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PSD: quem quer casar com a carochinha?

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O PSD anda à procura de um novo líder desde ontem, depois do descalabro eleitoral autárquico.

A fazer fé na imprensa, há pelo menos umas quatro ou cinco linhas ideológicas em confronto.

Rui Rio, já se sabe, que aposta em trazer o partido mais para o centro político e tem boa relação com António Costa, como é sabido. Parece ser um homem sério, que aposta no rigor e não vende as suas convicções para ser popular. Deu provas na câmara do Porto, embora sempre com uma relação tensa com alguns sectores da sociedade portuense, em particular nas áreas culturais e desportivas.

Depois temos Luís Montenegro, indefectível de Passos Coelho, uma espécie de Passos número dois, tal como ele defensor das políticas neoliberais, que não representa mais do que a estratégia do empobrecimento e do corte dos direitos sociais, salários e pensões, que o país tão bem conheceu.

Na fila vem ainda Paulo Rangel que, apesar da vantagem de ter uma profissão – ao contrário de PPC – e não depender da política, se tem comportado como um demagogo da pior espécie. Vejam-se as suas intervenções na universidade de Verão da JSD nos últimos anos ou no programa televisivo onde faz comentário político. A sua praia é o populismo (funciona bem em campanha eleitoral) e a demagogia. Talvez seja mesmo o mais perigoso de todos.

Mas se o PSD optar por um populista que acrescente ainda uma vertente xenófoba, então tem à mão o “disponível” André Ventura. Uma desgraça chegada à política pela via dos programas televisivos manhosos de comentário desportivo.

Ao longe acena Santana Lopes, que tem a vantagem de talvez conseguir unir várias tendências e de fazer boas campanhas eleitorais, mas a desvantagem de saber a passado e de em tempos ter saído do governo pela porta baixa.

Mas ainda há tempo para Marques Mendes e quem sabe, mais alguém surgir no horizonte, montado num cavalo branco. Ou que precise de fazer a rodagem da sua viatura…

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O estado do futebol

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O FCP esteve impecável. O SCP perdeu mas com dignidade. O SLB deu barraca. Mas foi bom, que é para os dirigentes do clube tetracampeão perceberem que os sucessos empresariais levados ao extremo podem hipotecar os sucessos desportivos.

E sem sucessos desportivos também não há sucessos empresariais.

Está visto que esta época começou estribada num equívoco. Não se pode desfazer uma defesa sem alternativas válidas. Mas atenção, a equipa ainda está a tempo de dar a volta.
Esta época quem está mais consistente, regular e a dar cartas é o FCP. Dá gosto ver a equipa jogar. Ao contrário dos jogos fora do campo, que só enojam qualquer pessoa bem formada e em perfeito juízo.

Não sou adepto de nenhum dos grandes (mas tenho simpatia pelo Benfica, o maior clube português e com mais troféus no futebol), e também não sofro de clubite. Sou vitoriano. De Setúbal.

Gosto do jogo nas quatro linhas, do futebol, mas tenho nojo do ambiente que rodeia esse grande desporto de massas.

Tenho nojo do comportamento de boa parte dos dirigentes e seus lacaios, assim como de boa parte da imprensa desportiva, que mais não faz do que atirar gasolina para o fogo.

Será que não poderíamos apenas apreciar o desporto em si e substituir aqueles programas de televisão vergonhosos a que temos direito, nos canais do cabo, por outros com especialistas no jogo, que nos ajudem a entender e apreciar este desporto de equipa?

Não poderíamos também deixar-nos de frustrações, complexos mal resolvidos e de puxar pelos nossos instintos mais primários, como se estivéssemos envolvidos em lutas tribais, como diz o Desmond Morris? Afinal somos campeões europeus.

Boas como uma dor de dentes

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Os comentadores de direita não têm espaço mental para elogiar as vitórias da política económica e financeira do governo. Por exemplo, a propósito da súbita subida do rating da república e consequente retirada do “lixo”, preferem diluir os méritos, ou dizer que vem tarde e que se a direita estivesse no poder já teria vindo. Isto, apesar de todos os elogios que vêm da Europa.

Como se não bastasse a hipocrisia, encontraram agora um novo mote que é dizer: “Então falavam mal das agências de rating, chamavam-lhes abutres, e agora já são boas?” Confesso que não entendo qual é a questão.

Meus amigos, as agências de rating continuam a ser o que sempre foram: más para todos os países com economias mais frágeis. E não só. Ou já se esqueceram das notações seguríssimas que deram a bancos americanos pouco antes de falirem e precipitarem a crise com que todos levámos pela proa? A única coisa que fazem é apertar o garrote aos países em dificuldades.

A bem dizer isto é tal e qual como a dor de dentes. É péssima, mas quando se vai embora é um alívio. E então? Quando passa a dor devíamos fazer o quê? Chorar?…

Tenham maneiras.

 

Não é hora de ficar calado

Isto é o que membros da Administração Trump e alguns líderes cristãos americanos estão a defender. Seis ou sete neonazis a espancar e tentar matar um jovem negro, que consegue fugir, ensanguentado. “Morre, negro!”, é o que se ouve (ver vídeo).

Violência gera violência.

Os Estados Unidos tiveram uma única guerra civil (1861-1865) por causa do racismo, mais tarde a luta pelos direitos civis, nos anos sessenta, que foi regada com o sangue de mártires como o Pr. Luther King, conseguiram eleger um presidente afro-americano, pela primeira vez (2009-2017), e agora parece que alguém está apostado em fazer a História voltar para trás, em especial desde que Trump levou para a Casa Branca o supremacista branco Steve Bannon.

Compete à Igreja elevar uma voz profética, à semelhança dos profetas do Antigo Testamento e em obediência ao Evangelho. Tudo quanto for menos do que isso é vergonhoso e lamentável.

 

Franklin Graham prestou um mau serviço à América

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Lamento, mas não posso continuar calado.

Quando os nacionalistas brancos marcharam nas ruas de Charlottesville a destilar ódio, agredir e matar, Graham resolveu culpar o governador e quem decidiu a remoção de um monumento racista da cidade, com o argumento de que “deveriam ter sabido” que a decisão não seria popular entre a extrema-direita.

O filho de Billy Graham aponta o dedo constantemente aos autores de ataques terroristas quando são muçulmanos, acusando todo um sistema de crença islâmico e afirmando que “estamos em guerra com o Islão”. Mas desta vez tentou a habilidade de condenar toda a gente menos os arruaceiros e assassinos supremacistas brancos, ou a ideologia nacionalista anti-cristã que professam.

E acrescentou que fazer a ligação natural entre a ideologia de Trump e a dos terroristas de Charlottesville (não lhes chamou assim, como é evidente!) é simplesmente uma tentativa de “Satanás dividir os cristãos”, numa altura em que Trump está a perder grande parte do apoio das igrejas.

Mas todos sabemos que os supremacistas brancos integram a base de apoio político do presidente. Daí ele ter resistido a condená-los, durante dois longos dias, só o fazendo depois de ter sido alvo de duras críticas de toda a classe política, incluindo do seu partido e de ter visto vários colaboradores seus demitirem-se em protesto, na Casa Branca.

A ideologia essencial destes grupos (Ku Klux Klan, alt-right, neonazis, movimento nacional socialista ou Partido Americano da Liberdade) é a de que a raça branca é superior a todas as outras e, por isso, deve dominar a sociedade. O KKK, por exemplo, nasceu em meados do século XIX num Sul que não aceitava a derrota na Guerra Civil americana e o fim da escravatura.

Ora, tal filosofia é profundamente anti-cristã e anti-bíblica, como é bom de ver, e chegou a dividir a poderosa Convenção Baptista do Sul há uns meses.

Os criminosos de Charlottesville vieram descrever publicamente Heather Heyer, a mulher brutalmente assassinada por um jovem nazi, admirador de Hitler, como “uma vadia gorda de 32 anos e sem filhos”. Segundo o DN, a declaração em questão dizia que “muitos estão felizes por Heather ter morrido porque ela era ‘a definição da inutilidade’ e um fardo para a sociedade por não ter filhos – mulheres sem filhos são buracos negros que sugam dinheiro e energia”.

É tristemente curioso ver como Franklin Graham, enquanto líder espiritual americano de relevo, não é capaz de ter uma única palavra de condenação para este tipo de comportamentos, preferindo apoiar cegamente um presidente sem valores nem ética, e cobrindo assim de vergonha todo o povo cristão americano.

E a mim também.

 

O meu amigo Luís Gonzaga lembrou oportunamente que em 1943, o departamento de guerra dos Estados Unidos lançou este vídeo para dizer aos americanos que rejeitassem a retórica fascista. 74 anos depois, este vídeo é profundamente actual. Lembremo-nos todos de que, como escreveu Edmund Burke: “tudo o que é necessário para o triunfo do mal é que os homens bons não façam nada”.