Uma tautologia

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Esta fotografia é como uma tautologia, começa e acaba em si própria, como os “poemas que são e se significam a si próprios”, no dizer de Harold Bloom.

A sublimação com que se trata esta fotografia há um século, é uma espécie de arkesis. A nossa palavra para o termo grego é ascese. Ascetismo é  o que nos sugere esta fotografia, obviamente.
A mesma intui no nosso espírito uma espécie da já referida arkesis, quando a olhamos atentamente.

Os rostos têm uma relação com a religião, a responsabilidade de serem protagonistas de uma “epifania” preparada, têm a motivação da tristeza de uma religião, nas crianças transparece o começo de uma vida ascética a que as obrigaram.
A fotografia tem uma força própria, a da tragédia. Não mostra nenhuma visão romântica.

Mas exceptua-se um rosto, que denota uma beleza infantil em gestação, uma pose de charme que, por certo, a Jacinta nos seus 7 anos desconheceria. No entanto, faz-se fotografar com a mão inocentemente na cintura. Uma atitude de feminilidade.
Ao fim destes cem anos, penso que  alguém deveria ser responsabilizado por ter cerceado a beleza na adolescência de Jacinta.

© João Tomaz Parreira

Somos ricos e não sabemos

Resultado de imagem para Parque Natural da Arrábida

 

“Esta Península da Outra Banda podia ser um Paraíso.” (Raul Brandão)

 

Uma região que tem golfinhos no rio, javalis na serra, garças e flamingos no estuário e uma das mais belas baías do mundo, pode considerar-se bafejada pela Natureza. Somos ricos e não sabemos.

Apesar da actividade das indústrias pesadas que rodeiam a cidade ainda não vivemos numa região com altos índices de poluição sonora, ar irrespirável ou águas contaminadas. Temos praias e montanha à mão de semear. Podemos nadar e praticar desportos náuticos, caminhar na Natureza, observar roazes-corvineiros, pescar, correr, fazer mergulho, pesca submarina, voo livre e qualquer outra actividade física excepto desportos de Inverno, pelas razões óbvias.

Setúbal foi literalmente surpreendida por estes dias com a eleição de Galapinhos como a “Melhor Praia da Europa 2017” pela European Best Destinations. Agora é moda atribuir tudo a um milagre, seja o controlo do défice, um qualquer sucesso desportivo ou uma distinção turística. Nestas coisas não há milagres, e neste último caso, só se for o milagre da Natureza.

A serra da Arrábida é única porque apresenta espécies vegetais exclusivas em todo o mundo. Não admira que Sebastião da Gama se tenha perdido de amores por ela. É uma jóia ambiental e o estuário do Sado um ecossistema de riqueza notória.

Por isso, é bom que se faça tudo para virar a cidade de frente para o rio, e para afastar as barreiras físicas que ao longo de décadas se foram construindo entre a urbe e as águas, deixando que as populações usufruam das riquezas naturais. É bom que se procure manter as águas despoluídas e prenhes de vida e actividade humana mas com preocupações ecológicas. É bom que a cidade tire cada vez mais partido das suas condições para atrair o turismo, mas de forma ambientalmente sustentável.

Era bom, acima de tudo, que os setubalenses – de nascimento ou adopção – tivessem verdadeiro orgulho na sua terra, pois têm motivos para tal, ainda que mantendo um elevado grau de exigência permanente para com quem governa o seu destino colectivo, e desde logo para consigo próprios e os seus comportamentos.

Dispomos de todas as condições naturais para sermos um cartaz turístico de sucesso. Seria bom continuar a criar as outras condições necessárias, as que dependem da intervenção humana.

E sobretudo não estragar o tesouro natural que já temos. Segundo a máxima que Hipócrates, o pai da Medicina, preconizava: “Primum non nocere” (antes de mais, não prejudicar), ou seja, se não se cura, que ao menos não se estrague.

 

Fonte: José Brissos-Lino, O Setubalense, 12/5/17.  

 

 

 

“Alegrai-vos porque já achei a minha ovelha perdida” (Lc 15:6); “Ovelhas perdidas foram o meu povo, esqueceram-se do lugar do seu repouso” (Jr 50:6).

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