A narrativa de Tancos

 

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Só quem for distraído ou estúpido é que engole a versão do assalto aos paióis de Tancos que corre na comunicação social.

Simplesmente não é crível que todo aquele vasto arsenal bélico furtado, algum dele bem pesado, tenha saído do recinto por um buraquinho feito na cerca de arame, a meio quilómetro de distância.

Ninguém ouviu arrombar os portões? Os assaltantes alancaram com toneladas de material de guerra às costas toda aquela distância? E como é que sabiam exactamente onde se dirigir, uma vez que alguns paióis estavam devolutos? E o que explica que o buraco na rede fosse feito tão longe dos pavilhões assaltados? Não podiam ter violado a cerca mais perto?

É mais do que óbvio que alguém que trabalha lá dentro (ou que já lá trabalhou) forneceu informação exacta da localização do material, assim como das pausas nas rondas e da avaria da protecção electrónica.

Duvido mesmo que o furto não tenha sido realizado em viatura pesada de transporte entrada pela porta de armas, com a conivência de alguém. Pelo buraco da vedação é que não foi. Provavelmente quem comandava o posto de sentinela da porta principal era cúmplice ou talvez tivesse recebido autorização superior para deixar entrar e sair aquela viatura sem perguntas, verificação de papéis ou inspecção à saída.

Há quem pense que tudo não passou duma orquestração para abater ao inventário material de guerra que lá não estava. Ou porque nunca esteve, por ter sido pago mas não entregue, ou porque foi sendo desviado aos poucos.  Recorde-se que foram detidos há dias 12 militares e quatro empresários por suspeitas de corrupção passiva e activa para acto ilícito, abuso de poder e falsificação de documentos na área da comercialização de géneros alimentícios nas messes da Força Aérea. Dentre eles um major-general, um coronel, um tenente-coronel e um major.

Mas a ter mesmo havido furto, está na cara que este tipo de material se destina à venda no mercado negro para o estrangeiro.

De qualquer modo estão já em cima da mesa as teorias da conspiração, que sugerem tratar-se duma operação dos serviços secretos destinada a interferir no jogo político. Seja como for, não deixa de ser bizarro que seja um obscuro jornal digital espanhol de direita a publicar a lista do material alegadamente furtado de Tancos. Ou terá sido o “fantasma” Sebastião Pereira?

Tudo isto é muito estranho. A suspeita fica no ar. Ainda bem que a investigação já saiu da exclusividade da Judiciária Militar, que dificilmente resolve alguma coisa, dadas as suas dependências hierárquicas.

E não me venham com o argumento do desinvestimento que os sucessivos governos têm vindo a fazer na área militar. Se eu fosse o responsável pela segurança do perímetro e visse que não tinha as condições mínimas para o efeito, demitia-me na hora.

 

Fonte: José Brissos-Lino, O Setubalense, 7/7/17.