Balanço alfacinha

Foto: Ernesto Esteves

Na opinião de muitos comentadores, as recentes eleições para a Câmara Municipal de Lisboa transcendem o âmbito local para sugerirem um significado político nacional. A verdade é que os seus resultados estão a provocar uma espécie de terramoto político na direita, pelo que não devem ser interpretados apenas à escala da capital. Por isso nos debruçamos aqui sobre elas.
É possível, desde já, retirar algumas conclusões:

Abtenção de 62,61%
Foi enorme, histórica, e não pode deixar de ter uma leitura política. Apesar de muitos candidatos, até demais, as soluções e alternativas, afinal, eram poucas. O cerne da questão aqui não é as férias nem a praia, mas sim a desilusão crescente dos portugueses com os partidos e a política, ou melhor, com a falta de verdadeira política.

Vitória clara ou relativa?

António Costa alcançou uma vitória limitada, que nem chegou bem aos 30%, como defendeu Pacheco Pereira, ou uma vitória clara como reivindicou? A verdade é que, sendo uma vitória limitada nos números, parece uma vitória clara, apesar de tudo, se tivermos em conta, a taxa de abstenção, o facto de os dois independentes (Carmona e Roseta) terem atingido cerca de 27% dos votos e cinco vereadores eleitos, no seu conjunto, a evidência do desgaste do governo nos últimos tempos (e uma vez que o PSD, e não só, passou a campanha a colar Costa ao governo), o facto de se tratar de umas intercalares (menos valorizadas pelo eleitorado), o facto de correr contra nada menos do que onze candidatos (dispersão de votos), sendo que uma delas abandonou o PS um dia antes de se candidatar.
Além de tudo, este resultado constituiu o melhor do PS sozinho em Lisboa, nos últimos 31 anos.

Quem ganhou?
Costa, Sócrates e o PS. Mas conseguirá ele governar, estando em minoria no executivo e uma Assembleia Municipal de outra cor?

Quem perdeu?
Negrão, que ficou em terceiro, com a péssima percentagem de 15,74%, Marques Mendes, o autor desta estratégia suicida, Paula Teixeira da Cruz, que deverá retirar consequências políticas, o PSD, mas também Paulo Portas, Telmo Correia, o PP, Ruben de Carvalho e a CDU.
Aliás, hoje não se entende o que ganhou Portas em ter empurrado Ribeiro e Castro para fora da liderança, e também Maria José Nogueira Pinto. É já a segunda eleição que perde, desde aí.
Por isso, é importante que PSD e PP se clarifiquem internamente, porque este governo precisa de uma oposição credível, agora mais do que nunca.
É claro que Marques Mendes propõe directas no partido em jogada de antecipação, antes que apareça alguém a disputar-lhe o lugar. Ele sabe que o timing não é o melhor para os concorrentes. Mas a responsabilidade da queda do executivo municipal, da escolha de um mau candidato, e da derrota política verificada é-lhe inteiramente atribuível.
Na noite das eleições, Negrão fez o discurso esperado, da derrota. Finalmente assumiu que se filiará no PSD esta semana. Pena que andasse toda a campanha a proclamar que era independente. Não é uma atitude transparente.
O PCP mais uma vez joga com as palavras de forma enganadora. De facto não ficou em terceiro lugar como força política, ao contrário do que afirmou Ruben de Carvalho, mas sim em quinto, atrás do PS, Carmona Rodrigues, PSD e Helena Roseta. Porque carga de água não considera a CDU as candidaturas de Carmona e Roseta como “forças políticas”? Serão forças armadas, sindicais, ou o quê?

À dúzia é mais barato?
A lei eleitoral deveria ser revista de modo a que, quem se candidata “eternamente” a eleições com resultados consecutivos abaixo de 3% por exemplo (muitos deles nem alcançam 1%), dever ficar impedido de o voltar a fazer, durante um mínimo período de tempo.
É o caso de cerca de metade das 12 listas às eleições para a Câmara de Lisboa, que só gastam dinheiro e paciência aos portugueses, como o candidato do papel higiénico (Nuno da Câmara Pereira) e as palhaçadas pretensamente engraçadas (de Manuel Monteiro por interposta pessoa), por exemplo.

Crise do sistema partidário
É indesmentível que, desde há algum tempo a esta parte, os partidos estão em perda de credibilidade na sociedade portuguesa, mas apenas por sua exclusiva responsabilidade. Começam a surgir as personalidades. Embora em presidenciais e autárquicas se compreenda melhor o fenómeno, mas não deixa de ser preocupante. Basta recordarmos os casos de Fátima Felgueiras, Valentim Loureiro, Isaltino Morais, e agora Carmona Rodrigues. Aonde é que isto nos levará?

Ovo estrelado e condução

A mulher está na cozinha a estrelar um ovo quando o marido chega e começa a gritar:
“Cuidado… cuidado!… Deita óleo!… Vá, deita, mais óleo, ouviste? Deita mais óleo!… Vai-se pegar à frigideira!… Cuidado!… Vira, vira, anda!… Põe sal… não esqueças o sal!… Vá agora vira outra vez e baixa o lume!…”
A mulher, já irritada com os berros do marido, pergunta: “Porque estás para aí a gritar dessa maneira feito parvo? Achas que eu não sei estrelar um ovo, é?”
E o marido responde: “Isto é só para teres uma ideia daquilo que eu sinto quando estou a conduzir e tu estás ao meu lado…”

O Latim já era

A generalidade dos padres portugueses recusa celebrar a missa em latim, ao contrário da recente sugestão papal. Parece que os saudosistas de antes do Concílio Vaticano II (1965) não são muitos, e os bispos defendem mesmo o óbvio: “a celebração da Eucaristia é a partilha da Palavra de Deus e isso só acontece se as pessoas perceberem a mensagem”, pelo que a celebração à antiga “seria um retrocesso pastoral inaceitável”.
São admitidos alguns cânticos em latim, mas não mais do que isso, até porque cerca de metade dos sacerdotes não tem formação para celebrar no rito de Pio V. A excepção será Fátima, por ser um santuário internacional.
Segundo o cónego José Paulo Abreu, Reitor do Seminário Maior de Braga, o Latim é bom para encontros e para o património musical, mas não apresenta vantagens para as paróquias.
O cardeal francês Lefebvre, afinal, não tem muitos seguidores por cá.

As 7 maravilhas da tecnologia moderna

Por ordem cronológica:

1-O plástico (1907). Fez há pouco cem anos que foi inventado o primeiro plástico, a baquelite. De então para cá os plásticos têm-se multiplicado e enontram-se por tudo quanto é sítio.

2- A televisão (1923). A “caixa mágica” mudou o mundo e essa mudança poderá ter sido mais subtil do que, em geral, se crê: segundo o psicólogo norte-americano David Fluss, a televisão, ao impor certos padrões de beleza visual, alterou os hábitos de acasalamento da espécie humana (um fenómeno que poderá ter efeitos genéticos a longo prazo!)

3- O avião a jacto (1928) e a nave espacial (1957). O avião a jacto permitiu-nos realizar de modo seguro o sonho de Ícaro de voar e a nave espacial possibilitou que o sonho de Cyrano de Bergerac de viajar até à Lua se concretizasse.

4- A penicilina (1928). Foi o primeiro antibiótico e mudou a relação de forças na luta entre a vida e a morte.

5- O computador (1941) e o transistor (1947). Os computadores, ao fazerem as contas rapidamente, permitem-nos antever o futuro e precavê-lo. Hoje não podemos viver sem os transístores: eles estão não só nos computadores como por todo o lado, aos milhões e milhões, a cuidar de nós.

6- A pílula contraceptiva (1960). Significou a liberdade não só para as mulheres mas para todos. Mudou muitos comportamentos e, portanto, a nossa cultura.

7- A Internet (1983) e a World Wide Web (1991). Com a rede das redes, o mundo, que já era pequeno, ficou ainda menor. Passámos a ser vizinhos próximos na aldeia global. E começámos a habitar mundos virtuais.

Carlos Fiolhais (De Rerum Natura)

“Alegrai-vos porque já achei a minha ovelha perdida” (Lc 15:6); “Ovelhas perdidas foram o meu povo, esqueceram-se do lugar do seu repouso” (Jr 50:6).

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