Luís Osório: Cavaco é pior do que Salazar

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Decidiu falar e para o fazer escolheu um encontro de jovens. Sem dúvida, o melhor dos pretextos – o grande senhor, angustiado de um tempo povoado pela futilidade e por homens e mulheres menores, fala para o futuro. Cavaco Silva pretendeu dizer que não liga ao presente e aos degradantes personagens que lhe sucederam (e que dele foram contemporâneos), apenas aos rapazes e raparigas que assumirão responsabilidades quando ele já não existir.

Cavaco foi sempre assim.

Tentou sempre mostrar que não era como os outros. Não como os outros políticos, isso não lhe bastava. Cavaco era diferente de todas as pessoas, não era deste mundo mas de um Olimpo onde moram os escolhidos de Deus.

Cavaco anda e olha como se fosse superior a cada uma das pessoas com quem se cruza ou que trabalham com ele. E não hesita em trair, fazer cair, despeitar ou deixar de existir para quem ofereceu a melhor parte das suas vidas ao seu superior desígnio (quem não se lembra do que aconteceu com Fernando Nogueira e Fernando Lima?).

Cavaco fez do PSD um verdadeiro partido de poder. Resultado das suas maiorias absolutas que para o bem e para o mal transformaram a democracia portuguesa. Mas o homem que, simulando uma revisão do carro, surgiu num congresso como providencial (uma encarnação de um Salazar democrático), foi o mesmo que destruiu o PSD de Sá Carneiro por não aguentar que alguém lhe pudesse fazer sombra. Todos os líderes que lhe sucederam foram criticados, ostracizados ou menorizados por ele (com excepção de Durão Barroso mas só depois de se mudar para Bruxelas). Todos eram menores, nenhum prestava. Passos Coelho pagou esse preço e esta semana voltou a pagar – porque os recados de Cavaco não eram somente para Marcelo e Costa. O ex-presidente falou também para um PSD incapaz de dizer o que para si é essencial.

Cavaco gosta de falar do exemplo. Da ética e de uma moral. Fala dos outros, de todos os outros, como gente sem princípios. Gente que se corrompeu moral e financeiramente. No entanto nenhum político em Portugal promoveu gente tão ligada a negócios sombrios e a pequenas e grandes golpadas. (não será necessário recordar o BPN e as questões que Cavaco continua a considerar tabus).

Cavaco Silva falou de Marcelo Rebelo de Sousa. Não o fez directamente. Citou Mácron para chegar a Marcelo. Deu uma aula aos jovens sobre o que um Presidente deve ser e a frequência com que deve usar da palavra. Este homem é o melhor dos exemplos (e não há melhor do que este) de um homem ressentido. Vimo-lo ao longo do tempo que uma parte importante dos portugueses o escolheu em sucessivas eleições.

Enquanto Presidente da República lembramo-nos do seu silêncio durante a morte de José Saramago. Há coisas que não se esquecem. (e inúmeros exemplos poderia recordar).

Cavaco Silva tem inveja de Marcelo. Não percebe como os portugueses podem gostar da sua presidência. Não o faz por nada de especialmente ideológico mas apenas pela única coisa que lhe importa: ele próprio. É insuportável ver alguém que o substituiu a reduzi-lo à insignificância. E por isso socorre-se da história. Quando as coisas derem para o torto (e as coisas dão sempre para o torto) alguém recordará que existia um homem íntegro, um homem dos silêncios, sérios e austero que tinha razão. Cavaco não fala para hoje, fala para memória futura.

Cavaco é pior do que Salazar, escolhi como título. Não o fiz de ânimo leve.

Salazar não era um democrata, não acreditava na democracia e não viveu em democracia. No seu triste tempo não existia imprensa livre, eleições (só as controladas a partir de determinada altura) e os projectos antidemocráticos eram aceites e defendidos por uma parte importante das elites de vários países europeus.

Mas Cavaco ganhou eleições livres. Não, uma, duas ou três. Teve duas maiorias absolutas e conquistou duas eleições presidenciais. Com o voto de uma maioria substancial dos portugueses. Quando olho para Salazar vejo uma parte do passado mas também o combate pela democracia. Mas quando olho para Cavaco vejo o que, apesar de tudo, ainda somos. É uma ferida aberta perceber que uma parte importante do país que amo continua a gostar de homens assim, ressentidos e individualistas.

Cavaco é um homem detestável.

 

Fonte: Luís Osório, Porque hoje é sábado, via Facebook.

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Um pensamento em “Luís Osório: Cavaco é pior do que Salazar”

  1. Senhor Silva vai ao mercado

    (com autorização de mestre Gil Vicente)

    Num qualquer mercado, como todos os habituais mercados que se realizam em todas as terras de todos os países, confusão de gentes que se acotovelam, feirantes que apregoam os seus produtos (ouvindo-se em fundo música popular, acordeão), há uma banca que chama a atenção pelo silêncio do seu dono. Porte altivo e seguro, olhos negros perscrutadores, coberto com um capote grosso de inverno que o tapa quase até aos pés, apesar de estar um lindo dia de sol abrasador, está o Diabo.
    Olhando com atenção, apenas conseguimos aperceber-nos de uma pequena seta que espreita por trás, na parte inferior do capote, que pode ser a ponta de uma cauda, que ele se apressa a esconder quando se apercebe que está de fora.
    Aproxima-se da sua banca um eventual freguês, sr. Silva, que procura com o olhar algo que nem ele sabe bem precisar o quê, ao mesmo tempo que mastiga um pedaço de bolo rei, grande de mais para o tamanho da sua boca, cujas migalhas lhe escorrem pelo peito abaixo.

    Diabo – Procura algo, senhor ?
    Sr. Silva – Não sei se terá por aqui o que procuro.
    Diabo – Difícil que não tenha, o senhor tem ar de quem gosta de gozar a vida. Tenho tudo o que é preciso para facilitar tal intento.
    Sr. Silva – Será ? (enquanto põe mais um bocado de bolo rei na boca e deixa cair muitas migalhas, ao mastiga-lo de boca aberta)
    Diabo – Sim, se precisar de descaramento, falta de escrúpulos, artes de manipulação, ou que quer que seja, está na banca certa.
    Sr. Silva – Não, tudo isso já eu comprei e fiz bom uso.
    Diabo – Então pode ser um pouco mais preciso e especificar o que procura ?
    Sr. Silva – Acho que o que preciso não tem por aqui.
    Diabo – Mas diga, diga ao que vem. Não precisa de gastar o seu dinheiro comigo, basta que me dê um pouco da sua alma em troca do que eu lhe dispensar.
    Sr. Silva – Isso vai ser impossível. Já a vendi em tempos a alguém muito parecido consigo.

    E com isto abandona a banca do Diabo e dirige-se a uma outra mais adiante, cujo vendedor apregoa bem estar, paz de espírito e bilhete para o paraíso. O dono desta banca, Serafim um benfeitor militante a quem a família e amigos chamam anjo, diz ter para dispensar conselhos úteis para o bem estar espiritual.

    Sr. Silva – Bom dia. Entre os seus produtos tem alguma coisa para o esquecimento ?
    Serafim – Bom dia senhor. Para o esquecimento como ?
    Sr. Silva – Para as pessoas esquecerem o meu passado.
    Serafim – Todo o seu passado ?
    Sr. Silva – Não, não! Só as partes do meu passado que eu quiser apagar.
    Serafim – Se tem partes do seu passado que precisa de retificar, posso dispensar-lhe penitência ou arrependimento, mas esquecimento, ainda por cima coletivo, não tenho.
    Sr. Silva – É pena, é muita pena. (mastiga mais um bocado de bolo rei, grande de mais para o tamanho da sua boca, caindo-lhe bocados por ambos os lados)
    Serafim – Mas olhe, arrependimento e penitência são a melhor solução para lidarmos com partes do nosso passado de que nos arrependemos.
    Sr. Silva – Mas quem lhe disse que eu me arrependo !! Apenas gostaria que as pessoas esquecessem.
    Serafim – Tem a certeza senhor ?
    Sr. Silva – Absoluta ! Raramente tenho dúvidas e nunca me engano.
    Serafim – Se assim acha !

    Sr. Silva abandona a banca do Serafim, e recomeça a deambular à procura de uma banca onde possa encontrar o que procura.
    Pára numa banca onde estão expostos presépios de todas as cores e feitios, onde há um que lhe chama especialmente à atenção, tratando-se de um presépio que retrata um casal contemporâneo, e o artista que o fez pôs à porta da casa um mastro com uma bandeira nacional de pernas para o ar, para dar um ar irónico e diferente à obra. O sr. Silva achou algo de especial neste presépio e comprou-o, dizendo para si:

    – A Maria vai ficar contente com este. Acho que não tem nenhum igual. Quem terá sido o burro que pôs a bandeira nacional de pernas para o ar !!

    De presépio na mão e abanando a cabeça como quem não entende ideia tão tola, recomeça a sua deambulação pela feira, até se deparar com um feirante de longos cabelos e barba brancos, que sentado num banco cantarolava uma suave balada:

    Suave brisa da minha existência
    Sopra inexorável sem contemplações
    Tenha muita ou pouca ciência
    Todos precisarão das minhas lições

    O sr. Silva parou e olhou para a banca do idoso, constatando que estava vazia, interpelou o feirante.

    Sr. Silva – Bom dia caro senhor. Já vendeu tudo ?
    Tempo – Bom dia senhor. Eu não vendo nada, apenas dispenso a matéria onde as pessoas vão pondo a sua existência.
    Sr. Silva – Como é isso ?
    Tempo – As pessoas é que vão pondo a sua vida na minha mercadoria. É isso mesmo.
    Sr. Silva – Então e quando pomos na sua mercadoria coisas que depois queremos retirar ? Tem alguma solução ?
    Tempo – Para esses casos, tantos infelizmente, sou a própria solução.
    Sr. Silva – Então o que tenho de fazer para retirar partes de mim que deixei nessa sua mercadoria ?
    Tempo – Nada, a própria passagem da minha existência encarrega-se de trazer a areia que vai tapando a memória.
    Sr. Silva – Então não trouxe nada para vender aqui !
    Tempo – Tem toda a razão, senhor, eu só vim aqui para apanhar um pouco de sol, cantar e lembrar às pessoas a minha existência.

    E o tempo recomeçou a cantarolar a sua balada:

    Suave brisa da minha existência
    Sopra inexorável sem contemplações
    Tenha muita ou pouca ciência
    Todos precisarão das minhas lições

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