Panorama desolador

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A comunicação social portuguesa está entregue aos grandes interesses económicos e em grande parte alinhada com a direita política. Refiro-me aos órgãos de informação nacionais que conseguem cada vez menos manter alguma isenção perante a luta político-partidária e o funcionamento normal da democracia.

Vejamos. Um sindicato não tem a mesma capacidade de pressão sobre um jornal do que uma associação patronal, ou mesmo uma grande empresa. Basta pensarmos nas retaliações que de vez em quando se verificam com os cortes cirúrgicos de publicidade num jornal, rádio ou televisão cuja linha editorial ou uma simples notícia desagradou a uma multinacional ou grupo económico.

Os jornalistas precisam de comer, têm filhos para sustentar, mas são cada vez menos os que se recusam vender ou deixam intimidar pelas pressões vindas de cima. Acresce que hoje temos poucos jornalistas e muitos tarefeiros, pessoas cujo emprego está constantemente em risco pelo seu carácter de precariedade.

Mais. As televisões estão infestadas com comentadores políticos claramente engajados, quase todos de direita, com destaque para os económicos. No caso de alguns deles percebe-se que perderam o tacho em razão da mudança de governo, ou perderam a possibilidade de alcançar o que lhes havia sido prometido pelo antigo poder. Alguns comentadores bem conhecidos foram governantes ou dirigentes partidários de topo, mantêm uma agenda partidária e aspiram voltar à carreira política. Como podem querer aparecer como independentes?

Quando os tais comentadores são os próprios jornalistas, então a coisa assume um carácter de quase prostituição profissional. Como é que um jornalista de profissão pode estar um dia a trabalhar em reportagem, entrevista ou outro formato do seu mister e no dia seguinte assinar uma crónica política – no mesmo órgão em que trabalha (o que ainda é mais grave!) ou noutro – a tomar partido contra ou a favor do governo? Qual é então a sua credibilidade profissional?

Quando temos autênticos comissários políticos a dirigir jornais supostamente independentes, algo vai mal. E já nem falo na manipulação dos títulos, que não é responsabilidade exclusiva do autor da notícia.

O que um leitor precisa fazer, de cada vez que abre um jornal, é tentar entender quem é o dono, antes de “engolir” de forma acrítica a informação veiculada. O mesmo se passa com as rádios e televisões. Parafraseando o velho ditado, diz-me quem te paga, dir-te-ei que tipo de informação me trazes. Claro que há órgãos de informação mais independentes do que outros, mas…

 

Fonte: José Brissos-Lino, O Setubalense, 11/08/17.

 

 

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