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O 25 de Abril ainda não chegou à área religiosa em Portugal

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Mais de quarenta anos depois, o 25 de Abril ainda não chegou à área religiosa em Portugal.

Tal como antes, o único representante religioso convidado para as comemorações da revolução de 1974 continua a ser o cardeal patriarca de Lisboa e presidente da Conferência Episcopal. Todas as outras confissões religiosas são olímpica e reiteradamente ignoradas pelo protocolo de Estado.

Onde está a igualdade dos cidadãos perante a lei?

Onde está o respeito pela Constituição, que proíbe a discriminação dos cidadãos em função da sua filiação religiosa, entre outras?

Onde está o estado laico e religiosamente equidistante?

Onde está o respeito e consideração pelas minorias religiosas?

Porque razão se dá a palavra ao PAN, Partido Os Verdes, Bloco de Esquerda e PCP na sessão solene – visto que são minorias políticas – e não apenas aos dois maiores partidos? Seria ridículo, não? Então porque se faz coisa semelhante com as minorias religiosas?Onde está a congruência?

E não me venham dizer que é difícil operacionalizar a representação de todos, porque isso seria outra tirada ridícula. Se o estado laico se quiser dar ao respeito e cumprir a Constituição, então convide apenas e só o presidente da Comissão de Liberdade Religiosa em representação de todas as religiões presentes no país.

Não são os deputados da república também eleitos pelos votos dos fiéis das minorias religiosas? Não são eles também seus representantes? Porquê desprezá-los e discriminá-los assim?

E porque razão os presidentes da república sempre pactuaram com a situação? Não são eles presidentes de TODOS os portugueses? Pelos vistos não.

O que parece é que, na cabeça dos políticos e dos titulares dos poderes públicos, Portugal ainda é um “país católico”, tal e qual como no tempo do Estado Novo.

Lamentável.

 

José Brissos-Lino 

 

 

Bisbilhotice

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De vez em quando volta o Portugal pacóvio e pidesco. Os média conseguiram fazer duma pequena conversa privada  – que dizia respeito apenas a duas pessoas – um caso político. Sim. Falo da expressão do ministro dos Estrangeiros que felicitava off the record o seu colega de governo pelo êxito das negociações no Conselho Económico e Social.

A ânsia de conquistar audiências a todo o custo levou as televisões a amplificar uma conversa privada. Acenderam uma fogueira e lançaram-lhe toda a gasolina que puderam, andando a pedir opinião aos parceiros sociais e políticos. Até aos que se encontravam fora do país… Antigamente chamava-se a isto bisbilhotice. Agora vêem-nos dizer que é “interesse público”.

E claro, o desesperado PSD vem logo comparar a situação ao caso da demissão de João Soares. Ou seja, tentar misturar água com azeite. Só que João Soares produziu uma afirmação pública, ainda por cima por escrito, e aqui estamos a falar duma conversa privada, escutada abusivamente.

E não me venham com teorias do interesse nacional. O que Santos Silva disse não tem interesse nenhum. É apenas conversa “de café”, privada – insisto – em tom de brincadeira, e não comportava nenhum segredo de Estado. Mas como sempre, alguns “jornaleiros” da nossa praça, quando não conseguem que os políticos digam aquilo que querem -e bem os pressionam nesse sentido – passam a escutar atrás das portas…

Cuidado políticos, ministros, secretários de Estado e figuras públicas. Vocês estão em risco de ser escutados quando forem ao WC. “Eles” dizem que é do “interesse público”.  Habituem-se.

 

O governo esteve mal. Assim como PS e PSD.

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Não, não aceito o salário milionário dos administradores da CGD.

Dizer que se trata de funcionamento normal de mercado é treta. Os dinheiros são públicos, logo, o país tem uma palavra a dizer. Não se trata dum banco privado, pois não?

Mas explico melhor a minha discordância.

Além de se tratar de um banco público, cujo único acionista é o Estado (isto é, eu e todos os meus concidadãos), há ainda a questão de não haver qualquer relação entre o salário e o desempenho. Corra bem ou mal, haja lucro ou prejuízo, a salário de luxo está garantido…

Mais. Se alguma coisa correr mal (e na Caixa só tem corrido!), estes senhores não são chamados a pagar pelos seus erros, acabando por ser sempre o contribuinte a fazê-lo através dos impostos que paga, boa parte das vezes com sacrifício, para uns senhores estarem sentados a fazer fretes aos amigos, como acontece frequentemente.

O governo está a agir mal e devia ter a coragem de dar um sinal moralizador. PS e PSD estão igualmente a agir mal e a revelar o tal “centrão dos interesses” de que tanto se fala.

E sim, o CDS, o BE e o PCP têm razão nesta matéria. E o presidente da república também.

O argumento do primeiro-ministro de não querer “arriscar a má gestão da Caixa” é ridículo. Tal como é inaceitável alegar que o profissionalismo de um gestor, assim como a sua capacidade técnica e independência estão condicionados a um vencimento de luxo. Não estão e isto não é demagogia, é a realidade dum país endividado, com fraco crescimento e (ainda) sobrecarregado de impostos.

Somos dignos da nossa história?

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O 5 de Outubro devia inspirar os portugueses. O país rompeu nesta data, em 1910, com uma monarquia caduca, tendo em vista uma sociedade mais justa e igualitária.

É certo que o novo poder republicano praticou muita asneira, desde o envolvimento na I Grande Guerra, da forma como o fez, à proibição do voto às mulheres, passando pela repressão sobre o operariado, em zonas industriais como Setúbal, por exemplo (onde houve mortes) e à bandalheira parlamentar, que acabou por abrir caminho à ditadura militar e, em consequência, ao regime do Estado Novo.

Todavia muita coisa aconteceu, a partir de 1910, para abrir a sociedade portuguesa à modernidade, e sobretudo retirá-la do domínio religioso. Recordo que antes da I República tínhamos um país rural, ignorante e completamente atrasado. Não existia Registo Civil e a escola pública era incipiente, atingindo a percentagem de analfabetos os 75,1% em 1911.

O espírito de lutar por uma sociedade mais justa e por maior coesão social coloca-se ainda hoje.

Até porque a data celebra igualmente o Tratado de Zamora, então assinado entre D. Afonso Henriques e o seu primo Afonso VII de Leão e Castela, que legitimou o nascimento do nosso país como nação independente. Foi há 873 anos, e por isso somos o mais antigo estado-nação da Europa. 

Se isto não nos inspira a tomar nas mãos o nosso destino colectivo, então talvez não sejamos dignos da nossa história. E nos contentemos em ficar pela anulação governamental da data enquanto feriado nacional (como já aconteceu, no passado recente), ou pelo acto presidencial ridículo de hastear a bandeira portuguesa de pernas para o ar (como também aconteceu)…