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Valores

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Vivemos num mundo extremamente confuso que parece cada vez mais um sítio mal frequentado, em todas as esferas da actividade humana.

No futebol, por exemplo, os adeptos mais ferrenhos não se incomodam se os dirigentes do seu clube são mafiosos, vigaristas, boçais ou gostam de fazer figuras de palhaço. Desde que a equipa ganhe, o resto não interessa. Os treinadores também podem ser malcriados, ordinários e violentos para com os adversários ou parecerem atrasados mentais a falar. Nada disso interessa desde que a equipa ganhe títulos.

Na política vale tudo. A corrupção e todos os crimes de carácter económico estão cada vez mais presentes, em consonância com alguns grandes empresários, cujo principal objectivo parece ser tentar por todos os meios mamar nas tetas do Estado como se não houvesse amanhã. Bem dizia Marx que “a desvalorização do mundo humano aumenta em proporção directa com a valorização do mundo das coisas.”

O sector financeiro é o que se vê. Os banqueiros são capazes de sacar o que puderem a qualquer pequeno cliente, lançando mão de todas as artimanhas possíveis, mas com a outra mão dar milhões aos amigos. São capazes de sugar recursos públicos ao país – suportados por todos os contribuintes – para distribuir dividendos fartos aos seus accionistas.

As grandes empresas contratam especialistas em matéria de fuga ao fisco, e utilizam off-shores e paraísos fiscais de modo a subtrair ao país os recursos necessários ao seu desenvolvimento, em nome de lucros cada vez mais vultuosos.

Os especuladores dos mercados financeiros apenam visam o lucro, sem que o mesmo corresponda a qualquer tipo de criação de riqueza, desenvolvimento ou sustentabilidade social. Há uns anos chegaram mesmo ao ponto de especular com os cereais, tendo provocado cenários graves de fome e subnutrição em diversos países sub-desenvolvidos e sem qualquer sustentação moral nem problemas de consciência. Foi Antoine de Saint-Exupéry que escreveu: “Apesar da vida humana não ter preço, agimos sempre como se certas coisas superassem o valor da vida humana.”

O comportamento de parte do sistema judicial, da advocacia à magistratura, passando pelo Ministério Público também deixa muito a desejar em matéria de boas práticas e seriedade.

O que está a dar, na vida pública, é ser populista, manipulador e demagogo, desde que se saiba explorar os medos profundos e ressentimentos dos concidadãos.

Até o sector religioso se deixou capturar pelo veneno dos tempos, com escândalos sucessivos. Buda pensava que os seres humanos demasiado apegados às coisas materiais eram obrigados a reencarnar incessantemente, até compreenderem que ser é mais importante do que ter. Não acredito nessa estrada, mas concordo com o destino. Há uma séria crise do Ser no homem contemporâneo.

 

Fonte: José Brissos-Lino, O Setubalense, 11/05/18.

 

 

 

 

 

 

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“Tem sido a «luta» das  mulheres  a  contribuir para a  mudança  também  das vivências religiosas” 

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A Amadora recebeu esta 4ª feira7 de marçona Biblioteca Fernando Piteira Santos, conferência “Religiões e IdentidadesContributo ou obstáculo para a Igualdade de Género?”  

“A Igualdade de Género não é a dissolução das características do género”, defendeu o pastor protestante José Brissos-Lino, diretor do mestrado em Ciência das Religiões da Universidade Lusófona. Brissos-Lino reconhece que o “cristianismo sempre teve dificuldade em lidar com a sexualidade e, portanto, com a mulher”, mas que “a teologia cristã não permite a discriminação de género”. Em S. Paulo “não há macho nem fêmea” para Deus e nos primeiros tempos havia mulheres a liderar comunidades cristãs. 

Igualdade de Género é um dado “nos evangelhos e na vida de Jesus”, acrescentou o padre jesuíta José Maria Brito. Sobre o acesso da mulher ao sacerdócio na Igreja católicaconsiderou que “o debate tem sido feito mais pela dimensão do poder“, quando o sacerdócio é, “a exemplo de Jesus”, um serviço de responsabilidade transversal.  

O padre jesuíta e diretor do site Ponto SJ acredita que pode não estar longe a existência de diaconisas na Igreja, mas o eventual acesso da mulher ao sacerdócio, “a acontecernão será na nossa geração“. 

A perspetiva dos textos islâmicos sobre a mulher foi apresentada por Filomena Barros. A professora de história do Islão e da Linha de Investigação em Género e Religião da Lusófona, lembra que os textos sagrados “devem ser colocados no contexto de quem os escreveu” e há que diferenciar as leituras sagradas, “necessariamente sujeitas à exegese”, das construções social, cultural e politicamente desenvolvidas a partir delas. 

O que se verifica é muito diferente deste exercício exegético, embora “a realidade islâmica seja muito diferenciada”. Há países de maioria islâmica que têm ou tiveram mulheres como chefes de estado. No contexto do tempo, e em relação ao judaísmo, exemplifica a historiadora, o “Alcorão é um passo em frente na dignificaçao da mulher, tem uma Sura dedicada às mulheres, outra a Maria, e usa nalgumas partes o masculino e o feminino – «os» muçulmanos e «as» muçulmanas”. 

As mulheres tinham um papel relevante no início do Islão, mas mantiveram um obstáculo: “o conceito de pureza e impureza“, agregado ao sangue. A mulher carrega ainda este estigma e a religião mantém os rituais de purificação como elemento diferenciador e/ou segregador. 

Num testemunho pessoal, Saroj Parshotam admitiu que a mulher ainda transporta estigmas também entre hindus e recordou que, quando nasceu, houve gente na família que lamentou ser uma mulher. Esta situação é mais cultural e de organização social que religiosa, apesar de alguns textos que constituem as narrativas sagradas do sanatma dharma aparentem substimar a mulher. “No tempo dos Vedas havia igualdade entre homens e mulheres”, diz Saroj. Embora possa cultural e socialmente não parecer, “os hindus respeitam muito o papel da mulher na comunidade”, destacando-se sobretudo “o papel da mãe, a sabedoria da mãe que domina a família hindu e é respeitada acima de todos”. Há na tradição mitológica e filosófica hindu uma dimensão feminina sem a qual não se compreende a própria vida. É a shakti, a “força” ou “energia” que dá operacionalidade à existência e ganhou forma de divindade feminina. 

O debate sobre Igualdade de Género “não foi trazido à praça pública pelas religiões, mas como oposição ao pensamento religioso”, acrescentou Filomena Barros. José Brissos-Lino admitiu que o “cristianismo tem sido um obstáculo, mas a fé cristã é um contributo para a Igualdade de Género”.

O padre José Maria Brito defendeu a perspetiva católica, segundo a qual o debate é difícil quando o conceito de Igualdade deriva para a Ideologia da indiferenciação sexual, porque homem e mulher, “na perspetiva bíblica, são criaturas de Deus” em complementaridade. “O que sou não é tudo inventado por mim”, concluiu. 

 depois do debate, o moderador Joaquim Franco, investigador em Ciência das Religiões e coordenador do Observatório para a Liberdade Religiosaverificou que, “em contexto religiosonomeadamente o católicoconfunde-se por vezes Igualdade de Género com Ideologia de Género e, rejeitando esta, que é ainda um campo indefinido e culturalmente complexo quem persista em velhos argumentos para dificultar o caminho da igualdade, que passa pelo direito à igualdade nos acessos“. 

Embora sejam um desafio às religiões, “que devem repensar e reconsiderar o papel da mulher para garantir a dignidade em igualdade“, defendeu Joaquim Franco, “os grandes problemas no campo da Igualdade de Género não se localizam hoje nas religiões, que podem até ser aliadas neste processo“, sublinhou a historiadora Filomena Barros, lembrando, a propósito, que “a crescente violência doméstica não é um problema religioso” e pode até ser combatida com a ajuda das religiões. 

Num comentário final ao debate, a Conselheira para a Igualdade na Amadora defendeu que a raiz do problema não está nas religiões, mas na forma como homens e mulheres se organizam e relacionam para o exercício do poder“. Lurdes Ferreira recordou ainda assim que “tem sido a «luta» das mulheres a contribuir para a mudança também nas vivências religiosas“. 

Este foi o segundo de um ciclo de debates a realizar mensalmente na Amadora, no âmbito d’O Mundo na Amadora – Religiões e Culturas em Debate, um projeto de parceria entre a Câmara Municipal da Amadora e a Área de Ciência das Religiões da Universidade Lusófona. 

próximo debate realiza-se a 4 de abril, sob o tema Religião e Políticauma relação (im)possível?, com a participação de políticos(as) e religiosos(as). 

JF

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Medo de quê?

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Uma obra que, não sendo exaustiva, desmonta o machismo dominante nos meios eclesiásticos.  Escrito por um consultor pontifício para o diálogo ecuménico, fundador e prior duma comunidade monástica (e não por uma mulher!) põe a nu o pecado milenar da igreja cristã contra as mulheres (ed. Guerra e Paz, 2017).

O Natal de Manuel Bandeira

 

Muitos escritores se inspiraram no tema do Natal para escrever contos de profunda reflexão sobre a vida e a humanidade, como é o caso de Dostoiévski, Charkes Dickens e Tolstoi. Nessas histórias, a intensidade da tristeza e o senso de abandono são por vezes quase insuportáveis – crianças e mulheres enfrentando a neve, a escuridão e a morte, velhos campesinos solitários em sua pureza de fé e solidariedade contrastando com a dureza de corações indiferentes.

A literatura brasileira também tem suas amostras da força do Natal como temática e como marco da nossa latinidade católica. É o caso de Coelho Neto, Machado de Assis, Murilo Mendes, Jorge de Lima, Viriato Corrêa, Raul Pompeia e Mario de Andrade. Neste pequeno espaço, quero me dedicar aos poemas de Natal de Manuel Bandeira.

Ao todo, Bandeira escreveu dez poemas de Natal, seis de sua autoria e quatro em tradução de autores europeus. Ele mesmo faz uma revisão de suas obras natalinas e da importância que ocupam em sua carreira literária. Eles nasceram em circunstâncias bem demarcadas ao longo de sua vida, a juventude na Suíça, o Rio de Janeiro de 1939, a II Guerra Mundial, alguns por encomenda do jornal O Globo ou de Villa-Lobos.

Surpreende, nos poemas natalinos de Bandeira, a abundância de passagens bíblicas transcritas, adaptadas, aludidas. Diferente de outros autores que usam o Natal apenas como referência temporal, uma data no calendário, para escrever sobre algum incidente cotidiano, Bandeira mergulha nos detalhes e nos diálogos que as Escrituras oferecem. É o caso do poema “Anunciação”, em que se lê: “Maria, não temas: / Deus escolheu-te, a mais pura / Entre todas as mulheres, / Para um filho conceberes / No teu ventre e, dado à luz, / O chamarás de Jesus, / O santo Deus fá-lo-á grande, / Dar-lhe-á o trono de Davi, / Seu reino não terá fim”.

O poema “Canto de Natal”, que veio a ser musicado por Villa-Lobos, traz a cena do alegre nascimento do “Jesus menino”. O poema faz lembrar, em parte, as singelas canções de Natal de Martinho Lutero. Bandeira escreve: “Nasceu sobre as palhas / O nosso menino”. Lutero teria escrito: “Num berço de palha dormia Jesus, / O meio menino que ali veio à luz”.

O poema mais profundo e quem sabe o mais complexo leva o título de “Presepe” e descreve o mistério da encarnação de Jesus. No poema, Bandeira liga o nascimento de Jesus ao seu sofrimento na cruz, “O fel e o vinagre, / Escárnios, açoites, / O lenho nos ombros, / A lança na ilharga, / A morte na cruz”. Um pouco adiante, o poeta diz: “Mais do que isso / O amedrontaria / A dor de ser homem”.

Em sua perplexidade e olhando para o ser humano, “[e]sse bicho estranho / que tortura os que ama”, “essa absurda imagem de Deus”, o poeta conclui que o nascimento de Cristo foi um grande milagre, mas “um milagre inútil”. Sim, o poeta termina em tom desesperado de uma esperança triste. Ele mesmo reconhece que se trata de um poema amargo com um forte teor político relacionado aos crimes de Stalin. Apesar do tom desencantado, a reflexão é válida e atual. O Natal nos faz pensar no destino da humanidade.

Fonte: Blog de Gladir Cabral.

Os poemas de Manuel Bandeira podem ser encontrados na coletânea O Natal em Manuel Bandeira e Cândido Portinari.