Pobreza e vergonha

 

Os que de uma situação desafogada caem num estado de penúria que lhes é estranho, esses, sofrem mais cruelmente do que quem foi sempre miserável. (Eurípedes)

 

Não, não é vergonha ser pobre. Mas os portugueses deviam sentir-se envergonhados da sua classe política, em particular pelos governantes que têm escolhido nos últimos quarenta anos.

Portugal tem hoje mais pobres do que antes da revolução dos cravos, sendo que um em cada quatro portugueses está em risco de pobreza, e quem recebe o salário mínimo ganha menos 12 euros do que em 1974 (descontando a inflação), segundo os dados divulgados pela Pordata.

O panorama mundial não é muito melhor, uma vez que, de acordo com os dados da organização não-governamental Oikos, mais de mil milhões de pessoas passam fome em todo o mundo e há 200 milhões de desempregados.

A propósito do recentemente comemorado Dia Mundial para a Erradicação da Pobreza (criado pela ONU em 1992), conclui-se que: “Portugal era em 2011 o nono país da União Europeia com uma taxa de risco de pobreza mais elevada, havendo no ano passado 360 mil pessoas a receber o Rendimento Social de Inserção, quase metade delas com menos de 25 anos.”

Acresce que somos o sexto país da União Europeia com maiores desigualdades de rendimentos entre os mais ricos e os mais pobres.

Já o Instituto Nacional de Estatística (o tal de que Passos Coelho não gosta quando trás más notícias) revela que: “29,3 por cento da população infantil encontrava-se em privação material no ano passado (privação material é quando um agregado não tem acesso a três bens de uma lista de nove considerados importantes).”

A verdade é que, de acordo com os números, a média do risco de pobreza na União Europeia mantém-se estável, ao contrário do nosso país, onde se tem vindo a agravar a taxa de intensidade da pobreza, com um risco maior para as famílias com crianças dependentes.

A intenção de acabar com o flagelo da pobreza é um dos objectivos de desenvolvimento do milénio assumidos pela ONU, mas que está longe de concretização, em grande parte devido ao estado do mundo. Isto é, à captura do poder político pelo poder financeiro e à corrupção que grassa um pouco por toda a parte, exaurindo os recursos e riquezas naturais dos povos em favor de grupos de interesse privados.

A destruição de boa parte da classe média portuguesa nos últimos três anos, em nome das políticas de austeridade (“ajustamento”), mas de facto provocadas por razões ideológicas, torna mais viva a frase de Eurípedes (em epígrafe).

 

Fonte: José Brissos-Lino, O Setubalense, 17/4/15.

Segurança Social: não sejamos ingénuos

 

O governo está fortemente empenhado em destruir a Segurança Social. Começou com os cortes brutais no orçamento, depois com o despedimento de 700 funcionários e agora com o previsível estrangulamento do seu orçamento ( menos cerca de 600 milhões), através do abaixamento da TSU para as empresas.

Não é um acidente e muito menos uma inevitabilidade, é mesmo uma estratégia política, com base numa ideologia liberal extremada, que pretende, afinal, o desmantelamento do estado social.

Até Manuela Ferreira Leite desmascara esta política nefasta e sabe que é assim que pensam aquelas cabecinhas dos indivíduos sem escrúpulos políticos que estão no governo.

Por outro lado, vê-se que não aprenderam nada com a resposta do país à tentativa anterior de pôr os trabalhadores a pagar o que competia às empresas. E como, apesar de tudo, parte do eleitorado parece ser masoquista e diz que pensa votar nestes incompetentes…

“Alegrai-vos porque já achei a minha ovelha perdida” (Lc 15:6); “Ovelhas perdidas foram o meu povo, esqueceram-se do lugar do seu repouso” (Jr 50:6).

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