Arquivo da categoria: Arte, Educação, Cultura

Na casa de Marta e Maria

Foto de João Tomaz Parreira.

(Diego Velázquez)

 

Estava sentada à espera da revelação
Os séculos vindouros de Grão Vasco e de Velázquez
Iriam vê-la em retábulos de igreja, naquele dia
Ficava sentada aos pés do Mestre
Na posição de quem se guarda do tumulto
Em que pairam outras vozes
Estava rés ao chão onde o silêncio circunscreve
O que é vital ouvir, letra por letra
A sua boca sequiosa repetia
A água límpida que vinha nas palavras.

 

16-08-2015
© João Tomaz Parreira

 

Reflexão de Jesus Cristo sobre Jerusalém (inédito de João Tomaz Parreira)

 

Mostras-te no enquadramento dos teus muros, segura

na dureza inexpugnável da sua altura, mas os meus olhos

vêem muito mais longe, os meus olhos

entristecem a minha alma.

Não posso ainda chorar o sangue do meu coração

está reservado para as feridas, apenas lágrimas

alguma vez, Jerusalém pensaste no futuro, ou hoje

sabes o que para a paz o teu nome representa? Mas não.

Matas os profetas e enches o teu templo de pregões

humanos que vendem coisas perecíveis. Quantas vezes

quis eu reunir os teus filhos enquanto minhas mãos

estão limpas dos cravos, e não quiseste. Aguarda

hão-de vir sombras do deserto, serão palha os teus muros

levá-los-á um vento imperial. Jerusalém, Jerusalém

tu empenhaste o teu futuro e ficará apenas o olhar

dos teus filhos, a recordar-te e a chorar-te desde

terras longínquas,  até ao dia em que eu possa regressar.

 

01-09-2015

©  João Tomaz Parreira

O que tem O Principezinho?

 

 

A obra maior de Saint-Exupéry parece que ganha renovada expressão e relevância à medida que o tempo passa. Trata-se de um fenómeno ainda em busca de uma explicação satisfatória.

Obedecendo a um certo revivalismo, foi agora oferecida pela primeira vez aos leitores portugueses, por uma editora nacional, a versão do livro tal como Exupéry o escreveu e forneceu à editora americana em 1943.

O Principezinho, do escritor francês Antoine de Saint-Exupéry, um clássico da literatura para jovens e adultos, está traduzido para dezenas de línguas (incluindo uma edição em mirandês), e entra este ano no domínio público.

O autor, que escreveu e ilustrou a obra, em plena II Guerra Mundial, quando se encontrava exilado nos Estados Unidos, conseguiu publicá-la ali em inglês e na sua língua materna. Logo que o livro saiu a público, o escritor, que era piloto, foi combater para a Argélia, tendo morrido em 1944, nunca chegando a saber que a obra seria publicada também em França (1946), e sobretudo que se veio a tornar num sucesso internacional.

É uma das obras literárias mais traduzidas e vendidas em todo o mundo, inspiração de jogos, séries de televisão e abundante material didáctico, sendo recomendada pelo Plano Nacional de Leitura. Consta de um conjunto de estórias nas quais um pequeno príncipe conta a um piloto as suas aventuras, entre estrelas e planetas, onde entram também plantas e animais, sendo este o seu grande princípio: “o essencial é invisível aos olhos”.

Talvez o ambiente de guerra generalizada pelo mundo, com todo o seu cortejo de morte, sofrimento e destruição, tenha levado o autor a uma espécie de fuga à dura realidade, concentrando-se no essencial da vida.

E que melhor forma de o fazer senão através do olhar inocente de uma criança?

J B-L

 

Jack não discutiu com Deus (um conto-testemunho dum ex-combatente na guerra colonial em Angola)

A noite escondia o espectáculo. A viatura militar estava espalhada pelo terreno carregado de arbustos e raízes como pequenas facas. Dois dos ocupantes, também feridos, estavam perdidos no escuro. Jack estava sozinho com o corpo numa estranha posição. A perna esquerda partida dobrada, estranhamente parecia estar debaixo das costas.

-Jack, onde estás?- ouviu uma voz gritar. Era um dos companheiros sinistrados. Virou a cabeça para onde estava a voz.

-Aqui!  Tentei, mas não posso levantar-me – disse com uma voz que não parecia a sua, fraca, apagada.

No ar havia um cheiro que denunciava qualquer coisa, combustível, fogueiras mal apagadas,  a proximidade de uma sanzala, qualquer coisa que poderia, de repente, eclodir dentro da cabeça de Jack.

Pensava que não podia morrer. Os primeiros- socorros que chegaram, no “Jeep” da ronda, foi isso que disseram: “Ninguém morre neste estado!”

Disseram-lhe  para o animar.  Jack já tinha pedido isso mesmo a Deus – que o não levasse – , quando recobrou do que deveria ter sido um tremendo choque no chão.

Foi a mais pequena oração que Jack fizera na sua vida, até àquele dia. E nunca mais pensara no caso, quando se está a um milímetro da Morte, pensa-se em quase tudo, menos nela. Perdia os sentidos e recobrava-os, perdia-os e voltavam, assim até chegar à enfermaria da Base.

– É o Jack – ouviu dizer nuns rostos esfumados dos companheiros que se juntaram para ver passar a maca, à porta da enfermaria.

-Houve um acidente lá em baixo, perto já da Vila.

– O condutor estava com uns “copos”.

-Eu disse ao Jack para não ir – retorquiu o Anthony.

– Quando amanhecer o Beech vai evacuá-lo para o hospital militar do Luso.

-Como está, não deve escapar.

Jack não discutira com Deus, não tinha tempo para isso, não perguntara “-Por quê eu?! -, aquelas frases de quem se acha com direitos divinos.

É quase sempre perto da Morte que a nossa dependência de Deus deixa de ser teológica, de confissão religiosa, e passa a ser física – foi o que Jack pensou, nos muitos dias seguintes ao que lhe aconteceu.

 

© J.T.Parreira

 

 

 

Eurídice

 

 “De pé nas lages da entrada do Hades

Orfeu curva-se a uma rajada de vento” 

Czeslaw Milosz

 

 

foi o amor um perigo mortal, tanto como foi belo

Orfeu estar de novo defronte do rosto de Eurídice,

depois de vencer o vento, ninguém pode

nem os deuses podem contra o amor

pensava Orfeu.

ousou assim entrar na morte e trazer a amada

amaciando o coração do Hades,

com os cristais do portal da vida quase à mão.

mas como a morte tem os seus caminhos,

foi o desejo que fez Orfeu perder-se

a olhar para trás, e assim perder para sempre

o objecto do amor.

 

23-06-2015

© João Tomaz Parreira

Fonte: Poeta Salutor.