Parolos…

Nas últimas semanas a agenda mediática televisiva portuguesa pautou-se essencialmente por dois grandes temas: os desenvolvimentos do caso Maddie e o impasse do BCP. Foram estes temas que constituiram “cacha” jornalística e que abriram telejornais em horário nobre.
Bem sei que estamos na silly season, mas essa circunstância não justifica tudo. Vejamos.
Os Portugueses estão a ser bombardeados por directos de televisão (muitos deles falsos) que pouco ou nada acrescentam em matéria informativa, sobre o caso de uma criança estrangeira desaparecida há três meses. Pouco ou nada se diz sobre as crianças portuguesas que também desaparecem, ou sobre as inglesas (imensas) que entretanto se volatilizaram. Quanto ao BCP, nunca vi tanta atenção focada sobre a fortuna de uns quantos senhores que se resolveram desentender.
Ou seja, fez-se destes dois casos uma espécie de telenovela da vida real, e parece que estamos condenados a levar com ela todos os dias.
Começo a pensar seriamente em emigrar para um país que dê menos atenção aos ricos e aos estrangeiros, que seja menos parolo e respeite mais o direito à informação dos seus nacionais.

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Crente mas equivocado…

Um bêbado passava junto a um rio, quando viu um grupo de pessoas a orar e cantar. Resolveu perguntar o que se passava. “Estamos a fazer um baptismo. Você também deseja encontrar o Senhor?”
– Hic… Claro que sim.
Vestiram o homem com uma roupa branca e levaram-no para a fila. Na margem do rio um pastor mergulhava a cabeça dos fiéis na água, depois tirava e perguntava: “Irmão, viste Jesus?” “Vi, sim!” E todos o grupo respondia: “Aleluia!”
Quando chegou a vez do bêbado, o pastor meteu-lhe a cabeça na água, depois tirou e perguntou-lhe: “Irmão, viste Jesus?”, mas ele disse que não.
O pastor pôs-lhe de novo a cabeça dentro de água, deixando-a lá um tempo, e voltou a perguntar: “E agora, irmão, viste Jesus?” O bêbado já bastante ofegante, lá disse que não. O pastor, já nervoso, voltou a colocar a cabeça do homem debaixo de água e deixou-a lá uns minutos. Depois puxou e perguntou-lhe de novo: “E agora, irmão, já viste Jesus?” O bêbado, já cansado e atordoado por engolir muita água, disse: “Gaita, já disse que não! E vocês têm mesmo a certeza de que ele caiu aqui?”

O segredo da vassoura

Nunca entendi as razões por que as bruxas usavam vassouras como seu meio de transporte. Pelo que sei, as bruxas são entidades dotadas de grande poder, e não há razões para que saiam pelos céus exibindo a sua indigência, usando esse objeto sujo como se fosse um disco voador. Eu preferiria, para seguir as histórias das mil e uma noites, que elas viajassem num tapete persa mágico ou que cavalgassem um macio dragão soltando fogo pelas ventas.
Mas todas as coisas, mesmo as mais estranhas, têm as suas razões. Aprendi que é fato comprovado: as bruxas viajavam por terras maravilhosas e desconhecidas tendo uma vassoura no meio das pernas.
Aconteceu assim. Ia eu numa das minhas caminhadas matutinas pela fazenda Santa Elisa quando me vi diante de uma árvore cheia das flores brancas vulgarmente chamadas trombetas, pendentes dos galhos como pequenos lustres. Essa flor, eu a conheço desde a minha infância. Elas são grandes, lindas e perigosas. Sua brancura esconde poderes alucinógenos incomparáveis. Podem ser letais. Sei de um pesquisador sóbrio que só de manipular essa flor no laboratório ficou doidão.
Comentei esse fato com o cientista que me acompanhava, e ele me informou que, segundo informações da internet, há uma curiosa relação entre essa flor, nome científico “datura suaveolens”, e a lenda das bruxas que voam montadas em vassouras.
As bruxas foram uma invenção da Inquisição. Para justificar a sua queima nas fogueiras pela glória de Deus, diziam que eram adoradoras do demônio. E mais, que até transavam com o dito. Na verdade, as mulheres que a Inquisição amaldiçoou com o nome de bruxas eram sacerdotisas de uma antiqüíssima religião matriarcal anterior ao cristianismo baseada na Terra, no ciclo dos astros, no tempo e nas plantas e animais. Faziam, com freqüência, uso de plantas psicoativas em busca de sabedoria e de experiências com o sagrado.
Uma das poções alucinógenas usadas por elas tinha o nome de “ungüento voador”, feita com uma mistura de ervas, uma delas sendo a trombeta ou datura, que era também conhecida como “o suco da alegria”. A datura, misturada com várias outras ervas, era fervida em óleo, provavelmente num caldeirão, e depois bebida num ritual. Aquelas que a tomavam tinham alucinações, delírios e amnésia. A experiência devia ser boa, caso contrário teria sido abandonada.
Aconteceu, entretanto, que em decorrência dos seus perigos, as sacerdotisas trataram de inventar uma versão mais suave e segura. Ao invés de beber a poção, imaginaram esfregá-la em mucosas sensíveis. Assim, fazia-se a poção mágica mexendo a beberragem com uma vassourinha de pelos macios. A vassourinha de pelos macios era então usada para umedecer as mucosas das regiões entre as pernas, genitais. Assim, vinham-lhes deliciosas alucinações, e elas voavam, montadas na vassourinha…
Está assim explicada a lenda das bruxas montadas nas vassouras. Mas bruxa velha, com nariz adunco e comprido, chapéu preto e pontudo, isso é invenção de padre. Acho que as sacerdotisas podiam até ser muito bonitas…

Fonte: Rubem Alves, Folha de S.Paulo.

Desdém com cheiro a politiquice

O Pacheco Pereira não encontrou hoje nada mais simpático para assinalar o centenário do nascimento de Miguel Torga do que uma expressão do Eugénio de Andrade que, segundo ele, “quando alguém lhe falava do Torga dizia com imenso desdém, ‘ah! esse poeta parolo…”
Das duas uma, ou se trata de algum episódio de ciúmes e rivalidades entre aqueles dois grandes nomes da poesia portuguesa (e estando ambos já desaparecidos não se podem defender ou justificar), ou há aqui um certo desdém que cheira a baixa política, sabendo-se como Torga era chegado a muitos históricos do PS. Num caso ou noutro esta intervenção fica-lhe muito mal, Pacheco!… E olhe que eu não tenho partido.

“Alegrai-vos porque já achei a minha ovelha perdida” (Lc 15:6).

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