Todos os artigos de A Ovelha Perdida

Um cristão inconformado.

Deuses e demónios

dd

 

“É um desperdício de vida uma pessoa achar que é um deus” (Zé Pedro, 1956-2017)

 

O músico da banda Xutos e Pontapés, recentemente falecido, aos sessenta e um anos, proferiu em tempos a frase em epígrafe, que é uma pérola de sabedoria de vida.

Com um percurso semelhante a tantas outras pessoas que passaram pelas drogas e álcool, Zé Pedro teve que submeter-se a um transplante de fígado. O seu testemunho é, portanto, feito na primeira pessoa.

Mas enquanto uns se acham deuses, outros acham-se demónios. Porquê demónios? Talvez porque são pessoas de personalidade anti-social, com tendência para se esconderem dos outros. Ou porque têm uma auto-estima pelas ruas da amargura, não se sentindo apreciados por ninguém. Ou ainda, pior do que isso, porque não se sentem amados. E todo o ser humano necessita de se sentir apreciado pelos outros e amado por alguém.

Entretanto, outros sentem-se deuses. Porquê deuses? Talvez porque pensam que, sendo jovens, nunca envelhecem, ou sendo famosos, que nunca serão esquecidos, e um dia essas ilusões desvanecem-se. Ou porque se sentem superiores aos outros. Ou mesmo porque julgam que toda a gente gosta deles.

Mas tudo isto é relativo. Jesus era Deus, mas quiseram fazer dele um demónio: “Mas alguns deles diziam: Ele expulsa os demónios por Belzebu, príncipe dos demónios” (Lucas 11:15). Quem era Belzebú (nome derivado de Baal)? Uma divindade filisteia e cananita, que personificava o próprio diabo.

Nós não somos deuses nem demónios, somos apenas seres humanos. Porque é tão difícil aceitar a nossa condição?

Talvez porque queremos ter poder. Segundo os evangelhos o diabo tentou Jesus no deserto com uma oferta de poder, apelando à sua humanidade. Ou talvez queiramos transcender a nossa condição humana devido à ansiedade de não conseguirmos controlar o que nos acontece nem o que nos rodeia. Já para não falar do medo da morte e do que está para além dela.

Não somos deuses, nem demónios, apenas humanos. Foi assim que Deus nos criou: “somos feitura sua” (Ef 2:10). Não fomos criados para nos arrastarmos pelo chão como répteis, nem para voarmos como as aves, mas para caminharmos.

Jesus nunca desdenhou da sua condição humana. Aceitou a sua humanidade. Porque não fazemos o mesmo? Porque queremos ser super-homens?

Segundo o seu próprio testemunho, Zé Pedro reconheceu que desperdiçamos a nossa vida sempre que nos vemos como pequenos deuses que não somos, desvalorizando assim os seres humanos que efectivamente somos.

 

 Fonte: José Brissos-Lino, O Setubalense, 15/12/17.

 

 

 

 

Anúncios

O Natal de Manuel Bandeira

 

Muitos escritores se inspiraram no tema do Natal para escrever contos de profunda reflexão sobre a vida e a humanidade, como é o caso de Dostoiévski, Charkes Dickens e Tolstoi. Nessas histórias, a intensidade da tristeza e o senso de abandono são por vezes quase insuportáveis – crianças e mulheres enfrentando a neve, a escuridão e a morte, velhos campesinos solitários em sua pureza de fé e solidariedade contrastando com a dureza de corações indiferentes.

A literatura brasileira também tem suas amostras da força do Natal como temática e como marco da nossa latinidade católica. É o caso de Coelho Neto, Machado de Assis, Murilo Mendes, Jorge de Lima, Viriato Corrêa, Raul Pompeia e Mario de Andrade. Neste pequeno espaço, quero me dedicar aos poemas de Natal de Manuel Bandeira.

Ao todo, Bandeira escreveu dez poemas de Natal, seis de sua autoria e quatro em tradução de autores europeus. Ele mesmo faz uma revisão de suas obras natalinas e da importância que ocupam em sua carreira literária. Eles nasceram em circunstâncias bem demarcadas ao longo de sua vida, a juventude na Suíça, o Rio de Janeiro de 1939, a II Guerra Mundial, alguns por encomenda do jornal O Globo ou de Villa-Lobos.

Surpreende, nos poemas natalinos de Bandeira, a abundância de passagens bíblicas transcritas, adaptadas, aludidas. Diferente de outros autores que usam o Natal apenas como referência temporal, uma data no calendário, para escrever sobre algum incidente cotidiano, Bandeira mergulha nos detalhes e nos diálogos que as Escrituras oferecem. É o caso do poema “Anunciação”, em que se lê: “Maria, não temas: / Deus escolheu-te, a mais pura / Entre todas as mulheres, / Para um filho conceberes / No teu ventre e, dado à luz, / O chamarás de Jesus, / O santo Deus fá-lo-á grande, / Dar-lhe-á o trono de Davi, / Seu reino não terá fim”.

O poema “Canto de Natal”, que veio a ser musicado por Villa-Lobos, traz a cena do alegre nascimento do “Jesus menino”. O poema faz lembrar, em parte, as singelas canções de Natal de Martinho Lutero. Bandeira escreve: “Nasceu sobre as palhas / O nosso menino”. Lutero teria escrito: “Num berço de palha dormia Jesus, / O meio menino que ali veio à luz”.

O poema mais profundo e quem sabe o mais complexo leva o título de “Presepe” e descreve o mistério da encarnação de Jesus. No poema, Bandeira liga o nascimento de Jesus ao seu sofrimento na cruz, “O fel e o vinagre, / Escárnios, açoites, / O lenho nos ombros, / A lança na ilharga, / A morte na cruz”. Um pouco adiante, o poeta diz: “Mais do que isso / O amedrontaria / A dor de ser homem”.

Em sua perplexidade e olhando para o ser humano, “[e]sse bicho estranho / que tortura os que ama”, “essa absurda imagem de Deus”, o poeta conclui que o nascimento de Cristo foi um grande milagre, mas “um milagre inútil”. Sim, o poeta termina em tom desesperado de uma esperança triste. Ele mesmo reconhece que se trata de um poema amargo com um forte teor político relacionado aos crimes de Stalin. Apesar do tom desencantado, a reflexão é válida e atual. O Natal nos faz pensar no destino da humanidade.

Fonte: Blog de Gladir Cabral.

Os poemas de Manuel Bandeira podem ser encontrados na coletânea O Natal em Manuel Bandeira e Cândido Portinari.