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Discurso sobre a água viva (inédito)

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Angelika Kauffmann-Christus und die Samariterin am Brunnen, 1796.

 

 

Quero nomear-te e a única coisa que sei

Do teu nome é o meio-dia e o peso

Do sol sobre a ânfora

Do teu corpo, sobre a tua cabeça

Como um lençol de luz, quando procuras

Apenas  a sombra

A única coisa que sei, quando te nomeio

Formosa mulher de Samaria

É a força nas tuas mãos quando levantas a água

É a antiga submissão de fêmea

Que canta o cântico plangente da sua vida.

 

05-07-2016

© João Tomaz Parreira 

Descritivo do amor no Cântico dos Cânticos (inédito de João Tomaz Parreira)

 

A sombra do meu amado faz arder os meus olhos.

As suas mãos perfumadas no meu rosto

São a água matinal, nos meus cabelos

O paladar dos cachos de uvas o tornam ébrio.

A chama do seu amor faz arder

As sombras. As maçãs na sua boca

São minhas, são meu alimento. A minha beleza

De jovem Sulamita o constrange, não sabe

Onde pôr a sua mão direita.

Enquanto a sua mão esquerda é um fogo

Debaixo da minha cabeça. Todos os meus ossos

Tremem com o açúcar da sua voz.

 

20-06-2016

© João Tomaz Parreira

 

New York movie

Arte:"New York Movie", 1939.

A arrumadora divide
pelas filas
os olhos,
faz sentar
fantasias,

depois
comparte seus
pensamentos
com os dedos

espera
mais ninguém
nas escadas

Move-se a cena
enquanto
na atmosfera escura
do cinema

as estrelas tremem
por trás
de lágrimas.

 

© João Tomaz Parreira ( in 3 Poemas para Edward Hopper, revista “Cronópios”)

 

Lidice Ribeiro: “Tanto o secularismo como a religião podem tender a posturas fundamentalistas”

 

Aproveitando a sua presente estadia em Portugal conversámos com a Prof. Doutora Lidice Meyer Pinto Ribeiro, docente e investigadora na Universidade Presbiteriana Mackenzie, em São Paulo, a propósito de alguns temas na área da ciência das religiões e do cristianismo em particular. Foram abordadas questões como o regresso à fé, os “desigrejados”, o envolvimento de cristãos na política, o pensamento pós-moderno e o neo-pentecostalismo.

 

Há mesmo um regresso à fé no mundo actual, como defendem alguns autores, ainda que eventualmente duma forma mais difusa e autónoma das estruturas religiosas?

Sim, há um aumento de espiritualidade no mundo moderno, o que não implica aumento da pertença a igrejas. A sede de espiritualidade é um fenômeno característico de nossa época. Lado a lado às religiões tradicionalmente reconhecidas há o crescimento de espiritualidades laicas, que não se enquadram no que pode ser classificado como igreja. A religião continua presente na vida do homem pós-moderno.

Como já afirmava o historiador das religiões Mircea Eliade, o homem é acima de tudo, Homus religiosus. Apesar da secularização, do individualismo crescente e da globalização, a modernidade não causou um recuo da religião, mas uma nova forma de exercício da dinâmica religiosa. O homem continua a buscar respostas para o mundo de incertezas em que vive, mas estas respostas não são necessariamente encontradas apenas “no seio de uma tradição imutável ou mediante um dispositivo institucional normativo” (Frédéric Lenoir).

Continuar a ler aqui.

 

Eurídice (inédito de J. T. Parreira)

 

 

Ainda que eu ande pelo vale da sombra

Da morte e a mão de Orfeu me largue

Por não se poder ter tudo ao mesmo tempo

Olhar o rosto da amada e a mão firme

Ainda assim

Não temerei porque tenho a música de Orfeu

Nos meus ouvidos, ainda que isto seja

O meu inferno: ouvir eternamente a música

Sem ter perto a respiração de Orfeu

Ser a Musa sem ter perto o seu cantor.

 

30-05-2016

© J.T.Parreira