O fenómeno da corrupção – II

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Na semana passada reflectimos aqui sobre o fenómeno da corrupção, a sua influência na vida democrática e na sociedade em geral, e sobre as razões porque as pessoas se corrompem e deixam corromper. Mas como atacar tão momentoso problema?

Desde logo através da disponibilização aos cidadãos de informações práticas, em linguagem clara e acessível, que lhes permita não só identificar os casos concretos de cometimento deste crime, mas também lhes faculte o conhecimento dos procedimentos a adoptar perante essas situações.

De todo o modo o crime de corrupção tende a crescer quando os procedimentos na administração pública não são adequados, do ponto de vista da transparência, mas também quando os cidadãos não tendem a escrutinar devidamente a res publica. Creio que o segundo caso é o mais fulcral nesta matéria, uma vez que, se os consumidores estiverem cientes dos seus direitos, os utentes forem exigentes quanto à prestação dos serviços a que recorrem, e os cidadãos em geral não se alhearem da vida pública, decerto que muitos destes comportamentos problemáticos desaparecerão.

A cultura da cunha, do facilitismo e do nacional-porreirismo, em contraste com a da responsabilidade e do mérito, tem-se transformado em terreno fértil para o crime de corrupção. As populações têm que ser exigentes. Veja-se o recentemente sucedido na Roménia, onde um governo sem um pingo de vergonha na cara tentou fazer passar uma lei para amnistiar os crimes de corrupção até um certo valor, e como o povo respondeu nas ruas de forma tão frontal que o executivo teve de recuar. Não contentes com isso, as populações continuam agora a exigir a queda desse mesmo governo, que perdeu toda a credibilidade e não merece mais a sua confiança.

Mas creio que, e acima de tudo, o caldo de cultura que permite o fenómeno da corrupção é um individualismo feroz em lugar do sentido de comunidade. A modernidade libertou a importância do indivíduo e a sua autonomia no todo social. Levou-o a pensar pela sua cabeça, a ter uma voz na definição do seu destino e a escolher a sua forma de relação com a transcendência. Deixou de ser súbdito sem direitos e passou à condição de cidadão com dignidade pessoal e direitos garantidos por lei. Só que, neste momento, assiste-se a um extremar das posições individualistas em prejuízo do colectivo, o que se torna nocivo para o tecido social e em particular para a construção dum sentido de comunidade de interesses e de destino.

Se eu sobrevalorizo o que me diz respeito a mim, à minha família e grupo, desprezando o interesse geral da comunidade, estou a abrir caminho para a corrupção e todos os inúmeros crimes a ela associados.

 

Fonte: José Brissos-Lino, O Setubalense, 17/2/17.

 

 

 

 

 

Dos touros de Lascaux ao cavalo de Guernica (inédito de J.T.Parreira)

Dos touros rupestres de Lascaux, com a sua semiologia, ao cavalo germinal e ao touro tutelar da Guernica, de Picasso, a distância é longa, de facto, e seria de anos-luz se estivéssemos a tratar meios comunicacionais entre galáxias diferentes. A verdade é que essa comunicação apresenta-se com sinais da mesma entidade, o ser humano, que comunica entre si num mesmo lugar que é a Terra.

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Com efeito, estamos diante dos sinais do homem, desde as grutas de Lascaux, onde a riqueza dos signos convoca o estudo dos mesmos pela semiótica, até ao Centro de Arte Reina Sofia, onde a Guernica continua a fazer recuperar uma história trágica da Espanha e dos seus povos, história contemporânea e viva ainda em inúmeras memórias septuagenárias.

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Os contemporâneos de Lascaux, como quaisquer outros habitantes de cavernas do Paleolítico, conheciam o que hoje modernamente se pretende ignorar: a distinção dos géneros, do masculino e do feminino, eles não trocavam nem promiscuíam a beleza da humanidade composta de mulher e homem. O seu conceito de família era rigoroso, os meios usados para a procriação estavam bem definidos e bem representados, com a precisão simbólica que a capacidade artística para o desenho na pedra permitia. O símbolo fálico do homem e os símbolos ovais para representar a mulher não se misturavam nas paredes das cavernas. Seria uma arte da animalidade, como se lhe chamou, mas a sua leitura semiológica – a interpretação dos sinais – nesses desenhos eram o símbolo do homem e da mulher, do pai e da mãe, eram a representação do núcleo fundamental que é a família.

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Os impedimentos para a depravação entre homens e mulheres estavam até graficamente delimitados, a viagem intergaláctica de Sodoma para Roma, através de muitos séculos de maus costumes, não está documentada graficamente como um historial de sentimentos reprováveis e sórdidos. O que a chamada arte parietal, as gravuras nas paredes das cavernas, distinguia, o macho e a fêmea nos seus devidos lugares, milénios depois viria a ser normativo na Bíblia Sagrada. Designadamente nas Cartas de Paulo – a Epístola aos Romanos – onde as paixões infames, a mudança do modo natural das relações íntimas, as inflamações da sensualidade orientadas para o mesmo sexo, são identificadas pelo apóstolo já numa cultura a meio-caminho entre o clássico e a modernidade, comparativamente à época pré-histórica.

Com efeito, Paulo impreca os não-crentes, os ímpios, que supondo serem sábios, com cultura, enveredaram por descaminhos de perversão, sobretudo sexual, contra a própria natureza da intimidade humana, na relação homem-mulher. Sob a luz que ilumina o modo como o homem se perverteu e desviou da correcta adoração a Deus, submetem-se também os desvios dos instintos correctos com os quais o ser humano foi dotado. Alguém escreveu, em comentário de uma Bíblia de Estudo, que “o efeito da perversão da adoração instintiva a Deus é a perversão de outros instintos, que se afastam de suas funções apropriadas. As Escrituras encaram todos os actos homossexuais sob essa luz. A consequência é a degradação do corpo.”

A desintegração daquilo que é verdadeiramente “natural”, parecendo ser um produto da cultura e das sociedades urbanas, altamente desinibidas na contemporaneidade, é, portanto, fruto do desvio do homem em relação a Deus.

© João Tomaz Parreira

“Alegrai-vos porque já achei a minha ovelha perdida” (Lc 15:6); “Ovelhas perdidas foram o meu povo, esqueceram-se do lugar do seu repouso” (Jr 50:6).

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