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Triste criança

 

Terrified German soldier... he's just a kid... this breaks my heart. History in Pictures.

 

Triste criança mijada de medo

sufocada em farda odiosa

em nome duma pátria amada

e dum chefe

 

chora o menino de sua mãe

longe da mão que embala o berço

 

à voz do trovão

quando acorda do sonho dourado

descobre pesadelos a preto e branco

já não adianta cerrar os punhos

nem a testosterona ruidosa

que o comandante lhe despeja ao ouvido

 

chora pela mãe

por um buraco negro chamado futuro

por Deus

e por tudo. Por tudo.

 

 

José Brissos-Lino, 2/8/16

No teu abraço

 

Embrace, Paris, 1934 - Paris in 1930s by Fred Stein. Old Pics Archive.

Embrace, Paris, 1934, by Fred Stein. Old Pics Archive.

 

 

No teu abraço sinto a terra a girar

como meninos a correr à nossa volta

o sol do meio-dia a bater nos olhos

semi-cerrados na sombra

o silêncio misterioso da noite

que espera com paciência

o bater do coração da criança interior

choro contido da tristeza

que nada pede nem exige

riso dobrado de bebé

a irromper de dentro

 

Uma esperança que se desfaz

como a onda

mas regressa

e sobretudo a declaração oficial

de que somos irmãos.

 

 

José Brissos-Lino

30/7/16

Os cafés literários inventados na escrita

 

«Estou no café mais medonho que tenho encontrado na minha vida », escrevia de Paris, em 1949, António Maria Lisboa. Os destinatários eram alguns dos mais destacados poetas surrealistas da década, Cesariny, Pedro Oom, Cruzeiro Seixas.

A correspondência entre o poeta surrealista AML e os seus amigos, do grupo apelidado de «guerrilhas surrealistas», passava a palavra pelos cafés reencontrados, na escrita literária, em Lisboa ou em Paris.«Estou no café mais medonho…», e o poeta referia-se ao café Dupon ( «ou tout est bon», o café pelo menos não presta, a cerveja é fraca- dizia Lisboa ), utilizando a ironia como um dos aspectos referenciais do surrealismo.

Os cafés estiveram sempre presentes nas obras de muitos escritores, como local de encontro para uma tertúlia literária, como espaço de criação em que a solitùdine se faz rodear do cosmopolitismo.

Há mesmo cafés que pertecem, na Europa, à História da Literatura dos séculos XIX e XX, o Antico Café Greco, em Roma, o Le Flore, em Paris, talvez os mais conhecidos. Outros, porventura, menos falados, a não ser na própria Poesia: no Café Glorieta de Bilbao se sentava o poeta espanhol Antonio Machado.

Mário de Sá-Carneiro ao escrever um poema sobre as horas – o fluir do tempo- nos Cafés e sobre o próprio mobiliário, particular e único-a mesa do café-, apreciou esse espaço por inteiro. E escreveu versos imortais na literatura portuguesa, sobre a posse dessa sua mesa no Café tão subsidiária da vida. Quadra tão misteriosa, na sua aparente clareza, como os próprios veludos e cetins que o mármore por vezes exibe, com o seu frio colorido…

Minha mesa no Café,

Quero-lhe tanto… A garrida

Toda de pedra brunida

Que linda e que fresca é !

Fernando Pessoa também esperava a vida nos cafés. Numa carta dirigida a Armando Cortês-Rodrigues, em 28-6-1914, construída na sua essencialidade epistolar sobre floreados, ironias, classicismo, e até sobre ideias espíritas, dirigindo-se ao seu destinatário como «Irmão em Além», o Poeta pede ao interlocutor que venha com «a sua presença carnal – sem prolongamento gesticulante de bengala agressiva – à vil cova ou jazigo de utilidades e propósitos artísticos que dá pelo nome humano de Brasileira do Chiado».

Cafés de Lisboa, mais modernos, serviram no final da década de 40 do século passado como um palco para «performances» apreciáveis, já em pleno Neo-Realismo. Nas cartas mencionadas do poeta António Maria Lisboa, são referidas duas ou três Pastelarias (ou Cafés) da capital, sendo mesmo revisitadas não só como «material» epistolar, mas sobretudo como tendo sido historicamente ponto de encontro de uma Cultura, melhor uma Contra-Cultura, e de um labor intelectual. Nesses espaços, os escritores trocavam experiências, permutavam volumes, corrigiam provas e trovas, cumpriam palavras dadas.

Vou na terça-feira a Lisboa. Não posso ir mais cedo do que as 5 horas estar contigo e o Pedro Oom. Portanto às 5 horas da tarde estou na Mexicana.

Vou amanhã sábado a Lisboa. Só hoje me apetece escrever. Em algumas coisas cheguei a sínteses engraçadas. Estou no Café Chiado às 2,30 horas da tarde. Se não te encontrar estou na Smarta.

Muito do que a nossa História da Literatura do século XX regista, foi criado à mesa do café, fora das torres de marfim.

 

© João Tomaz Parreira 

Discurso sobre a água viva (inédito)

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Angelika Kauffmann-Christus und die Samariterin am Brunnen, 1796.

 

 

Quero nomear-te e a única coisa que sei

Do teu nome é o meio-dia e o peso

Do sol sobre a ânfora

Do teu corpo, sobre a tua cabeça

Como um lençol de luz, quando procuras

Apenas  a sombra

A única coisa que sei, quando te nomeio

Formosa mulher de Samaria

É a força nas tuas mãos quando levantas a água

É a antiga submissão de fêmea

Que canta o cântico plangente da sua vida.

 

05-07-2016

© João Tomaz Parreira 

Descritivo do amor no Cântico dos Cânticos (inédito de João Tomaz Parreira)

 

A sombra do meu amado faz arder os meus olhos.

As suas mãos perfumadas no meu rosto

São a água matinal, nos meus cabelos

O paladar dos cachos de uvas o tornam ébrio.

A chama do seu amor faz arder

As sombras. As maçãs na sua boca

São minhas, são meu alimento. A minha beleza

De jovem Sulamita o constrange, não sabe

Onde pôr a sua mão direita.

Enquanto a sua mão esquerda é um fogo

Debaixo da minha cabeça. Todos os meus ossos

Tremem com o açúcar da sua voz.

 

20-06-2016

© João Tomaz Parreira