Posted by: A Ovelha Perdida | Julho 16, 2008

Bairro operário

No monótono bairro operário
a velha espreita pelos óculos gastos
na janela das águas furtadas
durante os intervalos do tricô
espreita por detrás de cortinas
esforçadamente brancas
de elaborada renda

partilha a vidraça com um gato dourado
malhado
e um vaso de flores
amarelas como a fome

de madrugada
ainda o dia dormita
a velha observa o habitual,
um carreirinho de formigas humanas
de fato-macaco
lancheira na mão
a descer laboriosamente
a ladeira

e ela faz tricô, aos poucos
como quem acabou de dar assentimento
para recomeçar a azáfama quotidiana
de uma nova segunda-feira
no bairro operário.


Palmela, Julho de 2008

© Brissos Lino

Respostas

Sob o título de “ver o mundo dos homens”, indiquei este bom poema no Papéis na Gaveta.
Um abraço

Inspirei-me nas memórias do bairro onde nasci, em Lisboa: o Alto do Pina.
Abraço.

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