Arquivo da categoria: Reflexões, Memória

Com esqueletos no armário e nódoas na roupa

batalha da França (6)

Caiu sobre o filósofo alemão Martin Heidegger, pai do Existencialismo ateu, um estigma que tem muito a ver com uma religião nihilista , o nazismo.  Chamaram-lhe nazi. De certo modo e em certa altura no tempo, filiou-se em 1933 no Partido de Hitler, e defendeu ideias contra os judeus, sobretudo nos seus “Cadernos Negros” em que há apontamentos antissemitas, e do nacional-socialismo.

A sua relação estreitíssima com a filósofa judia Hanna Arendt não lhe limpou a nódoa. Mas, honestamente, nem todo o grande pensamento do filósofo propôs cânticos a favor do nazismo, tão pouco a sua obra o sustentou integralmente. A leitura de passagens de “Ser e Tempo” (1927) como precursoras da ideologia hitleriana é forçada e até desonesta – ainda que o próprio Heidegger (como no célebre Discurso de Reitorado) tenha corrompido suas ideias para se adequar ao regime totalitário vigente.

Mas ao abordar este assunto, é útil lembrar que no meio de circunstâncias obscuras e em momentos terríveis da vida, designadamente na França ocupada pelos alemães, alguns escritores tiveram que, para sobreviver, efectuar escolhas difíceis. Não traíram, mas tiveram que ceder em alguns aspectos das suas obras.

Jean-Paul Sartre na sua actividade de dramaturgo e encenador viu as suas peças de teatro “Huis Clos” e “As Moscas” subirem ao palco com a permissão das autoridades alemãs e com oficiais nazis no público. Ambas as peças eram críticas, porém, do regime nazi e de Vichy. Diz-se que lhe foi oferecido um lugar de professor de liceu que pertencera a um judeu, despojado desse lugar pela legislação antissemita.

Marguerite Duras trabalhou como secretária de uma comissão Colaboracionista que atribuía suprimentos de papel aos editores, mas também na clandestinidade esteve ao lado de Mitterrand numa rede da Resistência.

Por fim, Albert Camus teve que permitir que o seu ensaio “O Mito de Sísifo” saísse sem o capítulo dedicado a Kafka, porque este estava na lista dos livros proibidos por se tratar de um autor judeu. Publicou-o mais tarde na Zona Desocupada de França.

Alguém já escreveu a perguntar, numa publicação americana, “qual foi a atitude de Sartre sobre a pessoa que ele substituiu no liceu? Quão angustiado ficou o jovem Camus sobre a remoção de Kafka do seu primeiro livro publicado de ensaios?”

© JTP

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O homem de Viktor Frankl e de Primo Levi

jtp

 

O homem que é fundido na massa, que num campo de concentração não deveria dar nas vistas dos guardas SS, não sobressair em nada, tornar-se apenas num incógnito para tentar sobreviver algum tempo, é a temática de dois livros coincidentes.

“Se Isto é Um Homem”, de Primo Levi, e, de Viktor Frankl, “Um psicólogo no campo de concentração”.

Não há grandes mudanças nem novidades nas análises psicológicas dos deportados e encarcerados nos campos de concentração nazis de Auschwitz-Birkenau que o psicólogo Victor Frankl e o escritor e poeta Primo Levi fizeram, a partir do mesmo destino nesses campos, porque eram judeus.

O elemento comum que já a filósofa judia Hanna Arendt identificara, é a despersonalização dos indíviduos, o tornar os judeus, sobretudo estes, matéria descartável, abaixo de sub-humanos se cabe aqui o pleonasmo.

Um dos aspectos que Viktor Frankl evidencia no seu livro, no que concerne à despersonalização do indivíduo, é, por exemplo, o facto da nudez. É a primeira realidade dos prisioneiros que chegavam ao campo e antes de entrarem para um suposto duche nas câmaras de gás, o que significava não apenas “o não ter nada no corpo”, mas também o homem e a mulher intuírem ou terem mesmo a consciência de que “possuíamos apenas a nossa existência literalmente nua”.

Vão no mesmo sentido as palavras de Primo Levi, no que diz respeito à consciência de que perante os carrascos já não se tem nem corpo nem alma, podendo dizer-se o mesmo total vazio dos algozes: “Aqui recebemos as primeiras pancadas: e o facto foi tão novo e insensato que não sentimos dor, nem no corpo nem na alma. Só um profundo espanto: como se pode bater num homem sem raiva?”

Na contundente narrativa de Levi, lemos do completo despojamento de personalidade do prisioneiro judeu nos primeiros momentos entre a aglomeração num gueto, a deportação, a chegada ao destino, o despojamento da individualidade e do pensar: “Soubéramos, com alívio, do nosso destino. Auschwitz: um nome sem qualquer significado, naquela altura e para nós; mas certamente devia corresponder a um lugar desta Terra.”

Do outro lado, da parte dos executores do maléfico plano de Eichmann, a chamada Solução Final que deveria extirpar a judiaria europeia, a própria despersonalização era evidente, já nem seria ideológica, era apenas a prossecução do Mal. Quantos mais “números” de uma raça tido como inferior e sem direito a existir eliminassem, tanto melhor. Nenhum dos guardas dos campos de concentração nazis era um burocrata, era tão só manobrador de uma maquinaria de morte, limitava -se a cumprir ordens, sim, mas tinha com certeza prazer nos sofrimentos que estava a infligir aos prisioneiros judeus e não apenas a estes? Os guardas e os oficiais SS estavam presentes e eram os agentes do Mal, ao contrário da banalidade entrevista na atitude de Adolfo Eichmann, que foi depois julgado em Jerusalém em 1962 e enforcado. Eram apenas monstros.

© João Tomaz Parreira

O vazio cultural

ref

Hoje, na Livraria Bertrand do Alegro Setúbal, perguntei porque motivo não havia um único livro exposto sobre a temática da Reforma, no dia em que se celebram 500 anos do seu início, um movimento religioso, cultural, social e histórico que mudou a face da Europa e o mundo. Não me souberam responder.

Motivos, há muitos, seu palerma, disse para comigo. É que já quase não há livreiros, apenas vendedores de livros… Por outro lado continuamos a ver a Reforma como coisa estrangeirada. Por isso se torna ainda mais oportuno este congresso:

cartaz conglutero

História e literatura memorialista

hist

 

O trabalho do historiador é bem mais sério e exigente do que o do memorialista.

Escrever memórias está ao alcance de qualquer um. A historiografia, porém, exige um conjunto de pressupostos como distanciamento temporal significativo dos factos registados, distanciamento crítico e nunca escrever na primeira pessoa.

Quem escreve história não pode deixar de registar todos os intervenientes que influenciaram o curso dos acontecimentos, mesmo os que lhe não agradam, assim como as ocorrências que não aprecia.

Mas o escritor de memórias pode perfeitamente utilizar a técnica de Estaline – que tentou apagar da história da revolução russa uma personagem tão central e incontornável como Trotsky – assim como pode contar apenas o que lhe dá jeito, ou que considera pessoalmente conveniente, e colocar-se no centro do palco, assumindo um protagonismo abusivo e patético. Pode até assumir para si uma importância histórica que realmente nunca teve nem lhe foi reconhecida. Vale o que vale.

Pelo contrário, o historiador baseia-se em documentos, procura descrever factos e interpretar acontecimentos, com o distanciamento emocional do investigador e a atitude de humildade e seriedade científicas que a tarefa de escrever história exige, e depois ainda se sujeita ao escrutínio dos seus pares.

Antigamente os reis contratavam uma espécie de historiadores à medida das suas vaidades e presunções – os chamados cronistas – que eram pagos para sublinhar, glorificar e exagerar as suas qualidades e feitos, escondendo sempre os escândalos e fracassos.

Sim, porque a história também é feita dos fracassos, dos escândalos. Todas as grandes figuras que marcaram a história da humanidade tiveram o seu lado lunar, as suas sombras, as suas vergonhas. Até mesmo muitas das grandes figuras bíblicas tidas como exemplos de fé e virtude, tanto no Antigo como no Novo Testamentos. Basta que nos recordemos de Abraão, Moisés, David, Pedro, Paulo e tantos, tantos outros.

Hoje estão na moda os gost writers (autores que são pagos para escrever de forma anónima, em nome de outros) e o mesmo se passa com produtores e arranjadores de música pimba, que não querem ver o seu nome associado a tais produtos de baixa qualidade, mas que, por serem altamente comerciais, lhes garantem uma boa retribuição financeira. Uns e outros vendem as suas competências para sobreviver (há que ganhar a vida), ainda que tal abastardamento da sua arte desagrade à sua sensibilidade intelectual e artística.

Nem tudo o que luze é ouro. Nem tudo o que parece história passa no crivo historiográfico. E sempre houve gente demais a querer rever a História.

 

Fonte: José Brissos-Lino, O Setubalense, 22/9/17.

 

O amor (e não o ódio)

Uma das razões para estudar História é que se podem aprender grandes lições com ela. Mas é trágico verificar que, afinal, tantos são aqueles que aprendem tão pouco.

A presente histeria islamofóbica, anti-refugiados e anti-estrangeiros de que Donald Trump se fez bandeira, de forma oportunista, em nada difere, por exemplo, do problema americano com a segregação racial, leia-se racismo contra os negros.

No sul da América, os negros eram trabalhadores sem direitos, e tinham servido anos a fio como escravos que alimentavam uma estrutura agrícola produtiva baseada no cultivo do algodão.

É bom recordar que Martin Luther King, o pastor baptista que liderou a luta pelos direitos civis pela população negra, foi cobardemente assassinado a tiro (1968), assim como o presidente Lincoln, que tinha vencido a Guerra da Secessão (1861-1865) e abolido a escravatura.

Tal como os muçulmanos, os negros eram cidadãos americanos. Tão cidadãos como os brancos, mas a política oficial estipulava a discriminação pela cor da pele. Hoje quer-se segregar mexicanos, muçulmanos e sabe-se lá quem mais. É a mesma loucura e falta de humanidade.

The eyes of senseless hatred

Elizabeth Ann Eckford, foi uma das nove estudantes afro-americanas a quem foi permitido pela primeira vez frequentar a Little Rock Central High School, Arkansas, em 1957. Na foto ela é seguida, provocada e insultada por uma multidão de mulheres brancas e furiosas que a cerca, as quais, contra as ordens do governador, tentam intimidar a jovem para que abandone os estudos. Pode-se perceber o desprezo e o ódio destas mulheres contra a jovem negra.

goebbels

Anos antes o líder nazi Joseph Goebbels tratou Eisenstaedt – o autor desta foto – com respeito até descobrir que o fotógrafo era judeu, no exacto momento da captação da imagem. Pode-se sentir mesmo repulsa e ódio nos seus olhos face à descoberta.

Ontem, como hoje, a filiação religiosa não assegura automaticamente o respeito pelo próximo nem sequer a sua aceitação e muito menos o amor que Jesus de Nazaré ensinou que lhe devemos. Sem excepções. As mulheres brancas de Little Rock, certamente seriam protestantes ou católicas, frequentadoras do culto ou da missa, nalguma comunidade religiosa sujeita à proibição de entrada aos negros, assim como os líderes nazis invocavam o nome de Deus na sua luta contra judeus, ciganos, homossexuais e pessoas portadoras de deficiência.

A atitude agressiva de Donald Trump é a mesma para com os muçulmanos do que a da América segregacionista era para com os negros, ou o regime nazi na Alemanha para com os judeus.

É por isso que tal discurso tem que ser denunciado com todo o vigor, e relembrar aos cristãos que se deixam ludibriar que o ódio não é uma linguagem bíblica nem cristã. Pelo contrário, quem odeia é fraco e se diz que ama a Deus, mente: “Se alguém diz: Eu amo a Deus, e odeia a seu irmão, é mentiroso. Pois quem não ama a seu irmão, ao qual viu, como pode amar a Deus, a quem não viu?” (I João 4:20).

Mas o amor é a maior força do Universo. Já Salomão dizia que “o amor é forte como a morte” (Cânticos 8:6).

E como notava o papa Francisco, nas recentes Jornadas Mundiais da Juventude, em Cracóvia, há que evitar a “paralisia” do medo, considerando-a como “um dos piores males que nos podem acontecer na vida”, tendo exortado os jovens a   promover a “fraternidade” como resposta ao mal.

O amor vencerá.