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“O poeta é um enviado de Deus”

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José Jorge Letria põe na boca de Bocage palavras, frases e conceitos que o poeta teria afirmado de outras formas.

Na sua “narrativa biográfica” a que chamou “Já Bocage não sou” (Ed. Guerra e Paz, Lisboa, 2016), Letria põe o vate a falar da sua “inebriante sede de absoluto”, leva-o a testemunhar que “quem de si foge nem no Inferno encontra abrigo”, e a confessar que “se alguma dúvida tive em momentos de maior cepticismo quanto à existência de Deus, deixei de a ter agora”, sendo esse “agora” o trânsito final da sua existência humana.

Mas uma das frases mais emblemáticas da narrativa é esta: “O poeta é um enviado de Deus para lembrar às criaturas humana que a fé tem que ser lúcida e crítica, sob pena de se tornar rotina acéfala e enervante beatice”. Eu não diria melhor.

 

Mário de Sá-Carneiro: há cem anos taciturno

 

 

 

Quiçá  ensaio de João Tomaz Parreira ©

 

Se há poetas na nossa Literatura que não fingem, um deles será, indubitavelmente, o autor de “Dispersão”. É um poeta cuja poesia é feita, digamos assim, de oximoros. Brilhante no sombrio.

O próprio poema que dá título a esta breve nota ensaística, parece trair o estado de astenia espiritual sob o qual Mário dava a impressão real de viver. A poesia “Taciturno” começa assim:

“Há Oiro marchetado em mim, a pedra raras”

A contradição revela-se em que não há nada menos sombrio do que o Oiro e as pedras preciosas. Mas o poeta não podia continuar o poema neste registo, a taciturnidade o acompanha e diz, no verso seguinte que é “Oiro sinistro de sons de bronzes medievais” no seu mundo interior de armaduras cerradas.

Toda a quadra é uma originalidade íntima, que hoje estaria fora de moda, ou talvez não (há ainda poetas quase gongóricos):

“Há oiro marchetado em mim, a pedras raras,

Oiro sinistro em sons de bronze medievais –

Jóia profunda a minha alma a luzes caras,

Cibórico triangular de ritos infernais”

 

Este “oiro marchetado em mim”, oiro dentro de si, colidirá com esse oiro fora, numa análise endoliterária dos versos da poesia “Estátua Falsa”, toda cheia da enunciação do Eu:

“Só de oiro falso os meus olhos se douram;/ Sou esfinge sem mistério no poente.(…)Sou estrela ébria que perdeu os céus, / Sereia louca que deixou o mar”…

O crítico clássico da história da nossa literatura, João Gaspar Simões, depois de uma explanação prolífica como era o seu estilo, sobre diferenças entre subjectivismos, símbolos, imagens, etc. escreveu no prefácio a “Poesias” ( Sá-Carneiro, Ática, 1973, 32), que o poeta passou de objecto a sujeito da sua própria poética, entendemos nós.

Dito de outro modo, as Poesias do autor de “Confissão de Mário”, têm-no quase sempre como o Eu poético. Foi, como se sabe, um Eu poético breve, e não me refiro à curta estadia de Mário de Sá-Carneiro na vida, mas até na própria poiética, na escrita de poesia: o seu primeiro poema é datado de Fevereiro de 1913 e o último, antes do suicídio, também de Fevereiro de 1916, a coincidência simbólica da tragédia na sua poesia.

Até hoje ainda não encontrei intertextualidades na sua poética com os simbolistas e decadentistas portugueses dele contemporâneos, talvez por deficiência de observador. Por isso, mesmo breve, o poeta amigo, confidente, irmão de espírito de Fernando Pessoa, é original sempre,  naquilo que Simões designou como a “família poética nacional”.

Acresce que sendo um poeta disperso ( “Perdi-me dentro de mim/ porque eu era labirinto”), nos seus poemas, procura, ainda assim, encontrar-se no desejo irrealizado, o ser taciturno a contrastar com o brilho das equipagens,  quando afirmou ter sido “ Lord que fui de Escócias de outra vida / Hoje arrasta por esta a sua decadência” (in Indícios de Ouro, poema “O Lord”).

“Emigrado astral”, fantasma de si mesmo, são outras tantas simbólicas da sua curta vida, que ao escrever poeticamente, digo metaforicamente, “morreram-me meninos nos sentidos”, era sempre da sua morte que falava.

Mas antes da sua astenia, como já dissemos espiritual, ou melhor, total na intersecção, “no intermédio” da sua alma e do seu corpo, Sá-Carneiro tinha a doença da morte na poesia.

Seja lá o que for que isto é, alguém escreveu um dia (o poeta Nuno Júdice), que a “escrita de Sá-Carneiro é uma escrita doente”.

A culminância disto, estará porventura no poema Fim, celebrizado em música até, mas que deveria antes constar na antologia dos poemas que podem ser tudo: simbolistas, decadentistas, dadaístas e surreais, mas que, para mim, traduzem o último grito, um grito regionalista de Mário de Sá-Carneiro, que ironiza ou faz esquecer o cosmopolitismo da sua Paris:

“Quando eu morrer batam em latas / (…) Que o meu caixão vá sobre um burro / Ajaezado à andaluza…”

Morreu sem esta encenação, sem palhaços e acrobatas aos saltos e aos pinotes, nem chicotes no ar, a 26 de Abril de 1916. Cem anos de solidão.

 

© Aveiro, 23-04-2016                                                                                       

As nacionalizações do PREC: “Creio que há 20 anos seria impossível fazer este trabalho”

Foi ontem, na Casa da Cultura, em Setúbal, o pré-lançamento do livro “As nacionalizações do PREC”, da jornalista Filipa Lino (minha filha), editado pela Parsifal, com apresentação de Fernando Dacosta e a presença da Vereadora Carla Guerreiro, da CMS. Fotos de Simões da Silva e Susete Lino.

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Contributo para uma invenção do amor (inédito de J. T. Parreira)

 

 

 

Um homem e uma mulher que deixaram de olhar

para um poema no papel e entenderam-se com os olhos

um no outro,  com a urgência do medo de perder o momento

e depositaram como o ouro,  que de repente se descobre

a sua mão na mão do outro, um homem e uma mulher

que começaram sem palavras inúteis o Amor preso

em ambas as mãos, num fim de tarde de Outono

de mãos dadas.

 

17-04-2016

© João Tomaz Parreira