Ideologia e realidade

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Arqueologia política

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Cavaco Silva foi botar um discurso aziago à universidade de Verão do PSD.

Não encontrou espaço para criticar a deriva populista e xenófoba do candidato do seu partido em Loures, nem para criticar o aproveitamento político da catástrofe de Castanheira de Pêra por Passos Coelho, através da invenção de suicídios ou do brandir dum número fantasioso de mortos.

Também não encontrou espaço para reconhecer que o país está numa rota consolidada de crescimento económico, ou que finalmente está a conseguir controlar as finanças públicas e a reduzir o défice para números que não se viam há décadas.

Também não teve uma palavra para a criação consolidada de emprego, nem para a taxa mais baixa de desemprego de há muitos anos, ou para a saída do país do procedimento de défice excessivo. Nem sequer uma palavra de esperança da previsível saída da classificação de lixo pelas agências de rating, que os observadores pensam vir a acontecer em breve.

Igualmente, não teve uma palavra para a política de reposição de rendimentos aos portugueses, que deles tinham sido espoliados durante o período de ajustamento, nem para a estabilidade política e social que tanto pedia quando estava no poder, nem mesmo para os consensos políticos que defendia com tanto fervor e que se materializaram na presente solução política e governativa, embora à esquerda.

Cavaco saiu da presidência com a popularidade pelas ruas da amargura e denota uma terrível inveja pelo facto de o seu sucessor ser amado pelo país, quando ele nunca foi querido por boa parte dos portugueses e saiu pela porta baixa.

O antigo político nunca conseguiu sair duma pretensa superioridade moral e política, apesar de algumas estórias mal contadas do BPN e de alguns dos seus mais directos colaboradores se terem revelado dos maiores criminosos e corruptos que o país conheceu. Parece ter-se esquecido até das manobras por si patrocinadas como a invenção de escutas, a fim de colocar um governo politicamente desafecto em dificuldades, e confessadas pelo seu chefe de gabinete em Belém, na altura.

E o que veio Cavaco dizer, afinal? Congratular-se pelo facto do país estar a começar a andar para a frente? Não. Veio retomar o discurso do “diabo”, que o próprio Passos já tinha abandonado, para se colocar em bicos de pés. Com isto nem ajudou o país nem o partido. Pelo contrário, deu mais um fôlego a António Costa.

Por muito que lhe custe, o homem que dizia nunca se enganar e raramente ter dúvidas, não vai passar duma nota de rodapé da história. É um homem só. Não deixou escola. O cavaquismo morreu. E ainda bem.

 

Fonte: José Brissos-Lino, O Setubalense, 8/9/17.

Luís Osório: Cavaco é pior do que Salazar

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Decidiu falar e para o fazer escolheu um encontro de jovens. Sem dúvida, o melhor dos pretextos – o grande senhor, angustiado de um tempo povoado pela futilidade e por homens e mulheres menores, fala para o futuro. Cavaco Silva pretendeu dizer que não liga ao presente e aos degradantes personagens que lhe sucederam (e que dele foram contemporâneos), apenas aos rapazes e raparigas que assumirão responsabilidades quando ele já não existir.

Cavaco foi sempre assim.

Tentou sempre mostrar que não era como os outros. Não como os outros políticos, isso não lhe bastava. Cavaco era diferente de todas as pessoas, não era deste mundo mas de um Olimpo onde moram os escolhidos de Deus.

Cavaco anda e olha como se fosse superior a cada uma das pessoas com quem se cruza ou que trabalham com ele. E não hesita em trair, fazer cair, despeitar ou deixar de existir para quem ofereceu a melhor parte das suas vidas ao seu superior desígnio (quem não se lembra do que aconteceu com Fernando Nogueira e Fernando Lima?).

Cavaco fez do PSD um verdadeiro partido de poder. Resultado das suas maiorias absolutas que para o bem e para o mal transformaram a democracia portuguesa. Mas o homem que, simulando uma revisão do carro, surgiu num congresso como providencial (uma encarnação de um Salazar democrático), foi o mesmo que destruiu o PSD de Sá Carneiro por não aguentar que alguém lhe pudesse fazer sombra. Todos os líderes que lhe sucederam foram criticados, ostracizados ou menorizados por ele (com excepção de Durão Barroso mas só depois de se mudar para Bruxelas). Todos eram menores, nenhum prestava. Passos Coelho pagou esse preço e esta semana voltou a pagar – porque os recados de Cavaco não eram somente para Marcelo e Costa. O ex-presidente falou também para um PSD incapaz de dizer o que para si é essencial.

Cavaco gosta de falar do exemplo. Da ética e de uma moral. Fala dos outros, de todos os outros, como gente sem princípios. Gente que se corrompeu moral e financeiramente. No entanto nenhum político em Portugal promoveu gente tão ligada a negócios sombrios e a pequenas e grandes golpadas. (não será necessário recordar o BPN e as questões que Cavaco continua a considerar tabus).

Cavaco Silva falou de Marcelo Rebelo de Sousa. Não o fez directamente. Citou Mácron para chegar a Marcelo. Deu uma aula aos jovens sobre o que um Presidente deve ser e a frequência com que deve usar da palavra. Este homem é o melhor dos exemplos (e não há melhor do que este) de um homem ressentido. Vimo-lo ao longo do tempo que uma parte importante dos portugueses o escolheu em sucessivas eleições.

Enquanto Presidente da República lembramo-nos do seu silêncio durante a morte de José Saramago. Há coisas que não se esquecem. (e inúmeros exemplos poderia recordar).

Cavaco Silva tem inveja de Marcelo. Não percebe como os portugueses podem gostar da sua presidência. Não o faz por nada de especialmente ideológico mas apenas pela única coisa que lhe importa: ele próprio. É insuportável ver alguém que o substituiu a reduzi-lo à insignificância. E por isso socorre-se da história. Quando as coisas derem para o torto (e as coisas dão sempre para o torto) alguém recordará que existia um homem íntegro, um homem dos silêncios, sérios e austero que tinha razão. Cavaco não fala para hoje, fala para memória futura.

Cavaco é pior do que Salazar, escolhi como título. Não o fiz de ânimo leve.

Salazar não era um democrata, não acreditava na democracia e não viveu em democracia. No seu triste tempo não existia imprensa livre, eleições (só as controladas a partir de determinada altura) e os projectos antidemocráticos eram aceites e defendidos por uma parte importante das elites de vários países europeus.

Mas Cavaco ganhou eleições livres. Não, uma, duas ou três. Teve duas maiorias absolutas e conquistou duas eleições presidenciais. Com o voto de uma maioria substancial dos portugueses. Quando olho para Salazar vejo uma parte do passado mas também o combate pela democracia. Mas quando olho para Cavaco vejo o que, apesar de tudo, ainda somos. É uma ferida aberta perceber que uma parte importante do país que amo continua a gostar de homens assim, ressentidos e individualistas.

Cavaco é um homem detestável.

 

Fonte: Luís Osório, Porque hoje é sábado, via Facebook.

“Alegrai-vos porque já achei a minha ovelha perdida” (Lc 15:6); “Ovelhas perdidas foram o meu povo, esqueceram-se do lugar do seu repouso” (Jr 50:6).

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