Proibido estar doente

O escândalo recente que surgiu com a morte de um doente oncológico, professor de Filosofia que morreu sem ter direito a aposentação antecipada por incapacidade, provocou uma justa indignação no país.
Como resultado, o governo estranhou o caso e a Ordem dos Médicos veio, pressurosa, dizer que os médicos que fazem juntas deviam ter uma especialização.
Ora tanto o governo como a Ordem estiveram mal. Um, porque já deveria ter retirado consequências práticas de tal imoralidade, cuja responsabilidade pertence por inteiro à administração pública, por si tutelada, e a outra, por estar sempre na ânsia de desculpar as possíveis asneiras cometidas por médicos, não resiste a um certo cinismo.
Vamos ser claros. Este caso não revela falta de preparação técnica, revela apenas falta de bom senso e de respeito pelas pessoas.
Mas resta apurar se os médicos, afinal, não observaram as normas estabelecidas, ou se, ao fim das contas, a asneira não estará antes na lei ou nos regulamentos pelos quais a Caixa Geral de Aposentações se rege.
Consta que as juntas médicas não são necessariamente integradas por clínicos. Consta, também que, quando o são, por norma nem sequer são especializados em Medicina do Trabalho. Se assim é estamos perante mais um verdadeiro atentado aos trabalhadores.
O governo tomou a atitude política adequada, depois de ouvir as críticas da Ordem, isto é, pediu de imediato que esta apresentasse sugestões concretas para o funcionamento das juntas médicas.
De todo o modo, há qualquer coisa aqui profundamente errada. Isto é o tipo de situação que nunca pode acontecer, sob pena do descrédito total do sistema.
Ainda há pouco tempo tinha sido noticiado o caso de uma professora com leucemia, e agora um docente com cancro na laringe, a quem foi recusado o pedido de aposentação, apesar de se encontrarem numa fase avançada da doença e que acabaram por falecer no activo.
Este tipo de situações era tudo o que a ministra da Educação não precisava, de todo, nesta altura do campeonato.

“Alegrai-vos porque já achei a minha ovelha perdida” (Lc 15:6); “Ovelhas perdidas foram o meu povo, esqueceram-se do lugar do seu repouso” (Jr 50:6).

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