O regresso da Múmia

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O que Jesus poderia ter sido

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Jesus não era branco, era judeu, falava uma língua estranha
Até para os escribas que cosiam sobre a pele
Os textos em hebraico. Presumidamente
Ocultava o rosto sob a barba, o seu corpo
Debaixo de uma túnica comprida, os pés
Com a poeira do caminho. Se andasse ainda
Entre nós, no século vinte, teria sobre a capa
A estrela amarela
Aquela que levava aos caminhos da morte
Teria os olhos magros, o medo
Retirando o brilho à fronte cabisbaixa
Os ossos como vidro prestes a partir-se
Numa fila em Auschwitz.
26/08/2017
© João Tomaz Parreira

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Segundo notícias vindas a lume, o Conselho de Administração do Centro Hospitalar de Setúbal (CHS) prepara um plano de remodelação das suas instalações e equipamentos, o qual prevê a construção de um novo edifício para os serviços de Urgência Geral e Pediátrica, no valor de onze milhões de euros, visto que “a estrutura actual está obsoleta e sem margem para crescimento”.

Este novo edifício contempla um piso dedicado a estacionamento e outros dois “para relocalização de outras áreas assistenciais”. A intervenção inclui ainda a renovação da rede de ar condicionado e a remodelação da Unidade de Cuidados Especiais Neonatais, assim como a centralização das técnicas de cardiologia.

A meu ver, esta ampliação e remodelação do edificado existente vem confirmar a ideia que sempre tive, de que as profundas obras de renovação realizadas há anos no complexo hospitalar constituíram um erro de estratégia. De facto o que a cidade e região necessitavam já naquela altura era de um hospital novo, com outra localização.

Desde logo porque o acesso rodoviário ao S. Bernardo é péssimo. A entrada faz-se através de um nó rodoviário extremamente complexo, com um declive considerável, no meio da cidade, sendo claramente inadequada a esta função.

Depois porque o espaço dedicado a estacionamento é extremamente exíguo, o que leva a soluções de recurso que por vezes o tornam caótico.

Em terceiro lugar porque está rodeado de prédios de habitação por todos os lados, com todos os inconvenientes óbvios.

Por outro lado, as longas obras então executadas provocaram aos milhares de pessoas que por lá passavam todos os dias, utentes, familiares e profissionais, imensos incómodos e perturbação.

Finalmente, não estou assim tão certo de que um novo hospital ficasse mais caro do que as tais longas obras efectuadas, em conjunto com as intervenções de manutenção que se têm feito desde então, durante todos estes anos, a juntar ao investimento agora previsto.

Na volta, ficamos com um hospital que continua a enfermar dos mesmos males: falta de estacionamento, centro da cidade, acesso complexo (que a autarquia está a procurar melhorar neste momento), a juntar ao facto de continuarem a ser instalações antiquadas e agora com o espaço ainda mais acanhado.

Em tempos construíram-se hospitais sobredimensionados no interior do país, com todas as condições, a fim de satisfazer clientelas políticas, para depois ficarem parcialmente encerrados por falta de pessoal ou de utentes, e nós aqui a tentar meter o Rossio na Rua da Betesga.

Setúbal merecia mais.

 

Fonte: José Brissos-Lino, O Setubalense, 25/8/17.