Arquivo da categoria: Arte, Educação, Cultura

Cavem mais fundo (inédito de João Tomaz Parreira)

“Ele grita cavem mais fundo no reino da terra”

Paul Celan (in Fuga da Morte)

 

Por que será que eles cavam e cavam

Enterram as pás mais fundo na terra

As pás com os seus fios rombos de navalha

Vão encurtando as horas da vida, eles sabem

O que os olhos já viram, mas agora os seus olhos

Não acompanham as mãos

Sob as ordens como pedras, a voz diz

Cavem mais fundo para o reino dos céus.

 

18-05-2016

© João Tomaz Parreira 

“Quando as pessoas não se revoltam, é que se suicidam”

 

foto1

Coimbra de Matos é um psicanalista sui generis. Afastou-se da importância do passado e dos sonhos nocturnos (“são um trabalho de memória”) na teoria psicanalítica clássica, preferindo centrar-se no futuro. 

Em entrevista ao jornal Público, pela mão de Carlos Vaz Marques, António Coimbra de Matos defendeu a ideia de que o aumento do suicídio em Portugal não se deve propriamente à crise, mas sim à forma como a enfrentamos: “Há um trabalho célebre, um trabalho seminal, em que o pai da Sociologia, o Durkheim, verificou que quando há guerras e revoluções a depressão e os suicídios diminuem porque as pessoas se revoltam. Quando as pessoas não se revoltam, é que se suicidam; quando se sujeitam, quando não têm condições para protestar com mais veemência.”

Justifica o facto de os portugueses serem um bocado passivos, “somos um país de medrosos”, com o facto de o poder em Portugal ter sido sempre menos violento: “isso não facilita a revolta”.

Noutra entrevista considera os portugueses inseguros, imaturos, praticantes da transgressão na sombra, além de desorganizados, individualistas, garbosos, disponíveis, “esperamos do chefe, do pai, do protector, que decida por nós, que assuma a responsabilidade por nós, que saiba sempre a resposta.”

Discorda da ideia de que as sociedades progridem por competição, mas sim por colaboração: “Não é nos períodos de guerra que se fazem as grandes descobertas, é nos períodos de paz.”

Defende que as coisas evoluem mais na base da investigação do que na acumulação de conhecimentos.

E sobre a “bíblia” das doenças e perturbações mentais e emocionais, o clássico DSM (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais) é categórico: “DSM é uma porcaria. Aquilo é um catálogo condicionado pela indústria farmacêutica para venderem mais medicamentos.” “Todos temos lá um lugarzinho” adianta o jornalista, ao que Coimbra de Matos responde: “Sim, sim. E um medicamento apropriado.”  J B-L

A mãe antes de apanhar algodão

Mothers Depression USA

 

Olho-te com os olhos mais brancos de ternura

Dormes, filho, e nos teus sonhos o algodão

São as nuvens, os meus olhos

Aquecem-te, pudessem eles ser mais fogo

O calor das minhas mãos é o que guardo

Para ti, assim pudesse eu

Ter sempre nos meus lábios o sorriso

Que a pobreza confunde com silêncio

Quando eu regressar do campo, com estes dedos

Cerzidos pelos fios do algodão, volto

Para te adorar como se fosses Deus

Nas minhas mãos.

 

02-05-2016

© João Tomaz Parreira

“O poeta é um enviado de Deus”

img_757x426$2016_04_01_20_31_43_525010

 

José Jorge Letria põe na boca de Bocage palavras, frases e conceitos que o poeta teria afirmado de outras formas.

Na sua “narrativa biográfica” a que chamou “Já Bocage não sou” (Ed. Guerra e Paz, Lisboa, 2016), Letria põe o vate a falar da sua “inebriante sede de absoluto”, leva-o a testemunhar que “quem de si foge nem no Inferno encontra abrigo”, e a confessar que “se alguma dúvida tive em momentos de maior cepticismo quanto à existência de Deus, deixei de a ter agora”, sendo esse “agora” o trânsito final da sua existência humana.

Mas uma das frases mais emblemáticas da narrativa é esta: “O poeta é um enviado de Deus para lembrar às criaturas humana que a fé tem que ser lúcida e crítica, sob pena de se tornar rotina acéfala e enervante beatice”. Eu não diria melhor.

 

Mário de Sá-Carneiro: há cem anos taciturno

 

 

 

Quiçá  ensaio de João Tomaz Parreira ©

 

Se há poetas na nossa Literatura que não fingem, um deles será, indubitavelmente, o autor de “Dispersão”. É um poeta cuja poesia é feita, digamos assim, de oximoros. Brilhante no sombrio.

O próprio poema que dá título a esta breve nota ensaística, parece trair o estado de astenia espiritual sob o qual Mário dava a impressão real de viver. A poesia “Taciturno” começa assim:

“Há Oiro marchetado em mim, a pedra raras”

A contradição revela-se em que não há nada menos sombrio do que o Oiro e as pedras preciosas. Mas o poeta não podia continuar o poema neste registo, a taciturnidade o acompanha e diz, no verso seguinte que é “Oiro sinistro de sons de bronzes medievais” no seu mundo interior de armaduras cerradas.

Toda a quadra é uma originalidade íntima, que hoje estaria fora de moda, ou talvez não (há ainda poetas quase gongóricos):

“Há oiro marchetado em mim, a pedras raras,

Oiro sinistro em sons de bronze medievais –

Jóia profunda a minha alma a luzes caras,

Cibórico triangular de ritos infernais”

 

Este “oiro marchetado em mim”, oiro dentro de si, colidirá com esse oiro fora, numa análise endoliterária dos versos da poesia “Estátua Falsa”, toda cheia da enunciação do Eu:

“Só de oiro falso os meus olhos se douram;/ Sou esfinge sem mistério no poente.(…)Sou estrela ébria que perdeu os céus, / Sereia louca que deixou o mar”…

O crítico clássico da história da nossa literatura, João Gaspar Simões, depois de uma explanação prolífica como era o seu estilo, sobre diferenças entre subjectivismos, símbolos, imagens, etc. escreveu no prefácio a “Poesias” ( Sá-Carneiro, Ática, 1973, 32), que o poeta passou de objecto a sujeito da sua própria poética, entendemos nós.

Dito de outro modo, as Poesias do autor de “Confissão de Mário”, têm-no quase sempre como o Eu poético. Foi, como se sabe, um Eu poético breve, e não me refiro à curta estadia de Mário de Sá-Carneiro na vida, mas até na própria poiética, na escrita de poesia: o seu primeiro poema é datado de Fevereiro de 1913 e o último, antes do suicídio, também de Fevereiro de 1916, a coincidência simbólica da tragédia na sua poesia.

Até hoje ainda não encontrei intertextualidades na sua poética com os simbolistas e decadentistas portugueses dele contemporâneos, talvez por deficiência de observador. Por isso, mesmo breve, o poeta amigo, confidente, irmão de espírito de Fernando Pessoa, é original sempre,  naquilo que Simões designou como a “família poética nacional”.

Acresce que sendo um poeta disperso ( “Perdi-me dentro de mim/ porque eu era labirinto”), nos seus poemas, procura, ainda assim, encontrar-se no desejo irrealizado, o ser taciturno a contrastar com o brilho das equipagens,  quando afirmou ter sido “ Lord que fui de Escócias de outra vida / Hoje arrasta por esta a sua decadência” (in Indícios de Ouro, poema “O Lord”).

“Emigrado astral”, fantasma de si mesmo, são outras tantas simbólicas da sua curta vida, que ao escrever poeticamente, digo metaforicamente, “morreram-me meninos nos sentidos”, era sempre da sua morte que falava.

Mas antes da sua astenia, como já dissemos espiritual, ou melhor, total na intersecção, “no intermédio” da sua alma e do seu corpo, Sá-Carneiro tinha a doença da morte na poesia.

Seja lá o que for que isto é, alguém escreveu um dia (o poeta Nuno Júdice), que a “escrita de Sá-Carneiro é uma escrita doente”.

A culminância disto, estará porventura no poema Fim, celebrizado em música até, mas que deveria antes constar na antologia dos poemas que podem ser tudo: simbolistas, decadentistas, dadaístas e surreais, mas que, para mim, traduzem o último grito, um grito regionalista de Mário de Sá-Carneiro, que ironiza ou faz esquecer o cosmopolitismo da sua Paris:

“Quando eu morrer batam em latas / (…) Que o meu caixão vá sobre um burro / Ajaezado à andaluza…”

Morreu sem esta encenação, sem palhaços e acrobatas aos saltos e aos pinotes, nem chicotes no ar, a 26 de Abril de 1916. Cem anos de solidão.

 

© Aveiro, 23-04-2016