Arquivo da categoria: Reflexões, Memória

O vazio cultural

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Hoje, na Livraria Bertrand do Alegro Setúbal, perguntei porque motivo não havia um único livro exposto sobre a temática da Reforma, no dia em que se celebram 500 anos do seu início, um movimento religioso, cultural, social e histórico que mudou a face da Europa e o mundo. Não me souberam responder.

Motivos, há muitos, seu palerma, disse para comigo. É que já quase não há livreiros, apenas vendedores de livros… Por outro lado continuamos a ver a Reforma como coisa estrangeirada. Por isso se torna ainda mais oportuno este congresso:

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História e literatura memorialista

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O trabalho do historiador é bem mais sério e exigente do que o do memorialista.

Escrever memórias está ao alcance de qualquer um. A historiografia, porém, exige um conjunto de pressupostos como distanciamento temporal significativo dos factos registados, distanciamento crítico e nunca escrever na primeira pessoa.

Quem escreve história não pode deixar de registar todos os intervenientes que influenciaram o curso dos acontecimentos, mesmo os que lhe não agradam, assim como as ocorrências que não aprecia.

Mas o escritor de memórias pode perfeitamente utilizar a técnica de Estaline – que tentou apagar da história da revolução russa uma personagem tão central e incontornável como Trotsky – assim como pode contar apenas o que lhe dá jeito, ou que considera pessoalmente conveniente, e colocar-se no centro do palco, assumindo um protagonismo abusivo e patético. Pode até assumir para si uma importância histórica que realmente nunca teve nem lhe foi reconhecida. Vale o que vale.

Pelo contrário, o historiador baseia-se em documentos, procura descrever factos e interpretar acontecimentos, com o distanciamento emocional do investigador e a atitude de humildade e seriedade científicas que a tarefa de escrever história exige, e depois ainda se sujeita ao escrutínio dos seus pares.

Antigamente os reis contratavam uma espécie de historiadores à medida das suas vaidades e presunções – os chamados cronistas – que eram pagos para sublinhar, glorificar e exagerar as suas qualidades e feitos, escondendo sempre os escândalos e fracassos.

Sim, porque a história também é feita dos fracassos, dos escândalos. Todas as grandes figuras que marcaram a história da humanidade tiveram o seu lado lunar, as suas sombras, as suas vergonhas. Até mesmo muitas das grandes figuras bíblicas tidas como exemplos de fé e virtude, tanto no Antigo como no Novo Testamentos. Basta que nos recordemos de Abraão, Moisés, David, Pedro, Paulo e tantos, tantos outros.

Hoje estão na moda os gost writers (autores que são pagos para escrever de forma anónima, em nome de outros) e o mesmo se passa com produtores e arranjadores de música pimba, que não querem ver o seu nome associado a tais produtos de baixa qualidade, mas que, por serem altamente comerciais, lhes garantem uma boa retribuição financeira. Uns e outros vendem as suas competências para sobreviver (há que ganhar a vida), ainda que tal abastardamento da sua arte desagrade à sua sensibilidade intelectual e artística.

Nem tudo o que luze é ouro. Nem tudo o que parece história passa no crivo historiográfico. E sempre houve gente demais a querer rever a História.

 

Fonte: José Brissos-Lino, O Setubalense, 22/9/17.

 

O amor (e não o ódio)

Uma das razões para estudar História é que se podem aprender grandes lições com ela. Mas é trágico verificar que, afinal, tantos são aqueles que aprendem tão pouco.

A presente histeria islamofóbica, anti-refugiados e anti-estrangeiros de que Donald Trump se fez bandeira, de forma oportunista, em nada difere, por exemplo, do problema americano com a segregação racial, leia-se racismo contra os negros.

No sul da América, os negros eram trabalhadores sem direitos, e tinham servido anos a fio como escravos que alimentavam uma estrutura agrícola produtiva baseada no cultivo do algodão.

É bom recordar que Martin Luther King, o pastor baptista que liderou a luta pelos direitos civis pela população negra, foi cobardemente assassinado a tiro (1968), assim como o presidente Lincoln, que tinha vencido a Guerra da Secessão (1861-1865) e abolido a escravatura.

Tal como os muçulmanos, os negros eram cidadãos americanos. Tão cidadãos como os brancos, mas a política oficial estipulava a discriminação pela cor da pele. Hoje quer-se segregar mexicanos, muçulmanos e sabe-se lá quem mais. É a mesma loucura e falta de humanidade.

The eyes of senseless hatred

Elizabeth Ann Eckford, foi uma das nove estudantes afro-americanas a quem foi permitido pela primeira vez frequentar a Little Rock Central High School, Arkansas, em 1957. Na foto ela é seguida, provocada e insultada por uma multidão de mulheres brancas e furiosas que a cerca, as quais, contra as ordens do governador, tentam intimidar a jovem para que abandone os estudos. Pode-se perceber o desprezo e o ódio destas mulheres contra a jovem negra.

goebbels

Anos antes o líder nazi Joseph Goebbels tratou Eisenstaedt – o autor desta foto – com respeito até descobrir que o fotógrafo era judeu, no exacto momento da captação da imagem. Pode-se sentir mesmo repulsa e ódio nos seus olhos face à descoberta.

Ontem, como hoje, a filiação religiosa não assegura automaticamente o respeito pelo próximo nem sequer a sua aceitação e muito menos o amor que Jesus de Nazaré ensinou que lhe devemos. Sem excepções. As mulheres brancas de Little Rock, certamente seriam protestantes ou católicas, frequentadoras do culto ou da missa, nalguma comunidade religiosa sujeita à proibição de entrada aos negros, assim como os líderes nazis invocavam o nome de Deus na sua luta contra judeus, ciganos, homossexuais e pessoas portadoras de deficiência.

A atitude agressiva de Donald Trump é a mesma para com os muçulmanos do que a da América segregacionista era para com os negros, ou o regime nazi na Alemanha para com os judeus.

É por isso que tal discurso tem que ser denunciado com todo o vigor, e relembrar aos cristãos que se deixam ludibriar que o ódio não é uma linguagem bíblica nem cristã. Pelo contrário, quem odeia é fraco e se diz que ama a Deus, mente: “Se alguém diz: Eu amo a Deus, e odeia a seu irmão, é mentiroso. Pois quem não ama a seu irmão, ao qual viu, como pode amar a Deus, a quem não viu?” (I João 4:20).

Mas o amor é a maior força do Universo. Já Salomão dizia que “o amor é forte como a morte” (Cânticos 8:6).

E como notava o papa Francisco, nas recentes Jornadas Mundiais da Juventude, em Cracóvia, há que evitar a “paralisia” do medo, considerando-a como “um dos piores males que nos podem acontecer na vida”, tendo exortado os jovens a   promover a “fraternidade” como resposta ao mal.

O amor vencerá.

 

 

 

 

Neoliberalismo: a ideologia na raiz de todos os nossos problemas

Um excelente artigo de George Monbiot no Guardian. Em inglês. A ler.

Ronald Reagan and Margaret Thatcher at the White House.
‘No alternative’ … Ronald Reagan and Margaret Thatcher at the White House. Photograph: Rex Features

 

Financial meltdown, environmental disaster and even the rise of Donald Trump – neoliberalism has played its part in them all. Why has the left failed to come up with an alternative?

Imagine if the people of the Soviet Union had never heard of communism. The ideology that dominates our lives has, for most of us, no name. Mention it in conversation and you’ll be rewarded with a shrug. Even if your listeners have heard the term before, they will struggle to define it. Neoliberalism: do you know what it is?

Its anonymity is both a symptom and cause of its power. It has played a major role in a remarkable variety of crises: the financial meltdown of 2007‑8, the offshoring of wealth and power, of which the Panama Papers offer us merely a glimpse, the slow collapse of public health and education, resurgent child poverty, the epidemic of loneliness, the collapse of ecosystems, the rise of Donald Trump. But we respond to these crises as if they emerge in isolation, apparently unaware that they have all been either catalysed or exacerbated by the same coherent philosophy; a philosophy that has – or had – a name. What greater power can there be than to operate namelessly?

Continuar a ler aqui.