Arquivo da categoria: Portugal

Palavras perdidas (1175)

“Aquilo que os gregos encontraram à sua frente não foi o muro da “realidade”, foi o muro do poder. O poder no sentido weberiano, a possibilidade de alguém obrigar outrem a proceder contra a sua vontade. Uma das grandes aquisições da crise grega para a consciência europeia, foi a revelação às claras, sem ambiguidade, sem disfarces, da brutalidade do exercício de um poder. Nos nossos dias isto não é desejado pelos poderosos, que gostam de disfarçar o seu poder na discrição e no segredo, onde ele é sempre maior. Ao revelar o poder, enfraqueceu-o. Dos alemães aos parceiros menores como Passos Coelho, saber-se o que fizeram, saber-se o que impediram e vetaram, saber-se o que disseram, nas portas fechadas do Eurogrupo, e perceber-se que o resultado foi uma imposição punitiva de uma política em que ninguém acredita a um governo e a um povo, cria uma situação sem retorno.”

(José Pacheco Pereira, Público)

Palavras perdidas (1174)

“Na terça-feira, o Presidente quis ouvir os partidos sobre a data das eleições. PSD, PS e CDS indicaram 27 de setembro. Consensualmente. Na quarta-feira, o Presidente apelou ao consenso: “Não é concebível que os nossos líderes partidários sejam incapazes de alcançar compromissos em torno dos grandes objetivos nacionais.” Dito isto, marcou as eleições para… 4 de outubro. Por uma vez que houve consenso entre os três grandes partidos, Cavaco contrariou. Isso de se fazerem consensos antes de ele apitar, é fora de jogo.”

(Ferreira Fernandes, DN)

Palavras perdidas (1173)

” Nem o Presidente pode fazer exigências aos eleitores nem se pode recusar a dar posse a governos minoritários – até porque lhe faltará, em fim de mandato, o único intrumento para essa recusa, que seria a marcação de novas eleições. Haverá um governo de maioria se os eleitores, independentemente das exigências do Presidente, decidirem dar a maioria dos deputados ao PS ou ao PSD/CDS, coisa que felizmente parece ser cada vez mais improvável. Se a lista mais votada for a do PSD/CDS e os socialistas cumpirem a promessa de não se aliarem a eles, o governo será minoritário, independentemente da vontade de Cavaco Silva. Se ganhar o PS, à sua esquerda não houver deputados suficientes com vontade de construir uma nova maioria de governo e o PS cumprir a promessa de não se aliar à direita, nada a fazer de novo. Não cabe ao Presidente exigir cenários políticos. Cabe-lhe gerir os cenários políticos que os portugueses lhe dão. Dez anos depois de tomar posse, já estava na altura de Cavaco Silva perceber que a realidade não lhe obedece só porque ele o exige.”

(Daniel Oliveira, Facebook)

Mais uma figura triste

A Múmia não tem emenda. Ontem quis fazer de uma simples marcação de eleições legislativas (em calendário normal) um caso de elevada importância política.

Talvez para esconder o drama do desemprego, da emigração em massa, sobretudo de jovens qualificados, o descalabro do Serviço Nacional de Saúde, da escola pública, da segurança social, da perseguição fiscal aos cidadãos, do roubo das pensões e salários, e de mais umas quantas desgraças deste país.

Aproveitou para mandar recados para os partidos, como quem diz: vocês não quiseram entender-se quando vos pedi (2012), pois agora vão ter que se entender à força.

O problema é que em Outubro a Múmia entrará na fase de perda de capacidades constitucionais. Por isso, bem pode ameaçar mas não passa disso. Esta chantagem inqualificável tem duas vertentes. A primeira é sobre o eleitorado, de modo a polarizar ainda mais as suas escolhas, e a segunda é sobre o PS, para que se entenda com o PSD num futuro governo e reeditem o bloco central de má memória. E se António Costa cair nessa nunca mais se levanta.

A verdade é que a Múmia não tinha necessidade nenhuma de fazer mais esta figura triste, nem tinha o direito de condicionar o futuro governo da nação.

 

Mais depressa se apanha um mentiroso do que um coxo

«Nós calculámos e estimámos e eu posso garantir-vos: Não será necessário em Portugal cortar mais salários nem despedir gente para poder cumprir um programa de saneamento financeiro. (…) O PSD quis vasculhar tudo para ter as contas bem feitas e, relativamente a tudo o que o governo não elucidou bem procurou estimar, preferindo fazê-lo por excesso do que por defeitoPassos Coelho (Abril 2011)

«A negociação foi essencialmente influenciada pelo PSD. (…) Nós vamos ser muito mais radicais no nosso programa do que a troika, vamos ser muito mais radicais. (…) Penso que o PSD, através da equipa que eu chefiei, deu um grande contributo para este processoEduardo Catroga (Maio 2011)

«Nunca partirei do princípio que não seremos capazes de cumprir [acordo da troika] porque eu acredito que o país pode cumprir, vai ser muito difícil, mas vamos cumprir. (…) Por isso é que disse sempre que o programa do PSD está muito para além daquilo que a ‘troika’ propõePassos Coelho (Junho 2011)

«Quando eu o recebi, o programa não era cumprível. As contas estavam mal feitas e não fui eu que as fiz. Constavam do memorando assinado entre o Governo e troikaPassos Coelho (Julho 2015)

 

Fonte: Ladrões de bicicletas.

Palavras perdidas (1172)

“E não me venham com o argumento de “confiança”, por parte de governantes como Merkel, Rajoy e Passos Coelho que apoiaram Samaras e a Nova Democracia até ao fim, sabendo que apoiavam um governo corrupto e oligárquico, coisa que o Syriza nunca foi acusado de ser. Esse governo “confiável” literalmente evaporou centenas de milhares de milhões de euros e permitiu que a Grécia, endividando-se até ao limite, funcionasse como tapete rolante para reciclar a dívida dos bancos franceses e alemães para os contribuintes europeus. E não me falem de “confiança” face a um acordo-diktat em que ninguém acredita, em que ninguém “confia” e que assenta no poder e no cinismo.

É uma exibição brutal de poder, que coloca a Grécia a ser governada de Bruxelas e Berlim, por gente que vai decidir os horários das lojas ao domingo, quem pode ter uma farmácia, como funcionam as leitarias e as padarias, e quem pode conduzir ferrys para as ilhas. Mas há mais: são revertidas decisões constitucionais de tribunais gregos e, como em Portugal se fez, mudanças legais para acelerar despejos, expropriações, falências e para retirar aos trabalhadores direitos sindicais e de negociação.”

(José Pacheco Pereira, Público)