Os alienados

loucos

 

O grande psiquiatra e professor Barahona Fernandes citava um velho ditado português “de são e de louco todos temos um pouco” ou, noutra versão, “de médico, de sábio e de louco todos temos um pouco”. No fundo, o que este aforismo popular pretende é relativizar o conceito de loucura.

Já no século XV Erasmo dizia ser “próprio da natureza humana que ninguém seja isento de defeitos e de vícios”, acabando por escrever uma obra como “O Elogio da Loucura”.

Em 1881 Machado de Assis dedicou um conto à temática, a que chamou “O Alienista”, em que questiona quem serão afinal os verdadeiros loucos. Trata-se da história dum médico dedicado a investigar a mente humana, e que decide construir na sua cidade um hospício para tratar os doentes mentais. Para ele a saúde da alma era a ocupação mais digna dum médico.

Poucos meses depois de inaugurada a casa dos alienados tinha abundante freguesia, a ponto do pároco local se admirar, pois não fazia ideia da “existência de tantos doidos no mundo”… As coisas tomaram tal proporção que a vereação da cidade começou a questionar se o alienado não seria, afinal, o médico alienista.

O resultado da experiência foi de tal ordem que o médico inverteu a estratégia de modo radical, pensando ter descoberto finalmente a verdadeira patologia cerebral. Ou seja, passando a considerar como loucos os que se presumiam sãos, tornando-se ele próprio, por fim, o único residente do hospício, a fim de se estudar a si mesmo.

Morreu meses depois, sem ter chegado a nenhuma conclusão. Essa, tiraram-na as gentes de Itaguaí: nunca tinha havido por aquelas bandas outro louco senão esse mesmo, o clínico.

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Com a chegada da denominada silly season os jornais começam a encher-se de disparates em catadupa. Todos os anos é assim. A ideia que vem à cabeça é que anda tudo doido, dos clubes de futebol aos partidos, dos sindicatos aos diplomatas, dos deputados aos governantes. Inventam-se cabalas, insultam-se os adversários, até os do mesmo partido, dispara-se em todas as direcções, emerge a pulsão justicialista, mate-se e esfole-se. Calma, meus amigos, que isso deve ser dos calores exagerados que andam a torrar os miolos ao pessoal.

Passado o Verão esperamos que a chuva regresse, de modo a refrescar a moleirinha ao povo. A não ser que a campanha para as autárquicas aqueça de novo os ânimos e venham aí mais uns disparates. O que não é de descartar, tendo em conta alguns outdoors eleitorais que já se viram por aí, ou aquele vídeo hilariante da campanha de Fernando Seara, candidato a Odivelas.

Haja paciência.

 

José Brissos-Lino

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