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Bisbilhotice

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De vez em quando volta o Portugal pacóvio e pidesco. Os média conseguiram fazer duma pequena conversa privada  – que dizia respeito apenas a duas pessoas – um caso político. Sim. Falo da expressão do ministro dos Estrangeiros que felicitava off the record o seu colega de governo pelo êxito das negociações no Conselho Económico e Social.

A ânsia de conquistar audiências a todo o custo levou as televisões a amplificar uma conversa privada. Acenderam uma fogueira e lançaram-lhe toda a gasolina que puderam, andando a pedir opinião aos parceiros sociais e políticos. Até aos que se encontravam fora do país… Antigamente chamava-se a isto bisbilhotice. Agora vêem-nos dizer que é “interesse público”.

E claro, o desesperado PSD vem logo comparar a situação ao caso da demissão de João Soares. Ou seja, tentar misturar água com azeite. Só que João Soares produziu uma afirmação pública, ainda por cima por escrito, e aqui estamos a falar duma conversa privada, escutada abusivamente.

E não me venham com teorias do interesse nacional. O que Santos Silva disse não tem interesse nenhum. É apenas conversa “de café”, privada – insisto – em tom de brincadeira, e não comportava nenhum segredo de Estado. Mas como sempre, alguns “jornaleiros” da nossa praça, quando não conseguem que os políticos digam aquilo que querem -e bem os pressionam nesse sentido – passam a escutar atrás das portas…

Cuidado políticos, ministros, secretários de Estado e figuras públicas. Vocês estão em risco de ser escutados quando forem ao WC. “Eles” dizem que é do “interesse público”.  Habituem-se.

 

O governo esteve mal. Assim como PS e PSD.

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Não, não aceito o salário milionário dos administradores da CGD.

Dizer que se trata de funcionamento normal de mercado é treta. Os dinheiros são públicos, logo, o país tem uma palavra a dizer. Não se trata dum banco privado, pois não?

Mas explico melhor a minha discordância.

Além de se tratar de um banco público, cujo único acionista é o Estado (isto é, eu e todos os meus concidadãos), há ainda a questão de não haver qualquer relação entre o salário e o desempenho. Corra bem ou mal, haja lucro ou prejuízo, a salário de luxo está garantido…

Mais. Se alguma coisa correr mal (e na Caixa só tem corrido!), estes senhores não são chamados a pagar pelos seus erros, acabando por ser sempre o contribuinte a fazê-lo através dos impostos que paga, boa parte das vezes com sacrifício, para uns senhores estarem sentados a fazer fretes aos amigos, como acontece frequentemente.

O governo está a agir mal e devia ter a coragem de dar um sinal moralizador. PS e PSD estão igualmente a agir mal e a revelar o tal “centrão dos interesses” de que tanto se fala.

E sim, o CDS, o BE e o PCP têm razão nesta matéria. E o presidente da república também.

O argumento do primeiro-ministro de não querer “arriscar a má gestão da Caixa” é ridículo. Tal como é inaceitável alegar que o profissionalismo de um gestor, assim como a sua capacidade técnica e independência estão condicionados a um vencimento de luxo. Não estão e isto não é demagogia, é a realidade dum país endividado, com fraco crescimento e (ainda) sobrecarregado de impostos.

Somos dignos da nossa história?

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O 5 de Outubro devia inspirar os portugueses. O país rompeu nesta data, em 1910, com uma monarquia caduca, tendo em vista uma sociedade mais justa e igualitária.

É certo que o novo poder republicano praticou muita asneira, desde o envolvimento na I Grande Guerra, da forma como o fez, à proibição do voto às mulheres, passando pela repressão sobre o operariado, em zonas industriais como Setúbal, por exemplo (onde houve mortes) e à bandalheira parlamentar, que acabou por abrir caminho à ditadura militar e, em consequência, ao regime do Estado Novo.

Todavia muita coisa aconteceu, a partir de 1910, para abrir a sociedade portuguesa à modernidade, e sobretudo retirá-la do domínio religioso. Recordo que antes da I República tínhamos um país rural, ignorante e completamente atrasado. Não existia Registo Civil e a escola pública era incipiente, atingindo a percentagem de analfabetos os 75,1% em 1911.

O espírito de lutar por uma sociedade mais justa e por maior coesão social coloca-se ainda hoje.

Até porque a data celebra igualmente o Tratado de Zamora, então assinado entre D. Afonso Henriques e o seu primo Afonso VII de Leão e Castela, que legitimou o nascimento do nosso país como nação independente. Foi há 873 anos, e por isso somos o mais antigo estado-nação da Europa. 

Se isto não nos inspira a tomar nas mãos o nosso destino colectivo, então talvez não sejamos dignos da nossa história. E nos contentemos em ficar pela anulação governamental da data enquanto feriado nacional (como já aconteceu, no passado recente), ou pelo acto presidencial ridículo de hastear a bandeira portuguesa de pernas para o ar (como também aconteceu)…

 

 

Palavras perdidas (1252)

«Numa famosa entrevista na televisão no final do ano passado, o ex-diretor-geral da Autoridade Tributária José Azevedo Pereira revelou que as 900 famílias mais ricas de Portugal, com património superior a 25 milhões de euros ou rendimento médio anual acima de 5 milhões, representavam uma percentagem irrisória da receita de IRS, da ordem dos 0,5 por cento, quando seria de esperar, de acordo com a lei, que pagassem 50 vezes mais. (…) Esta sensação de que existem na sociedade portuguesa dois grupos de pessoas, umas que tudo podem mas que nada devem e outras que pouco podem mas que devem tudo, a sensação de viver numa sociedade não só injusta mas profundamente corrompida, a sensação de impotência perante este estado de coisas, desacredita a democracia, destrói a participação cívica e corrói a sociedade. (…) Os ricos que paguem a crise? Não. Os ricos que paguem o que devem. Apenas isso.»

José Vítor Malheiros, Os ricos que paguem o que devem