Arquivo da categoria: Reflexões

Não se deve brincar com o suicídio

suicidio001

 

Não se pode nem se deve brincar com o suicídio, principalmente por causa da vida e da morte.

Albert Camus, disse-o no “Mito de Sísifo”: é um problema filosófico verdadeiramente sério.

Mesmo quando visto pelo lado da crítica social na poesia, como no poema breve de Gregory Corso (“Greenwich Village Suicide”), quando a rapariga com a cabeça cheia de cultura, de Bartok a Van Gogh, sem saber o que fazer da vida(?) se atira da janela.

Ou quando alguém carente de apoio psicológico, escreve também em verso “Morrer/ É uma arte, como outra coisa qualquer./ E eu executo-a excepcionalmente bem” (Sylvia Plath, que acabou por se suicidar aos 30 anos).

Poderíamos ir de Mário de Sá Carneiro até Álvaro de Campos – que não se suicidou – que perguntou “Se te queres matar, porque não te queres matar?”, expedindo o acto potencial para o campo do ousar ou não ousar matar-se.

Agora brincar com o “boato” do suicídio, do suicídio dos outros como arma de arremesso político ( que lugar comum, que “deja vu” do nosso jargão político este), como fez o senhor Passos Coelho, pretenso líder da Oposição ao nível de um qualquer jota, é que é inconcebível. Diz-se que foi um “tiro no pé”, foi mais: foi um tiro no próprio rosto.

Ficou-lhe mal, porque foi hipócrita, pedir desculpa, ainda mais por atirar as culpas para cima da “fonte”, era caso, isso sim, para pedir a demissão. © JTP

Se eu me chamasse Constança

Resultado de imagem para constança urbano de sousa

 

Se eu me chamasse Constança e a oposição andasse a sugerir a minha demissão de ministra, devido à catástrofe de Pedrógão Grande, se enviasse o grilo falante do PSD (mais conhecido por Marques Mendes) pedir directamente que me fosse embora, eu diria que sim.

Mas primeiro teriam que começar por me provar que, em 26/11/2015, na data de posse do actual governo:

O governo Passos/Portas tinha entregue o SIRESP a funcionar perfeitamente;

O governo Passos/Portas tinha entregue uma floresta ordenada;

O governo Passos/Portas tinha entregue uma floresta com predominância de espécies autóctones e sem sobrecarga de plantação de eucaliptos;

O governo Passos/Portas tinha entregue um interior ocupado e não desertificado;

O governo Passos/Portas tinha entregue um país em que os proprietários florestais privados mantinham a sua floresta sempre limpa;  

O governo Passos/Portas tinha entregue um país em que os proprietários das casas e empresas privadas mantinham as suas propriedades sempre limpas de mato à volta, no perímetro mínimo de 50 metros, de acordo com a lei;

O governo Passos/Portas tinha entregue um país em que todas as estradas mantinham as bermas limpas e sem árvores no espaço previsto na lei.

Se assim fosse, demitia-me. Mas como não é, o que podemos concluir é da responsabilidade de todos os governos nos últimos 40 anos. Sem excepções. A verdade é que, apesar de todas as conquistas sociais – e foram muitas e significativas – o país não foi capaz de travar a desertificação do interior e o desequilíbrio territorial, com todas as consequências que tal facto acarreta.

Pedir a demissão dum governante, nesta situação e nestas condições, é pura demagogia.

Mas para já, Passos Coelho ultrapassou todos os limites ao afirmar ter havido suicídios na sequência da catástrofe, que simplesmente não existiram. Terá sido induzido em erro, mas um ex-primeiro-ministro têm a obrigação de confirmar as fontes antes de produzir afirmações tão graves. Não vale tudo. Estamos à espera de ouvir o seu pedido de desculpas.

Como disse João Quadros “O Passos que diz que pessoas se suicidaram por falta de apoio psicológico, é o mesmo Passos que tirou os apoios as crianças do ensino especial”. E eu acrescento, e foi o mesmo Passos que promoveu a pobreza dos socialmente mais vulneráveis quando governava. Quantos se terão então suicidado?

Uma tautologia

3

Esta fotografia é como uma tautologia, começa e acaba em si própria, como os “poemas que são e se significam a si próprios”, no dizer de Harold Bloom.

A sublimação com que se trata esta fotografia há um século, é uma espécie de arkesis. A nossa palavra para o termo grego é ascese. Ascetismo é  o que nos sugere esta fotografia, obviamente.
A mesma intui no nosso espírito uma espécie da já referida arkesis, quando a olhamos atentamente.

Os rostos têm uma relação com a religião, a responsabilidade de serem protagonistas de uma “epifania” preparada, têm a motivação da tristeza de uma religião, nas crianças transparece o começo de uma vida ascética a que as obrigaram.
A fotografia tem uma força própria, a da tragédia. Não mostra nenhuma visão romântica.

Mas exceptua-se um rosto, que denota uma beleza infantil em gestação, uma pose de charme que, por certo, a Jacinta nos seus 7 anos desconheceria. No entanto, faz-se fotografar com a mão inocentemente na cintura. Uma atitude de feminilidade.
Ao fim destes cem anos, penso que  alguém deveria ser responsabilizado por ter cerceado a beleza na adolescência de Jacinta.

© João Tomaz Parreira

O 25 de Abril ainda não chegou à área religiosa em Portugal

Resultado de imagem para minorias religiosas

Mais de quarenta anos depois, o 25 de Abril ainda não chegou à área religiosa em Portugal.

Tal como antes, o único representante religioso convidado para as comemorações da revolução de 1974 continua a ser o cardeal patriarca de Lisboa e presidente da Conferência Episcopal. Todas as outras confissões religiosas são olímpica e reiteradamente ignoradas pelo protocolo de Estado.

Onde está a igualdade dos cidadãos perante a lei?

Onde está o respeito pela Constituição, que proíbe a discriminação dos cidadãos em função da sua filiação religiosa, entre outras?

Onde está o estado laico e religiosamente equidistante?

Onde está o respeito e consideração pelas minorias religiosas?

Porque razão se dá a palavra ao PAN, Partido Os Verdes, Bloco de Esquerda e PCP na sessão solene – visto que são minorias políticas – e não apenas aos dois maiores partidos? Seria ridículo, não? Então porque se faz coisa semelhante com as minorias religiosas?Onde está a congruência?

E não me venham dizer que é difícil operacionalizar a representação de todos, porque isso seria outra tirada ridícula. Se o estado laico se quiser dar ao respeito e cumprir a Constituição, então convide apenas e só o presidente da Comissão de Liberdade Religiosa em representação de todas as religiões presentes no país.

Não são os deputados da república também eleitos pelos votos dos fiéis das minorias religiosas? Não são eles também seus representantes? Porquê desprezá-los e discriminá-los assim?

E porque razão os presidentes da república sempre pactuaram com a situação? Não são eles presidentes de TODOS os portugueses? Pelos vistos não.

O que parece é que, na cabeça dos políticos e dos titulares dos poderes públicos, Portugal ainda é um “país católico”, tal e qual como no tempo do Estado Novo.

Lamentável.

 

José Brissos-Lino 

 

 

Dos touros de Lascaux ao cavalo de Guernica (inédito de J.T.Parreira)

Dos touros rupestres de Lascaux, com a sua semiologia, ao cavalo germinal e ao touro tutelar da Guernica, de Picasso, a distância é longa, de facto, e seria de anos-luz se estivéssemos a tratar meios comunicacionais entre galáxias diferentes. A verdade é que essa comunicação apresenta-se com sinais da mesma entidade, o ser humano, que comunica entre si num mesmo lugar que é a Terra.

Resultado de imagem para touros de Lascaux

Com efeito, estamos diante dos sinais do homem, desde as grutas de Lascaux, onde a riqueza dos signos convoca o estudo dos mesmos pela semiótica, até ao Centro de Arte Reina Sofia, onde a Guernica continua a fazer recuperar uma história trágica da Espanha e dos seus povos, história contemporânea e viva ainda em inúmeras memórias septuagenárias.

Resultado de imagem para cavalo0 de guernica

Os contemporâneos de Lascaux, como quaisquer outros habitantes de cavernas do Paleolítico, conheciam o que hoje modernamente se pretende ignorar: a distinção dos géneros, do masculino e do feminino, eles não trocavam nem promiscuíam a beleza da humanidade composta de mulher e homem. O seu conceito de família era rigoroso, os meios usados para a procriação estavam bem definidos e bem representados, com a precisão simbólica que a capacidade artística para o desenho na pedra permitia. O símbolo fálico do homem e os símbolos ovais para representar a mulher não se misturavam nas paredes das cavernas. Seria uma arte da animalidade, como se lhe chamou, mas a sua leitura semiológica – a interpretação dos sinais – nesses desenhos eram o símbolo do homem e da mulher, do pai e da mãe, eram a representação do núcleo fundamental que é a família.

Resultado de imagem para touros de Lascaux

Os impedimentos para a depravação entre homens e mulheres estavam até graficamente delimitados, a viagem intergaláctica de Sodoma para Roma, através de muitos séculos de maus costumes, não está documentada graficamente como um historial de sentimentos reprováveis e sórdidos. O que a chamada arte parietal, as gravuras nas paredes das cavernas, distinguia, o macho e a fêmea nos seus devidos lugares, milénios depois viria a ser normativo na Bíblia Sagrada. Designadamente nas Cartas de Paulo – a Epístola aos Romanos – onde as paixões infames, a mudança do modo natural das relações íntimas, as inflamações da sensualidade orientadas para o mesmo sexo, são identificadas pelo apóstolo já numa cultura a meio-caminho entre o clássico e a modernidade, comparativamente à época pré-histórica.

Com efeito, Paulo impreca os não-crentes, os ímpios, que supondo serem sábios, com cultura, enveredaram por descaminhos de perversão, sobretudo sexual, contra a própria natureza da intimidade humana, na relação homem-mulher. Sob a luz que ilumina o modo como o homem se perverteu e desviou da correcta adoração a Deus, submetem-se também os desvios dos instintos correctos com os quais o ser humano foi dotado. Alguém escreveu, em comentário de uma Bíblia de Estudo, que “o efeito da perversão da adoração instintiva a Deus é a perversão de outros instintos, que se afastam de suas funções apropriadas. As Escrituras encaram todos os actos homossexuais sob essa luz. A consequência é a degradação do corpo.”

A desintegração daquilo que é verdadeiramente “natural”, parecendo ser um produto da cultura e das sociedades urbanas, altamente desinibidas na contemporaneidade, é, portanto, fruto do desvio do homem em relação a Deus.

© João Tomaz Parreira