O fogo e a culpa

 

“A indústria do fogo dá dinheiro a muita gente” (secretário de Estado Jorge Gomes)

 

De quem é a culpa dos incêndios de Verão? Em geral atribuem-se ao governo da nação todas as responsabilidades por desgraças como o recente inferno do Funchal. Se houvessem mais bombeiros, se lhes pagassem melhor, se tivessem melhores condições logísticas, equipamento, viaturas de combate ao fogo e meios aéreos, se, se, se…

A barragem de acusações é pelo menos tão recorrente como a velha habilidade em sacudir a água do capote. Sim, porque as populações continuam a não limpar o mato à volta das suas casas, a não criar aceiros, a fazer queimadas não controladas, a fazer churrascos no meio dos pinhais, sem as devidas precauções, e a atirar cigarros pela janela das viaturas em movimento, em muitas estradas do país.

Por outro lado sabemos que cerca dum quarto de todos os incêndios inicia-se durante a noite, mas aí não há possibilidade de ignição natural, pelo que todos esses sinistros terão que ser resultado de acção humana, por negligência ou atitude criminosa. Mas não é com populismos como a pena de morte para os incendiários que se resolve esta questão.

As autarquias também não estão isentas de más práticas. Ainda recentemente em Castelo de Vide, no festival “Andanças”, se viu uma actuação lamentável. Desde logo porque o parque de estacionamento não parecia estar devidamente limpo de material combustível. Duvida-se ainda que o seguro da organização para o efeito fosse adequado à situação, e a intervenção dos bombeiros pareceu inadequada, tanto por se terem apresentado no sinistro mal equipados como pelo modo de actuação, que pareceu permissivo.

Domingos Caldeira defendeu, e bem, que a questão dos incêndios de Verão têm que ser vista duma forma integrada por ser transdisciplinar. Tem que ver com os serviços de protecção civil, com a gestão do território, com aspectos culturais (festivais, feiras e festas populares, grandes ajuntamentos de pessoas), com prevenção e vigilância das matas, com limpeza e racionalização da floresta, mas também com política energética (o que fazer com a biomassa recolhida?).

Não há soluções fáceis. Tem que haver civismo e políticas integradas, a nível, local, regional e nacional, mas a Europa falhou mais uma vez, ao contrário de Timor, Espanha, Marrocos ou a Rússia.

Mas vale a pensa pensar no que disse o secretário de Estado Jorge Gomes sobre o sistema judicial: “Custa-me entender que um criminoso que é apanhado em flagrante delito pela GNR ou PJ seja apresentado a tribunal e vá para casa com obrigação de apresentação periódica às autoridades”.

Fonte: José Brissos-Lino, O Setubalense, 12/08/16.

 

 

 

Palavras perdidas (1250)

“A moeda única foi uma resposta ideológica, dada em 1989-1992, à reunificação alemã. A ideia que na altura avancei era a de que, tomando à Alemanha o seu marco [banco central e política monetária], se amarrava o gigante alemão reunificado. Foi o contrário que se produziu porque uma moeda corresponde a uma economia e uma cultura específicas. O antigo embaixador alemão em Paris, Reinhard Schäffers, dizia que, se para os franceses a moeda era um instrumento de política económica, para os alemães ela representava uma espécie de Graal, um valor sagrado. (…)

A moeda única foi concebida como um meio de provocar o parto, a ferros, de uma nação europeia, o pressuposto de qualquer construção federal. Ora, para este projecto ter algum sentido, teria de ser realizado no tempo longo da História e pela vontade dos povos. Infelizmente, conduziu a um resultado contrário ao inicialmente pretendido. Quanto tempo será preciso agora esperar para se perceber isso e, sobretudo, para encontrar uma saída colectiva para o impasse em que a Europa se extraviou?”

(Jorge Bateira, Ladrões de bicicletas)

“Alegrai-vos porque já achei a minha ovelha perdida” (Lc 15:6); “Ovelhas perdidas foram o meu povo, esqueceram-se do lugar do seu repouso” (Jr 50:6).

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