A dignidade de Constança

MANUEL ALMEIDA/LUSA

 

 

Como eu tinha aqui previsto, a ministra Constança Urbano de Sousa não aguentou a pressão e pediu para sair do governo. Escreveu ao primeiro-ministro dizendo que: “apesar de esta tragédia ser fruto de múltiplos factores´entendia que que`não tinha condições políticas e pessoais´para continuar no exercício deste cargo.”
Como aqui escrevi ontem, não é possível atribuir responsabilidade política objectiva à ministra pela catástrofe dos fogos, apesar de imensamente invocada.

Mais. Ficou-se a saber agora que Constança tinha pedido para sair do governo logo depois de Pedrógão, tendo ficado a pedido de António Costa, e “que só aceitou manter-se em funções `com o propósito de servir o País”. Para que conste aos que de forma leviana disseram que estava agarrada ao poder e que só queria tacho…

Esse tipo de mentalidade populista ainda nos vai levar a um Trump português. Não será o palhaço do Ventura, será outro qualquer que o sistema há-de gerar a seu tempo. Porque cada vez menos pessoas sérias, capazes e competentes quererão sujeitar-se a ser diariamente atacadas, vexadas e vilipendiadas apenas pelo facto de exercerem um cargo político. Por isso vemos o declínio constante e progressivo da classe política.

É mais fácil ser treinador de bancada, vulgo comentador político, como António Vitorino e outros, que preferem ver o circo a arder à distância enquanto vão fazendo pela vidinha nos grandes escritórios de advogados.

Eu bem sei que quando estas coisas implicam mortos deixa de funcionar a razão e passa a ser a emoção a controlar. Mas um governo não pode guiar-se pelas emoções, ao contrário de outros actores políticos, que se podem dar a esse luxo por não terem responsabilidades executivas e trabalharem apenas de olho na popularidade.

Constança não divulgou o pedido inicial de demissão por uma questão de lealdade. Ficou-lhe bem, apesar dos ataques que suportou vindos da direita e dos sectores populistas. Impôs a sua saída agora, “tendo terminado o período crítico desta tragédia e estando já preparadas as propostas de medidas a discutir no Conselho de Ministros Extraordinário de 21 de Outubro”. Sendo assim, “considero que estão esgotadas todas as condições para me manter em funções, pelo que lhe apresento agora, formalmente, o meu pedido de demissão, que tem de aceitar, até para preservar a minha dignidade pessoal.”

O primeiro-ministro fez bem em não aceitar a demissão da ministra em Julho, como fez bem em aceitar agora, quando ela está esgotada e sente que não tem condições para continuar. O que vai acontecer a seguir é que António Costa vai ter que deixar de se concentrar em importantes dossiers da governação para acompanhar muito de perto as políticas do MAI. Isso é bom para o país? Não me parece.

Um sinal de maturidade democrática é não andar a pedir a demissão de ministros e secretários de Estado por tudo e por nada, em especial quando não há responsabilidade política objectiva do titular do cargo em questão. E aí, tanto à direita como à esquerda temos muito que crescer.

 

 

 

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