Arquivo da categoria: Arte, Educação, Cultura

Treblinka

Foto de João Tomaz Parreira.

 

Há nomes de estações que estremecem
À passagem dos comboios, chegam
De todos os lados famílias que acreditam
Nos haveres que trazem nas malas, prometeram
No fim da viagem estadia, trabalho
Aos homens e mulheres, lugar de repouso
Para a infância, salmos
E orações, que nada lhes faltará, um banho quente
Sob chuveiros tranquilos, para trás ficariam
Os pastos verdes cheios de cinzas e o fogo
Ali só o da Menorá. Não
Os enganavam, o fumo dos comboios
Chega para esconder a verdade sobre os campos.

16-11-2016
© João Tomaz Parreira

Hallelujah

Foto de João Tomaz Parreira.

To Leonard Cohen, like a bird on the wire

Tu querias os dias claros, felizes
Os que andam pelos caminhos
Rectos dizias. Antes de tocares a tua música
Celeste, David, vestias os teus olhos com lírios
E com a lã das ovelhas que te fizeram rei
Só um dia puseste uma sombra no rosto de Deus
Mas quando tomavas as cordas da harpa
Com doçura, eras guiado por um sinal do céu
Os acordes secretos apaziguavam
O coração de Deus, foste feliz quando teus dedos
Como armas sobre as cordas teciam aleluias
Mais do que quando os dedos tocaram
O veludo dos seixos que mataram Golias
Ou a seda do corpo de Bate-Seba.

12-11-2016
© João Tomaz Parreira

Os críticos fazem de uma obra Arte?

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 William Turner (1775-1851), Pescadores no mar.

 

William Turner não necessitou de John Ruskin para que as frases adornadas, os textos críticos e conceptuais deste, tornassem universais as suas telas, inultrapassáveis no que tocou, designadamente, à luz, às sombras, ao mar, às tempestades. É um exemplo entre centenas.

Não raras vezes as palavras do crítico “fazem” arte onde parece não haver nenhuma, nem sentido aparente, isto é, ajudam-nos a entender o quadro. Outras, as suas próprias palavras é que são a “arte”.

Coloca-se sempre a questão intemporal se um conjunto de pedras dispostas de uma certa maneira assimétrica ou mesmo harmónica, numa instalação “artística”, ou um caixote, ou uma sanita partida, seriam uma obra de arte da escultura, se tivesse a assinatura de Miguel Ângelo ou de Rodin.

Claro que exagero de propósito.

Ou no campo da pintura, três riscos assinados por mim e os mesmos três assinados por Picasso, recolheriam de Robert Hughes o beneplácito de uma interpretação conceptual. Ou de John Golding e de Roland Penrose, nomes que ajudaram a entender Obras de Arte.

Obviamente, que também sabemos que Picasso interpretou as suas próprias obras e isso lhes deu redobrado valor. Mas Picasso é, só por si, um adjectivo.

É recente a anedota acerca de dois garotos de rua que ao entrarem na exposição de Juan Miró, em Serralves, e ao verem o que estava nas paredes, saíram aflitos dizendo” vamos embora antes que pensem que fomos nós…”

Mas Miró não precisa de críticos de arte para elevarem a sua pintura a Arte extremamente semiótica. Os garotos disseram tudo.

© JTP