Arquivo da categoria: Arte, Educação, Cultura

Volta por cima – Maria Bethânia

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A América grande novamente

AGN

Numa estação do Subway em Manhattan.

 

Na grande América novamente os negros
Tanto são levados à igreja como aos tribunais
O mais certo é terem um seguro de prisão
E os hispânicos, a quem se deu a mão
Agora dá-se-lhes os pés, com seus dedos
rezaram o rosário, agora contam as alturas
Do muro que os separar do México
E que terão de caminhar na crosta da terra
A grande América
Já não é uma caverna da pré-história
E na 5ª Avenida em Nova Iorque
Só navegam cisnes fátuos como se fossem
Com suas plumas ao ballet.

02/02/2018
© João Tomaz Parreira

 

Inédito de J.T.Parreira: “A casa de Marta e Maria em Betânia”

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Johannes Vermeer-Christ in the House of Martha and Mary

 

Ele ia algumas vezes tomar refeições, Ele entrava

No meio de olhos alegres e vozes

Agradecidas pela sua visita, na casa as tarefas

Logo se definiam, Maria punha o coração

Nos seus ouvidos, não sabemos se ouvia poesia

As palavras vinham vivas, a irmã Marta sabia

Que uma anfitriã tem de ter sempre

A mesa posta, embora bastasse um copo de água

Fresca, tudo se fazia para o Hóspede

Se sentir como em sua casa, o céu

E a terra juntos em Betânia

Quando Ele as visitava.

17/01/2018

© João Tomaz Parreira

“Nenhum livro da Bíblia foi escrito para ser relativizado”

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O fascínio que a Bíblia tem provocado no classicista Frederico Lourenço levou-o a apresentar um conjunto de textos sobre as suas leituras pessoais da Escrituras. Facilitado pelo seu profundo conhecimento do grego em que foi escrito o Novo Testamento e a Septuaginta, apesar de não ser um teólogo, FL tece um conjunto de interessantes reflexões sobre passagens, temas e figuras bíblicas. Leituras que são suas e com as quais podemos concordar ou não.

Em todo o lado há deuses

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Raphael, St Paul Preaching in Athens (1515).

 

Li que Paulo ao chegar aos gregos teve um espanto

E irritou-se com o encontro de um deus em todo o lado

Um deus sem nome a quem chamar

Um deus desconhecido, não sabemos

Que tarefas empreendeu, ou que palavras disse

De veludo ou afiadas como facas

Um deus que nem sabe que há humanos

Li algures que Paulo ao chegar aos gregos

Via-os tactear entre esses deuses

Que havia muito tempo ninguém via

Como o rio Ilisos

Sem nomes a não ser de mistério e de silêncio.

 

05/01/2018

© João Tomaz Parreira

Desejos (porventura) ingénuos para 2018

2018

  1. Que Donald Trump comece finalmente a comportar-se como um estadista, ou pelo menos como um dirigente político mundial minimamente responsável, à altura da posição que ocupa.
  2. Que o futebol português deixe de ser o reino da mediocridade, da manipulação e da boçalidade, em termos de dirigismo, e passe a comportar-se com a dignidade inerente a um campeão da Europa.
  3. Que os jornais desportivos façam eco dos intervenientes no espectáculo (jogadores e treinadores) e não de dirigentes, empresários de jogadores, paineleiros e chefes de propaganda dos três grandes (intitulados eufemisticamente “directores de comunicação”).
  4. Que a comunicação social deixe de andar a reboque das redes sociais, focada na espuma dos dias e a fazer fretes a interesses inconfessados. Que deixe de andar a lançar gasolina no fogo, numa atitude tantas vezes provocatória, para depois filmar o incêndio e os consequentes estragos. Que deixe de amplificar fait divers que a ninguém interessam a não ser à mediocridade reinante. Que passe a concentrar-se nos reais problemas do país e nas questões que realmente importam, dispensando a manipulação emocional com que costuma brindar o público por tudo e por nada, confundindo todos os dias informação com entretenimento de mau gosto.
  5. Que o governo governe tendo em vista os interesses gerais do país e não das classes profissionais com maior poder reivindicativo. Que nunca esqueça os socialmente mais frágeis e os que não têm voz.
  6. Que a oposição assuma o seu papel, em vez de passar a vida a fazer processos de intenção e assassínios de carácter aos adversários. Que diga quais são as suas propostas políticas concretas, de forma consequente e sustentada, em vez do bota-abaixismo do costume.
  7. Que o presidente da república desempenhe com rigor a função para a qual foi eleito, não cedendo à tentação de querer ser rei ou exercer uma presidência paternalista, que diminua as instituições da democracia e o jogo democrático.
  8. Que o Acordo Ortográfico de 1990 caia de vez e para sempre.
  9. Que acabem em definitivo os mega-processos na justiça portuguesa.
  10. Que a Europa passe a ser mais dos cidadãos e dos povos, e menos dos bancos e das multinacionais.
  11. Que o papa Francisco consiga operar uma limpeza na cúria romana.
  12. Que o país aposte cada vez mais na educação e na formação dos portugueses.
  13. Que nos tornemos todos cada vez mais conscientes dos nossos direitos enquanto consumidores, mais proactivos em termos de cidadania e mais responsáveis no cumprimento dos nossos deveres.
  14. Que Setúbal se torne um concelho de referência, e cada vez mais atractivo, tanto pela qualidade de vida como pela dinâmica económica, na preservação dos seus valores culturais e do ambiente.

Bom Ano.

Fonte: José Brissos-Lino, O Setubalense, 5/1/18.