A América grande novamente

AGN

Numa estação do Subway em Manhattan.

 

Na grande América novamente os negros
Tanto são levados à igreja como aos tribunais
O mais certo é terem um seguro de prisão
E os hispânicos, a quem se deu a mão
Agora dá-se-lhes os pés, com seus dedos
rezaram o rosário, agora contam as alturas
Do muro que os separar do México
E que terão de caminhar na crosta da terra
A grande América
Já não é uma caverna da pré-história
E na 5ª Avenida em Nova Iorque
Só navegam cisnes fátuos como se fossem
Com suas plumas ao ballet.

02/02/2018
© João Tomaz Parreira

 

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As curvas da estrada

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“Por ora só sabemos que lá não estamos. / Aqui há só a estrada antes da curva, e antes da curva / Há a estrada sem curva nenhuma.” (Alberto Caeiro, Poemas Inconjuntos)

 

A questão dos acidentes rodoviários continua em cima da mesa em Portugal.

Segundo números provisórios da Autoridade Nacional de Segurança Rodoviária, só em 2017 morreram 509 pessoas nas estradas portuguesas, mais 64 do que em 2016, e o número de feridos graves aumentou de 2102 para 2181. As estatísticas apresentam uma particularidade segundo a qual 54% das mortes ocorreram dentro de localidades, no ano passado.

Penso que o diagnóstico está feito. O problema é a elaboração dum plano de combate à sinistralidade rodoviária, que seja eficaz, que vença resistências e interesses particulares e não seja demagógico.

Das medidas avançadas há uma que merece aplauso: a georreferenciação dos pontos negros, isto é, dos locais de acidentes recorrentes. Já quanto ao resto não passa de disparates acumulados.

Desde logo a possibilidade que o governo parece estar a estudar com as operadoras, no sentido de inibir o sinal de telemóvel nas estradas. E se houver um acidente ou outra situação de emergência (por exemplo, doença súbita) retira-se ao cidadão a hipótese de pedir socorro em tempo útil? E como fica a rede nas margens das estradas onde há quase sempre habitações, restauração, armazéns, fábricas e serviços, onde vivem e trabalham milhares de pessoas? Ficam sem rede? E como conseguirão resolver o problema do ponto de vista técnico? E com que direito o governo impede os cidadãos de acederem a um serviço que estão a pagar?

Outro disparate é a intenção de reduzir o limite de velocidade nas localidades para 30 Km. Como é mais do que evidente será uma medida legislativa que ninguém vai cumprir, porque não se pode circular a essa velocidade em via nenhuma. Simplesmente não é possível. Imagine-se o inferno que seria Lisboa, Porto e qualquer cidade com todas as viaturas a circular como tartarugas…

Esta medida – junto com a outra de alargamento da rede de radares – sugere claramente que a intenção é outra: encontrar uma fonte de financiamento para o Estado ainda maior do que os impostos abusivos sobre os combustíveis e a compra de viaturas novas, através dos quais os contribuintes são espoliados todos os dias.

Querem investir em segurança? Então comecem por, além da educação cívica dos peões na escola pública, integrar no currículo do 9º. ano o exame do Código da Estrada. Todos somos utentes da via pública, ou como condutores de viaturas e outros veículos, ou como peões.

Reforcem também as operações de fiscalização, em particular da alcoolemia, e muito em especial à saída dos bares nocturnos nos fins-de-semana.

O problema é que há mais curvas na estrada para além das propriamente ditas.

 

  Fonte: José Brissos-Lino, O Setubalense, 1/2/18.

 

Os homens não se sabem governar

rich and poor

 

Segundo um relatório da organização não-governamental Oxfam, recentemente divulgado, mais de 80 por cento da riqueza criada no mundo em 2017 foi parar às mãos dos mais ricos que representam 1 por cento da população mundial.

A Comissão de Combate à Fome de Oxford (Oxfam), que é uma confederação de 17 organizações não-governamentais, afirma no seu relatório “Recompensem o trabalho, não a riqueza” que metade da população mundial não ficou com qualquer parcela daquela riqueza gerada no planeta, tendo-se ainda registado um aumento histórico no número de multimilionários no mundo: “atualmente existem 2.043 multimilionários no mundo e 9 em cada 10 são homens”.

Desde 2010 que a riqueza dos multimilionários aumentou 13% ao ano em média. Comparado com os aumentos salariais dos trabalhadores (2% ao ano), é seis vezes mais.

A riqueza deste grupo aumentou 622,8 mil milhões de euros, o que daria para acabar mais de sete vezes com a pobreza extrema no mundo.

Este aumento acentuado do fosso entre ricos e pobres não tem que ver com prosperidade ou uma economia saudável, tratando-se apenas do agravamento dum sério problema internacional, já que mais de metade da população do mundo apenas tem direito a um rendimento diário entre 1,6 euros e 8,1 euros.

De acordo com o relatório: “mantendo o mesmo nível de desigualdade, a economia global precisaria ser 175 vezes maior para permitir que todos passassem a ganhar mais de 4 euros por dia”.

Este estado de coisas revela acima de tudo a falência das ideologias. Se o comunismo e os sistemas autoritários falharam, além de aberrações políticas como o nacional-socialismo alemão (nazismo), as teocracias ou o “socialismo bolivariano” de Chavèz/Maduro, também a social-democracia encontra muitas dificuldades em subsistir no mundo de hoje de modo a promover a coesão social.

Resta-nos este capitalismo selvagem que predomina agora por todo o lado (por vezes travestido de comunismo, como na China), e que vem gerando a pobreza da esmagadora maioria da população do mundo.

Curiosamente, este relatório internacional da Oxfam é publicado na véspera do Fórum Económico Mundial, que junta os principais líderes políticos e empresariais do mundo na cidade em Davos. Mas duvida-se que sirva sequer para reflexão dos senhores do mundo.

Se a ambição desmedida das pessoas e dos grupos humanos, assim como o seu egoísmo congénito, tendem a explicar esta situação dramática, a verdade é que a ditadura – seja ela pessoal, militar ou do proletariado – também não foi capaz de a resolver, porque o ser humano nasceu para a liberdade.

 

 Fonte: José Brissos-Lino, O Setubalense, 26/1/18.

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“Alegrai-vos porque já achei a minha ovelha perdida” (Lc 15:6); “Ovelhas perdidas foram o meu povo, esqueceram-se do lugar do seu repouso” (Jr 50:6).

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