A criada de servir

Como se previa, Fernando Negrão ficou em terceiro lugar nas eleições para o executivo municipal de Lisboa, com a péssima percentagem de 15,74%, ele que já tinha sido a terceira ou quarta escolha do PSD.
Custa-me dizê-lo, mas a verdade é que deixou de ser vereador em Setúbal, onde tinha espaço para se afirmar como alternativa, de modo a poder vir a ser presidente da Câmara em próximas eleições, em nome de quê? Em nome da estratégia suicida de Marques Mendes.
A responsabilidade da queda do executivo municipal, da escolha de um mau candidato, e da derrota política verificada é-lhe inteiramente atribuível. Aliás, se o PSD voltar a ter de novo uma votação irrelevante, nas próximas autárquicas em Setúbal, a responsabilidade vai inteirinha para o líder do PSD, que veio roubar Negrão à cidade do Sado.
Na noite das eleições, Negrão fez o discurso esperado, da derrota, assumindo finalmente que se filiaria no PSD esta semana. Pena que andasse toda a campanha a proclamar que era independente. Não é uma atitude transparente. Até mesmo na conferência de imprensa, após a declaração de derrota reafirmou que não era militante.
Com esta derrota, a pior dos sociais-democratas em Lisboa, desde sempre, Fernando Negrão demonstra assim não possuir capital político próprio. Mantém uma imagem de seriedade, mas revelou estar muito mal preparado para a disputa de Lisboa, o que comprometeu a sua imagem de competência. Não conseguiu mobilizar nem os votos do eleitorado laranja nem as figuras gradas do partido que o deveriam apoiar, à excepção dos que fugiram ao sacrifício, como Manuela Ferreira Leite ou Fernando Seara, que ainda assim deram a cara ou o nome. Goste-se ou não, o Santana Lopes candidato a Lisboa teve na altura uma excelente votação, lutando contra tudo e contra todos, mas conseguiu mobilizar os lisboetas.
A carreira política de Negrão fica assim dependente de Marques Mendes. Sem capital político próprio, incapaz de ganhar uma eleição, e agora sujeito à disciplina partidária, terá que esperar que aconteça uma mudança de ciclo político, e confiar que o seu intérprete (se já não for o actual líder do partido, como é provável) lhe venha a confiar um lugar no governo ou outro do género. Não resisto a recordar o que escrevi nesta coluna há meses: «Não é a pessoa que está em causa, que muito respeito e prezo, mas o político. E o Dr. Negrão fica mal na fotografia por diversas razões. Primeiro porque abandona os compromissos assumidos com Setúbal, sem dar sequer uma explicação aos interessados, segundo porque se vai queimar desnecessariamente em Lisboa, e terceiro porque dá a ideia de que aceitou ser candidato com demasiada facilidade, para fazer o “frete” a Marques Mendes. Ora, para quem é independente…»
É pena que Setúbal continue a figurar como criada de servir a Lisboa. Merecíamos um pouco mais.

“Alegrai-vos porque já achei a minha ovelha perdida” (Lc 15:6); “Ovelhas perdidas foram o meu povo, esqueceram-se do lugar do seu repouso” (Jr 50:6).

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