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O governo esteve mal. Assim como PS e PSD.

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Não, não aceito o salário milionário dos administradores da CGD.

Dizer que se trata de funcionamento normal de mercado é treta. Os dinheiros são públicos, logo, o país tem uma palavra a dizer. Não se trata dum banco privado, pois não?

Mas explico melhor a minha discordância.

Além de se tratar de um banco público, cujo único acionista é o Estado (isto é, eu e todos os meus concidadãos), há ainda a questão de não haver qualquer relação entre o salário e o desempenho. Corra bem ou mal, haja lucro ou prejuízo, a salário de luxo está garantido…

Mais. Se alguma coisa correr mal (e na Caixa só tem corrido!), estes senhores não são chamados a pagar pelos seus erros, acabando por ser sempre o contribuinte a fazê-lo através dos impostos que paga, boa parte das vezes com sacrifício, para uns senhores estarem sentados a fazer fretes aos amigos, como acontece frequentemente.

O governo está a agir mal e devia ter a coragem de dar um sinal moralizador. PS e PSD estão igualmente a agir mal e a revelar o tal “centrão dos interesses” de que tanto se fala.

E sim, o CDS, o BE e o PCP têm razão nesta matéria. E o presidente da república também.

O argumento do primeiro-ministro de não querer “arriscar a má gestão da Caixa” é ridículo. Tal como é inaceitável alegar que o profissionalismo de um gestor, assim como a sua capacidade técnica e independência estão condicionados a um vencimento de luxo. Não estão e isto não é demagogia, é a realidade dum país endividado, com fraco crescimento e (ainda) sobrecarregado de impostos.

Somos dignos da nossa história?

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O 5 de Outubro devia inspirar os portugueses. O país rompeu nesta data, em 1910, com uma monarquia caduca, tendo em vista uma sociedade mais justa e igualitária.

É certo que o novo poder republicano praticou muita asneira, desde o envolvimento na I Grande Guerra, da forma como o fez, à proibição do voto às mulheres, passando pela repressão sobre o operariado, em zonas industriais como Setúbal, por exemplo (onde houve mortes) e à bandalheira parlamentar, que acabou por abrir caminho à ditadura militar e, em consequência, ao regime do Estado Novo.

Todavia muita coisa aconteceu, a partir de 1910, para abrir a sociedade portuguesa à modernidade, e sobretudo retirá-la do domínio religioso. Recordo que antes da I República tínhamos um país rural, ignorante e completamente atrasado. Não existia Registo Civil e a escola pública era incipiente, atingindo a percentagem de analfabetos os 75,1% em 1911.

O espírito de lutar por uma sociedade mais justa e por maior coesão social coloca-se ainda hoje.

Até porque a data celebra igualmente o Tratado de Zamora, então assinado entre D. Afonso Henriques e o seu primo Afonso VII de Leão e Castela, que legitimou o nascimento do nosso país como nação independente. Foi há 873 anos, e por isso somos o mais antigo estado-nação da Europa. 

Se isto não nos inspira a tomar nas mãos o nosso destino colectivo, então talvez não sejamos dignos da nossa história. E nos contentemos em ficar pela anulação governamental da data enquanto feriado nacional (como já aconteceu, no passado recente), ou pelo acto presidencial ridículo de hastear a bandeira portuguesa de pernas para o ar (como também aconteceu)…

 

 

Palavras perdidas (1252)

«Numa famosa entrevista na televisão no final do ano passado, o ex-diretor-geral da Autoridade Tributária José Azevedo Pereira revelou que as 900 famílias mais ricas de Portugal, com património superior a 25 milhões de euros ou rendimento médio anual acima de 5 milhões, representavam uma percentagem irrisória da receita de IRS, da ordem dos 0,5 por cento, quando seria de esperar, de acordo com a lei, que pagassem 50 vezes mais. (…) Esta sensação de que existem na sociedade portuguesa dois grupos de pessoas, umas que tudo podem mas que nada devem e outras que pouco podem mas que devem tudo, a sensação de viver numa sociedade não só injusta mas profundamente corrompida, a sensação de impotência perante este estado de coisas, desacredita a democracia, destrói a participação cívica e corrói a sociedade. (…) Os ricos que paguem a crise? Não. Os ricos que paguem o que devem. Apenas isso.»

José Vítor Malheiros, Os ricos que paguem o que devem

Palavras perdidas (1251)

«Um jornalista radical, Serge Halimi, escreveu um dia que desde que os jornalistas começaram a viver com os salários das classes altas, nos bairros das classes altas, a ir aos restaurantes das classes altas, começaram instintivamente a defender os interesses das classes altas, dos banqueiros, dos grandes empresários, e a ignorar os trabalhadores comuns que sobreviviam com dificuldades. Num passado remoto, o jornalista era um operário como os outros. Depois dos anos 80, as coisas mudaram. (…) O facto de o país comentador ter vindo abaixo com o anúncio de um novo imposto para o património mais elevado, que vai substituir o imposto de selo criado pelo governo Passos/Portas, prova que quem tem acesso à televisão não conhece o país em que vive, onde o salário médio é de 800 euros e a acumulação de património com valor tributário de 500 mil euros é uma raridade.»

Ana Sá Lopes, O país que passa na televisão está cheio de ricos