Arquivo da categoria: Reflexões

Uma tautologia

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Esta fotografia é como uma tautologia, começa e acaba em si própria, como os “poemas que são e se significam a si próprios”, no dizer de Harold Bloom.

A sublimação com que se trata esta fotografia há um século, é uma espécie de arkesis. A nossa palavra para o termo grego é ascese. Ascetismo é  o que nos sugere esta fotografia, obviamente.
A mesma intui no nosso espírito uma espécie da já referida arkesis, quando a olhamos atentamente.

Os rostos têm uma relação com a religião, a responsabilidade de serem protagonistas de uma “epifania” preparada, têm a motivação da tristeza de uma religião, nas crianças transparece o começo de uma vida ascética a que as obrigaram.
A fotografia tem uma força própria, a da tragédia. Não mostra nenhuma visão romântica.

Mas exceptua-se um rosto, que denota uma beleza infantil em gestação, uma pose de charme que, por certo, a Jacinta nos seus 7 anos desconheceria. No entanto, faz-se fotografar com a mão inocentemente na cintura. Uma atitude de feminilidade.
Ao fim destes cem anos, penso que  alguém deveria ser responsabilizado por ter cerceado a beleza na adolescência de Jacinta.

© João Tomaz Parreira

O 25 de Abril ainda não chegou à área religiosa em Portugal

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Mais de quarenta anos depois, o 25 de Abril ainda não chegou à área religiosa em Portugal.

Tal como antes, o único representante religioso convidado para as comemorações da revolução de 1974 continua a ser o cardeal patriarca de Lisboa e presidente da Conferência Episcopal. Todas as outras confissões religiosas são olímpica e reiteradamente ignoradas pelo protocolo de Estado.

Onde está a igualdade dos cidadãos perante a lei?

Onde está o respeito pela Constituição, que proíbe a discriminação dos cidadãos em função da sua filiação religiosa, entre outras?

Onde está o estado laico e religiosamente equidistante?

Onde está o respeito e consideração pelas minorias religiosas?

Porque razão se dá a palavra ao PAN, Partido Os Verdes, Bloco de Esquerda e PCP na sessão solene – visto que são minorias políticas – e não apenas aos dois maiores partidos? Seria ridículo, não? Então porque se faz coisa semelhante com as minorias religiosas?Onde está a congruência?

E não me venham dizer que é difícil operacionalizar a representação de todos, porque isso seria outra tirada ridícula. Se o estado laico se quiser dar ao respeito e cumprir a Constituição, então convide apenas e só o presidente da Comissão de Liberdade Religiosa em representação de todas as religiões presentes no país.

Não são os deputados da república também eleitos pelos votos dos fiéis das minorias religiosas? Não são eles também seus representantes? Porquê desprezá-los e discriminá-los assim?

E porque razão os presidentes da república sempre pactuaram com a situação? Não são eles presidentes de TODOS os portugueses? Pelos vistos não.

O que parece é que, na cabeça dos políticos e dos titulares dos poderes públicos, Portugal ainda é um “país católico”, tal e qual como no tempo do Estado Novo.

Lamentável.

 

José Brissos-Lino 

 

 

Dos touros de Lascaux ao cavalo de Guernica (inédito de J.T.Parreira)

Dos touros rupestres de Lascaux, com a sua semiologia, ao cavalo germinal e ao touro tutelar da Guernica, de Picasso, a distância é longa, de facto, e seria de anos-luz se estivéssemos a tratar meios comunicacionais entre galáxias diferentes. A verdade é que essa comunicação apresenta-se com sinais da mesma entidade, o ser humano, que comunica entre si num mesmo lugar que é a Terra.

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Com efeito, estamos diante dos sinais do homem, desde as grutas de Lascaux, onde a riqueza dos signos convoca o estudo dos mesmos pela semiótica, até ao Centro de Arte Reina Sofia, onde a Guernica continua a fazer recuperar uma história trágica da Espanha e dos seus povos, história contemporânea e viva ainda em inúmeras memórias septuagenárias.

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Os contemporâneos de Lascaux, como quaisquer outros habitantes de cavernas do Paleolítico, conheciam o que hoje modernamente se pretende ignorar: a distinção dos géneros, do masculino e do feminino, eles não trocavam nem promiscuíam a beleza da humanidade composta de mulher e homem. O seu conceito de família era rigoroso, os meios usados para a procriação estavam bem definidos e bem representados, com a precisão simbólica que a capacidade artística para o desenho na pedra permitia. O símbolo fálico do homem e os símbolos ovais para representar a mulher não se misturavam nas paredes das cavernas. Seria uma arte da animalidade, como se lhe chamou, mas a sua leitura semiológica – a interpretação dos sinais – nesses desenhos eram o símbolo do homem e da mulher, do pai e da mãe, eram a representação do núcleo fundamental que é a família.

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Os impedimentos para a depravação entre homens e mulheres estavam até graficamente delimitados, a viagem intergaláctica de Sodoma para Roma, através de muitos séculos de maus costumes, não está documentada graficamente como um historial de sentimentos reprováveis e sórdidos. O que a chamada arte parietal, as gravuras nas paredes das cavernas, distinguia, o macho e a fêmea nos seus devidos lugares, milénios depois viria a ser normativo na Bíblia Sagrada. Designadamente nas Cartas de Paulo – a Epístola aos Romanos – onde as paixões infames, a mudança do modo natural das relações íntimas, as inflamações da sensualidade orientadas para o mesmo sexo, são identificadas pelo apóstolo já numa cultura a meio-caminho entre o clássico e a modernidade, comparativamente à época pré-histórica.

Com efeito, Paulo impreca os não-crentes, os ímpios, que supondo serem sábios, com cultura, enveredaram por descaminhos de perversão, sobretudo sexual, contra a própria natureza da intimidade humana, na relação homem-mulher. Sob a luz que ilumina o modo como o homem se perverteu e desviou da correcta adoração a Deus, submetem-se também os desvios dos instintos correctos com os quais o ser humano foi dotado. Alguém escreveu, em comentário de uma Bíblia de Estudo, que “o efeito da perversão da adoração instintiva a Deus é a perversão de outros instintos, que se afastam de suas funções apropriadas. As Escrituras encaram todos os actos homossexuais sob essa luz. A consequência é a degradação do corpo.”

A desintegração daquilo que é verdadeiramente “natural”, parecendo ser um produto da cultura e das sociedades urbanas, altamente desinibidas na contemporaneidade, é, portanto, fruto do desvio do homem em relação a Deus.

© João Tomaz Parreira

O reino (afinal) sempre parece que é deste mundo

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Fico atónito com o expediente de muitos direitistas que tentam a todo o custo relativizar os perigos da personagem política Donald Trump e as consequências destes primeiros e tempestuosos dias de governação na Casa Branca.

Primeiro começaram por defendê-lo da forma mais patética, isto é, dizendo que a maior parte dos disparates saídos daquela boca para fora eram mera estratégia eleitoral.

Depois veio o discurso de posse, ao que consta escrito pelo tenebroso senhor Bannon, que quebrou com a regra de sempre, de respeitar os anteriores presidentes da nação, e que não passou de um conjunto de slogans eleitorais, como se ainda estivesse em campanha.

O discurso da direita passou a defender então que não se poderia criticar um presidente eleito democraticamente em eleições livres. Era o que mais faltava. Um político eleito nas urnas não equivale necessariamente a um governante democrático. Exemplos? Duterte, nas Filipinas ou Mugabe, no Zimbabwe, penso que serão suficientes.

Finalmente chegou-se à governação, transformada em reality show, com um acto litúrgico encenado para cada lei assinada, com declarações desencontradas entre ele e os membros da sua administração, com a defesa despudorada da tortura, com as ameaças aos funcionários públicos que dele discordam (e o expressaram ao abrigo da lei americana), com as ameaças à China, as interferências na União Europeia, os ataques ao poder judicial e muito, muito mais.

Em particular fico pasmado com o apoio acéfalo de tantos líderes religiosos americanos, que estão a dar tiros nos pés todos os dias com esta atitude, vendendo-se por um prato de lentilhas. Vão torcer a orelha no futuro.

Um dos últimos disparates foi, há poucos dias, a intenção expressa pelo próprio Trump de alterar uma lei antiga (e republicana) que impede as igrejas e os líderes religiosos de apoiar candidatos em eleições. Vai ser lindo, vai. Em particular, o evangelicalismo americano  pode implodir com esta irresponsabilidade.

Não que me incomode, apenas me incomoda que o nome de Jesus Cristo – com cuja figura Donald Trump não tem o mínimo de identificação, como se vê – ande prestes a ser arrastado pela lama, devido à vaidade de uns e à sede de poder de outros.

JB-L

Sei lá!

Segundo Umberto Eco, as redes sociais dão voz a legiões de idiotas

Ando a chegar à conclusão nua e crua de que o Facebook não é um espaço especialmente destinado a pessoas minimamente inteligentes. Eu explico. A única maneira de uma pessoa inteligente subsistir por lá é ser muda. Isto é, ser capaz de resistir à tentação de responder à cretinice de alguns (infelizmente muitos!) posts publicados na rede. Falo de futebol de política, de sociedade, de religião, de tudo. É demais.

Uma boa maneira de compreendermos como é que os americanos elegeram um chimpanzé para a Sala Oval é ler o que uns quantos escrevem nas redes sociais (e já agora, as caixas de comentários nos jornais generalistas). A estupidez é tanta que dói.
Mas o Face é terreno fértil para os idiotas, que não sabem trocar argumentos racionais, sustentar uma discussão no bom sentido da palavra (daquele tipo de discussão de onde sai a luz), que não são capazes de defender os seus pontos de vista sem atacar o outro, que adoram puxar de chavões sem pensar dois segundos no que escrevem, e que proclamam pontos de vista radicais sem os saberem defender numa base séria, apenas porque sim…
É claro que sei dar o desconto aos brincalhões, aos provocadores e aos que usam esta rede social só para se rirem um bocado. Isso é saudável, mas não é desses que falo, é dos que se levam a sério. Esses que, se mandassem, seriam uma espécie de hitlerzinhos de pacotilha.
Segundo Humberto Eco, “as redes sociais dão voz a legiões de idiotas”. Ele cita um estudo que mostra que as pessoas inteligentes se tornam mais inteligentes e as pessoas de baixa inteligência se tornam mais tontas na rede.
Depois deste longo desabafo (será do estado do tempo?) dirão alguns: então porque não te vais embora do Face para fora? Francamente não sei. Talvez porque, no fundo, precise de tomar o pulso às pessoas de carne e osso, mesmo aos idiotas, que são como os pobres: sempre os teremos connosco…
Porque não bazar? Sei lá… Estou a tentar descobrir o segredo.

Já agora…

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E depois dos presentes, das refeições e dos cânticos de Natal, o que fica? Voltaremos à vidinha do costume, aquela pasmaceira letárgica a que chamamos existência, ou vamos fazer alguma coisa para dar significado aos dias? Sei lá? Fazer algum tipo de voluntariado útil, estudar coisas que interessem, arriscar, dar, criar.

E já agora, tentar conhecer um bocadinho o tal Menino cujo nascimento acabámos de celebrar com tanto entusiasmo, presentes, refeições e cânticos. Já agora…