncio cobarde.

E o que é que isto tudo tem a ver connosco? Muito. Há muito milhares de emigrantes portugueses a viver em terras de Sua Majestade, que talvez tenham ficado um pouco aliviados com o resultado das eleições, pois um Brexit puro e duro à la May estará fora de causa, em princípio, devido à fragilidade política da (ainda) líder conservadora e do seu governo, entre os novos inquilinos do Palácio de Westminster.

Depois de ter garantido que o acordo entre conservadores e unionistas estava fechado, estes vieram esclarecer que continuam a negociar. Em vez de dama de ferro, como a sua inspiradora política, May tornou-se numa espécie de dama de pau carunchoso, que a qualquer momento se pode desfazer em pó. É uma questão de tempo.

 

Fonte: José Brissos-Lino, O Setubalense, 16/6/17.

 

 

 

 

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