Palavras perdidas (1177)

“Quando Nuno Crato puxou pela cabeça para ver como implodiria o ministério que sempre criticou, tinha duas soluções: ou motivava os professores, dignificando-os, ou proletarizava-os, balcanizando-os. Escolheu a segunda opção, a mais fácil, a que já vinha de trás. Precarizou-os, fiscalizou-os e limpou-os da última réstia de autoridade, dizendo, cinicamente, que lhes dava autonomia acrescida. Não implodiu a casa que hoje comanda. Apodreceu-a.”

(Santana Castilho, Público)

Revisionismo à Tintin

 

Assiste-se hoje a uma espécie de revisionismo, na linha do “politicamente correcto” que descontextualiza a obra cultural europeia, manipulando-a de forma patética face ao olhar do homem de hoje.

Saramago e o neo-ateísmo fizeram exactamente isso com o Antigo Testamento, outros fazem-no com diversas expressões literárias e artísticas.

No início dos anos 60 surgiram os primeiros ataques sérios, por parte do Le Canard Enchaîné, semanário francês satírico. Nessa altura a editora de Hergé (Casterman) optou por deixar esgotar o álbum “Tintin no Congo”, além de o retirar da colecção. Mas nem autor nem público se conformaram e assim surgiu de novo aquele título em 1970, tendo sofrido pequenas alterações textuais como, entre outras, “négre” (preto) deu lugar a “noir” (negro) e as referências específicas ao Congo foram diluídas, passando as aventuras a ter lugar num país africano indefinido.

O receio devia-se aos resquícios de um olhar europeu colonial (estereótipos raciais e falta de sensibilidade ecológica), predominante num tempo anterior às independências africanas, mas no fundamental a obra manteve as suas características e a polémica regressou.

Nos primeiros anos do século XXI um advogado britânico, ligado aos direitos humanos, apresentou queixa à Comissão de Igualdade Racial e esta determinou que os livros fossem retirados das livrarias. Mas os livreiros concentraram a obra de Hergé na secção de adultos e outros sinalizaram-na para leitores com mais de 16 anos. Outros incidentes quase pretenderam levar Tintin, o célebre repórter belga, ao Tribunal Penal Internacional, para enfrentar acusações de crimes contra a humanidade.

A obra artística deve ser entendida no seu contexto histórico-cultural, para não se confundirem valores éticos e estéticos…

 

Fonte: J B-L, Luzes e Sombras, página cultural de “O Setubalense”, 29/7/15. 

A vida, um sono ligeiro

vidabreve

Passamos rapidamente. Nem nos damos conta de que estamos perigosamente próximos da última curva. Nossos passos largos diminuem e caminhamos vagarosos. Nossa voz adquire o timbre dos idosos. A mão, que outrora assinava o nome com firmeza, não custa a tremer. Não tarda, precisamos de que alguém nos ajude a levantar e deitar. Somos como a flor do campo que floresce pela manhã e murcha no crepúsculo. Como um colarinho lavado algumas vezes, nosso vigor se esgarça sem remendo. Nossa vida é como um sono ligeiro. O que sobra?

Depois de tudo, resta um sentimento impronunciável, muitas vezes confundido com tristeza. Fica uma sensação de perda, um oco. Falta o que nunca nos ocupou totalmente. Sobra um medo de saber que nada nunca será suficiente para preencher o vazio avassalador que nos angustiou por longas décadas. Nossos desejos nos sobrecarregaram na direção do que nem sabíamos o que era.

Depois de tudo, renasce uma saudade estranha. Temos nostalgia, não do que aconteceu, mas das pessoas que nos tocaram. Fica um desespero de não lembrar o nome de quem um dia nos enriqueceu. É duro saber que sequer reconheceríamos gente querida, se cruzasse nosso caminho. Sobra uma melancolia esquisita, desfigurada. Temos vontade de andar para trás, em busca dos anos que sepultamos quando pensávamos ter todo o tempo do mundo. Sofremos com apetite pelo passado.

Depois de tudo, perdura um choro quieto. Nosso lamento não acontece totalmente. Fica apenas a carência do colo materno. Convivemos com a necessidade de nos curvar em posição fetal – que logo abandonamos por acharmos infantil demais. Fazemos as pazes com a ideia de um espírito quebrantado, com alma à flor da pele e com apertos no coração.

Depois de tudo, teimam nó na garganta e borboletear no estômago, sem que saibamos explicar de onde veem. Nada serve para aplacar nossa sede de infinitude senão crepúsculos deslumbrantes, vendavais estonteantes, cenários extravagantes e experiências alucinantes.

Depois de tudo, no fim da picada, desfeitas as vitrines, desmontados os cenários, rasgadas as fantasias, baixadas as cortinas, resta um brado parecido com o do Nazareno: “Eloi, Eloi, lamá sabactani – “meu Deus, meu Deus, por que me desamparaste”.

Fica a esperança de ainda nos sobrar um derradeiro fôlego para gritar: “Em tuas mãos entrego o meu espírito”.

Soli Deo Gloria

Fonte: site de Ricardo Gondim.

Palavras perdidas (1176)

“O primeiro ponto de uma agenda de refundação europeia é a dissidência clara e ousada relativamente à atual trajetória destrutiva e ao poder antidemocrático instituído pelo governo da Alemanha e pelos diretórios que foi formando. O segundo é declarar sem hesitação que se denuncia o papel e a violência cínica que esse governo está a impor à mesma Europa que recuperou o seu país das cinzas geradas pela fogueira que ele próprio tinha ateado. (…) Governação económica, neste contexto, quer dizer tudo o que o “six-pack” e o Tratado Orçamental já deixaram claro que são: vigilância apertada por maus polícias; obrigação de saldos orçamentais que impeçam a ação pública, liberalizem e criem mercados para tudo; anemia da economia em nome da moeda e da banca, pois já se sabe que não é possível criar bem-estar nem crescimento em tais circunstâncias. Com elas só é possível uma estagnação longa para todos, com exceção dos que vivam à custa de todos os outros. Sim, com exceção de alguns, pois, por exemplo, o banco público alemão — sublinho público, porque (hélas!) as regras não são para todos — que iria gerir o fundo de privatizações gregas não estaria estagnado…”.

(José Reis, O dia em que se construiu o novo muro de Berlim: refundar a Europa com urgência)

“Alegrai-vos porque já achei a minha ovelha perdida” (Lc 15:6); “Ovelhas perdidas foram o meu povo, esqueceram-se do lugar do seu repouso” (Jr 50:6).

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