Xenofobia

Londres é a primeira cidade do mundo ocidental a eleger um britânico de origem paquistanesa e muçulmano para a governar. Além disso é uma capital e uma das maiores metrópoles do mundo, com largos milhões de habitantes.

Logo surgiram nas redes sociais reacções xenófobas à notícia, que se dividiram essencialmente em dois tipos: a reacção política e a religiosa.

É curioso que os originários de África, do Médio Oriente ou da Ásia podem trabalhar na recolha do lixo, as mulheres podem ser trabalhadoras domésticas ou fabris e ocupar uma série de postos de trabalho considerados menores, mas o facto de virem a ser eleitos para cargos públicos, passando por isso a integrar o poder democrático, já produz urticária. A simples evidência de serem tão britânicos como os de pele branca nem sequer é tida em conta, porque serão sempre considerados cidadãos de segunda.

O facto de uma cidade como Toronto, por exemplo, ter sido governada em tempos recentes por um canadiano branco, louro, alcoólico e drogado, não é grave para os tais, grave seria se o mayor fosse negro, cigano ou muçulmano.

Este tipo de xenofobia, a ser levado ao extremo, inviabilizaria a existência de países como os Estados Unidos, o Canadá, o Brasil ou a Austrália, comunidades formadas numa base multirracial.

Os londrinos preferiram claramente um trabalhista muçulmano, filho de imigrantes paquistaneses (o 5º. de oito irmãos, sendo o pai condutor de autocarros e a mãe costureira), Sadiq Khan, a um milionário conservador, Zac Goldsmith, membro da elite inglesa. Goldsmith tentou aterrorizar e enganar os eleitores tentando associar o adversário aos radicais islâmicos. Até aos 24 anos Khan dormia num beliche, numa casa de três assoalhadas no Sul de Londres, onde nasceu e cresceu, vivendo ainda hoje próximo dali.

Mas a reacção de certos meios religiosos cristãos não é menos estranha. Ai Jesus, que vem aí um muçulmano… Estes mesmos cristãos votariam em Romney para a Casa Branca, mesmo sendo ele reconhecidamente Mórmon, mas passaram o tempo a inventar que Obama seria muçulmano, a fim de justificar a sua rejeição.

Segundo o Público, “a colunista Yasmin Alibhai-Brown escreveu no Guardian, antes da votação, que a sua eleição “demoliria a narrativa anti-ocidental dos extremistas. Se um muçulmano pode ser eleito por milhões de eleitores das mais variadas origens para se encarregar da melhor cidade do mundo, como irão os jihadistas – como poderão – acreditar e argumentar que nós muçulmanos não temos futuro na Europa, ou que os ocidentais nos odeiam? Esta vitória pode fazer mais para combater a radicalização do que todas as estratégias governamentais”.

Seria como se as portuguesas pudessem ser concierges em Paris mas nunca empresárias, ou docentes universitárias. Uma aberração num país democrático e civilizado.

 

Fonte: José Brissos-Lino, O Setubalense, 20/5/16.

 

Palavras perdidas (1236)

«O que é falso, e basta olhar para a lei, é dizer-se que a carência não tem nada a ver com os contratos de associação. Os contratos de associação têm como pressuposto absoluto a carência. E portanto onde não há carência, não há pressuposto para celebrar estes contratos. Quando em Junho de 2015 o anterior governo abriu um procedimento para celebrar 79 novos contratos, abriu o respectivo aviso por freguesias. E quando abriu esse aviso por freguesias, e quando tentou visar estes contratos no Tribunal de Contas, o Tribunal de Contas perguntou como é que se abria por freguesias. Como é que se compaginava a suposta concorrência com a abertura por freguesias? Naturalmente, só os colégios localizados naquelas freguesias é que podiam concorrer…
E eu permito-me ler os esclarecimentos que o Ministério da Educação da altura deu ao Tribunal de Contas. Diz assim: “É pois em concretização desta fundamental regra base da Lei 9/79 que o Estado, nos primeiros contratos de associação celebrados no âmbito deste novo estatuto, procedeu à delimitação das áreas geográficas de implantação da oferta através do critério das áreas carenciadas de rede pública. (…) A liberdade de escolha ou opção das famílias entre o ensino público e o privado não se faz através de contratos de associação. Não nos esqueçamos, com efeito, que, como estabelece o n.º 2 do artigo 16º dos Estatuto, os contratos de associação são celebrados com vista à criação de oferta de ensino, o que só se pode compreender na lógica da atenuação das lacunas e carência da rede pública”. Esta é a lógica que presidiu, e que continua a presidir, aos contratos de associação. E por isso, qualquer assunção de compromissos plurianual, que obrigue o Estado a abrir contratos quando não há carência é ilegal.»

Alexandra Leitão, Secretária de Estado Adjunta e da Educação, no Prós e Contras da passada segunda-feira, dedicado aos contratos de associação (Ladrões de Bicicletas, via Geringonça).

Cavem mais fundo (inédito de João Tomaz Parreira)

“Ele grita cavem mais fundo no reino da terra”

Paul Celan (in Fuga da Morte)

 

Por que será que eles cavam e cavam

Enterram as pás mais fundo na terra

As pás com os seus fios rombos de navalha

Vão encurtando as horas da vida, eles sabem

O que os olhos já viram, mas agora os seus olhos

Não acompanham as mãos

Sob as ordens como pedras, a voz diz

Cavem mais fundo para o reino dos céus.

 

18-05-2016

© João Tomaz Parreira 

“Alegrai-vos porque já achei a minha ovelha perdida” (Lc 15:6); “Ovelhas perdidas foram o meu povo, esqueceram-se do lugar do seu repouso” (Jr 50:6).

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