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Um cristão inconformado.

Ser português

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”Nunca tantas mercês se fizeram em Portugal, como neste tempo; e são mais os queixosos, que os contentes. Porquê? Porque cada um quer tudo.” Padre António Vieira, in “Sermões”

 

 Não é só Lisboa e Porto que estão na moda, devido ao afluxo de estrangeiros e às distinções turísticas internacionais (Setúbal incluída). É todo o país. Portugal está mesmo na moda.

Segundo o Relatório de Imigração, Fronteiras e Asilo, relativo a 2017, em apenas dois anos (2016-2017) o Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF) avaliou 6463 pedidos de cidadãos, só de naturais de Israel e da Turquia, dos quais 2436 já beneficiaram da lei que concede a nacionalidade a descendentes de judeus sefarditas, e o número de pedidos não pára de aumentar. O fenómeno deve-se à alteração ao Regulamento da Nacionalidade Portuguesa (Decreto-Lei n.º 30-A/2015, de 27 de fevereiro), relativo à naturalização de estrangeiros descendentes de judeus sefarditas portugueses. Já em 2014 o governo de Madrid tinha legislado em idêntico sentido. Os pedidos chegam de toda a diáspora judaica: Macedónia, Grécia, Bulgária, Arábia Saudita, Líbano, Síria, Marrocos, Brasil, Argentina e Reino Unido.

Sim, o país decidiu corrigir uma injustiça histórica secular, visto que se trata de descendentes das comunidades judaicas da Península Ibérica, cuja presença recua ao século XII. A partir dos finais do século XV e após o Édito de Alhambra de 1492, foram perseguidos pela Inquisição espanhola tendo grande parte deles encontrado refúgio em Portugal. Só que o rei D. Manuel, apesar de inicialmente lhe ter garantido protecção, acabou por determinar em 1496 a expulsão dos marranos (sefarditas) que não se sujeitassem ao baptismo católico. Numerosos judeus foram então expulsos de Portugal nos finais do século XV e inícios do século XVI.

Dir-se-á que estes candidatos à cidadania portuguesa o fazem apenas por calculismo, visto que a nacionalidade lhes dará permissão de trânsito no espaço europeu Schengen, mas a verdade é que muitos deles – a maioria com menos de 50 anos – apresentam outras motivações, como quererem viver e investir aqui. Outra parte fá-lo por razões sentimentais, porque visitaram o país ou as famílias e querem preservar tradições. Esther Mucznik, membro da comissão que avalia os processos que chegam à Comunidade Israelita de Lisboa afirma que pedem a nacionalidade por motivos diversos.

A própria CPLP aumentou o seu peso político no mundo, segundo Marcelo Rebelo de Sousa, que destacou a candidatura à organização como observadores, de diversos países latino-americanos, asiáticos, africanos e até europeus, como a França, Itália e Andorra.

Talvez estivesse na altura de abandonarmos de vez o antigo vício lusitano de diminuir o que é português e vergar a espinha a tudo e todos quantos nos chegam, vindos de fora. Já chega de “bons alunos”.

 

Fonte: José Brissos-Lino, O Setubalense, 13/7/18.

 

Adivinha

Candidato ao Grande Prémio do World Press Cartoon

Pergunta: Quem é o chefe de estado que, em visita ao estrangeiro, insulta publicamente o chefe do governo do país anfitrião, imiscui-se na sua política interna, afirmando que o lugar da primeira-ministra que o recebe devia estar a ser ocupado por outra pessoa, que nomeia, e ainda se dá ao luxo de criticar violenta e publicamente o autarca da capital?

Resposta: Só podia ser o inenarrável Donald Trump, um perfeito idiota, cada vez mais estúpido, grosseiro e mau carácter. Mas há quem goste…

Živjeti u Hrvatskoj!

 

Já é oficial. Apoio a Croácia na final deste Mundial de Futebol. A França marcou um único golo contra a Bélgica, na meia-final de ontem. Golo de bola parada. Tal como a Inglaterra hoje. Ao contrário, a Croácia marcou dois belos golos em jogo corrido. Merece ir à final. E sobretudo porque Modric merece.

A verdade é que os jogadores croatas estão muito mais desgastados do que os gauleses, mas desejo que ganhem os dos Balcãs, a bem do futebol. Que me desculpem os meus amigos franceses, mas ainda não me esqueci da reacção anti-desportiva de alguns adeptos e comentadores seus compatriotas, ao perderem para Portugal o Europeu de 2016 em Paris.

Mas espero mais. Espero que a arbitragem seja competente e isenta. E no fim, que ganhe o melhor. Afinal, vai ser apenas mais um jogo.

A notícia é um bem público

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Numa altura em que um jornal nacional generalista e centenário como o “Diário de Notícias” desiste da edição diária em papel (de resto, seguindo os passos de alguns grandes títulos internacionais), “O Setubalense” celebra os seus 163 anos de existência (embora com hiatos), entre a imprensa regional, apesar de todas as dificuldades. É de assinalar.

A imprensa regional podia e devia estar para a nacional tal como as autarquias locais para o governo da república. Dito de outro modo, poderia ser um instrumento de desenvolvimento das populações fora dos grandes centros, como os órgãos das freguesias e dos municípios o são, embora cada um no seu papel.

E digo poderia porque de facto a imprensa regional pouco mais pode fazer do que lutar para manter a cabeça fora de água, regateando todos os dias a sua própria sobrevivência, enfrentado progressivos custos de produção e receitas que tendem a não crescer.

Assim, os efeitos típicos da imprensa desde sempre, como o exercício de cidadania e o direito à informação, já para não falar noutras vertentes possíveis como a formativa, ficam hipotecados, dada a difícil exequibilidade económica dos projectos de imprensa regional.

Dir-me-ão que as televisões, a internet e as redes sociais vieram tornar quase obsoleto o papel. Talvez. Mas a verdade é que o interior do país necessitará sempre e porventura cada vez mais da função da imprensa local e regional, seja ela em papel, online ou ambas, por várias razões.

Antes de mais porque a necessidade de oferecer às gentes do interior as funções formativa, informativa e cívica se tende a aprofundar, dada a previsível exigência de escrutínio dos cidadãos sobre a coisa pública. Quanto mais bem informado o cidadão estiver, mais poderá esperar e exigir dos seus concidadãos eleitos que exercem cargos públicos. Quanto mais bem formado estiver sobre deveres e direitos, sobre questões como ambiente, segurança, educação, saúde, cultura, economia e trabalho, entre muitas outras, melhor poderá exercer cidadania e ser útil à comunidade.

Mas também porque as redes sociais não informam, desinformam. E também não formam, deformam, visto não existir mediação jornalística. Aliás, a moda de certa imprensa nacional replicar os métodos pouco deontológicos das redes sociais – talvez pela pressa de dar a notícia sem a confirmar, e a informação sem contraditório – tem levado a situações pouco dignas para a actividade jornalística.

Não é jornalista quem se limita a dar uma notícia. Há regras a observar e a notícia é um bem público que necessita de ser bem tratada, sob pena de cairmos numa selva mediática onde apenas sobreviverão os mais fortes, manipuladores e mentirosos.

 

Fonte: José Brissos-Lino, O Setubalense, 6/7/18.