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O ódio aos livros

O ódio aos livros (2)

 

Os livros sempre foram alvo de intolerância, proibidos de imprimir, vender e circular, e milhares deles acabaram em gloriosas fogueiras redentoras, promovidas pelo sectarismo do poder dominante.

Foi assim na Contra-Reforma, com o Códex imposto pelo papado, que demonizou inúmeras obras. Foi assim com a Censura do Estado Novo, que não se limitava a proibir apenas literatura política mas interferia na expressão cultural. Foi assim com a prática recorrente de queima de exemplares da Bíblia em países católicos, na luta contra o avanço do protestantismo. Foi assim com o tristemente célebre caso Sousa Lara versus Saramago. Foi assim também num dos maiores crimes da História – a destruição pelo fogo da lendária Biblioteca de Alexandria.

O ódio aos livros prenuncia o ódio às pessoas, exactamente da mesma forma como queimar livros (por serem considerados inconvenientes, heréticos, perigosos, revolucionários ou indecentes) é o primeiro passo para começar a queimar pessoas, por motivos idênticos. Figurativa ou literalmente.

No fundo, o ódio aos livros representa a tentativa de condicionar a informação ou de evitar que ela circule livremente. Como a informação é poder (que o diga o Wikileaks) há que impedir que esse poder caia na rua, pois um povo informado pode muito bem vir a ser um povo revoltado.

Talvez por isso o poder económico tem-se vindo a apoderar dos meios de informação, a fim de controlar o fluxo noticioso, de acordo com as próprias conveniências. De tal modo que hoje temos que não apenas saber descodificar as notícias, mas também saber quem é o patrão do órgão noticioso.

A censura refinou-se e funciona hoje de modo muito mais complexo. O lápis azul é o recibo verde do jornalista e as boas graças do anunciante. E já se fala em privatizar a internet…

 

Fonte: José Brissos-Lino, Luzes e Sombras, O Setubalense, 27/5/15.