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Palavras perdidas (1165)

“Nos dias que passam, nada se cria e nada se perde, tudo se vende. Até o Oceanário de Lisboa — que dá lucro, cumpre a sua função e não incomoda ninguém. A venda da sua exploração ao Grupo Jerónimo Martins vai permitir manter activa a Parque Expo — essa sim, uma empresa que para nada serve, excepto para se manter em funcionamento acumulando prejuízos, catorze anos depois de solenemente garantida a sua extinção.

Foi com prazer que vi parte dos meus impostos ser aplicada na Expo-98 e, designadamente, no Oceanário — um raro momento de orgulho e de qualidade a que não estávamos habituados. Mas, agora que o Governo vai dar o ‘meu’ Oceanário a privados, eu quero de volta a parte correspondente dos meus impostos ali investidos. Acho que é mais do que justo: se pago para coisa pública que depois o Governo vende a privados, parece-me evidente que fui aldrabado. Façam o favor de me dar de volta o que me cabe do negócio do Oceanário — nem que seja uma raiazinha, para eu pôr na banheira e ficar a contemplar em noites de nostalgia.”

(Miguel Sousa Tavares, Expresso)

Palavras perdidas (1164)

“Com a sua primeira encíclica, “Laudato Si”, o Papa Francisco propõe um verdadeiro aggiornamento da “Rerum Novarum”, de Leão XIII. Não são apenas as desigualdades sociais e económicas que ele excomunga, mas também a pilhagem dos recursos naturais do planeta por um sistema económico que se baseia na produção de bens supérfluos para os ricos e na escassez de bens essenciais para os pobres. É a tal “economia que mata” — que mata duas vezes, hoje e para amanhã. O discurso do Papa não encontrará seguidores, nem dentro do mundo da finança que controla toda a riqueza mundial, nem em Davos ou nos fóruns onde os grandes do mundo planeiam a pilhagem e dividem o saque, nem entre os empresários devotos de sacristia, nem dentro da própria estrutura da Igreja Católica. Porque o que ele propõe é uma revolução, de alto a baixo. E ninguém está disposto a aceitar que essa possa ser a vontade de Deus.” (Miguel Sousa Tavares, Expresso)

Palavras perdidas (1163)

“Muitas afirmações se podem fazer sobre o Syriza, que é radical, de esquerda, etc, etc. Mas há pelo menos três coisas de que ninguém pode acusar o Syriza.

A primeira é sobre a dívida grega. Durante os últimos vinte anos, muitos governos erraram na Grécia, e na Europa inteira, mas a colossal dívida do país não é da responsabilidade do Syriza. Não foi ele que a criou, nem que a geriu tão mal.

O Syriza tem as mãos limpas de dívida e isso dá-lhe alguma legitimidade adicional.

A segunda é que ninguém pode alegar surpresa sobre as posições do Governo grego. Tsipras foi eleito pelo povo para acabar a austeridade, e o que deseja é cumprir.

Eu sei que, por essa Europa fora, nos desabituámos de políticos que desejam fazer o que prometeram. Principalmente em Portugal, depois de termos sido enganados pelas promessas de Durão, Sócrates ou Passos, que mal se viram no poder fizeram o contrário do que anunciaram em campanha.

Mas, lamentavelmente para os bem-pensantes, eis que surge na Europa um governo que quer cumprir o que prometeu aos eleitores, e logo lhe caiem todos em cima, querendo obrigá-lo a torcer-se todo, em falsidades e colaboracionismos.

Por fim, há uma capacidade no Syrira que admiro, que é coragem. Quantos governos seriam capazes de bater o pé a forças tão poderosas? Quantos levariam até ao fim as suas ideias perante o tapete de bombas com que são fustigados?

Que exista finalmente um governo que não se verga às infames e falhadas troikas, devia ser motivo de espanto e admiração, e não de desprezo ou mesmo ódio.”

(Domingos Amaral, O Diário de DA)

 

Palavras perdidas (1162)

“Um governo português, formado por pessoas medianamente inteligentes e patrióticas, teria apoiado, mesmo que moderadamente, qualquer governo grego, fosse ele do Syriza ou de qualquer outro partido. Deveria fazê-lo por razões jurídicas e morais, mas também por puro egoísmo político. A Grécia era um dique protetor do interesse nacional. Infelizmente, o governo de Passos Coelho e o seu eco de Belém fizeram tudo para humilhar, enfraquecer e fragilizar Atenas. Agora, só um milagre poderia evitar que o dique grego se desmorone. Os nossos juros estão a subir, a desvalorização do euro significará desequilíbrio externo e perda do valor do aforro. Os “cofres cheios” vão começar a ser esvaziados. Quando mais precisávamos de estadistas, limitamo-nos a ter em Portugal os veteranos que utilizaram a malha larga da política partidária para se promover. Nos tempos de fartura, isso seria suportável. Pelo contrário, nos dias excecionais, como os que estamos a viver, tanta incompetência pode ser mortal para a sustentabilidade do Estado. Se ao menos houvesse o decoro de permanecer em silêncio.”

(Viriato Soromenho Marques, DN)

Palavras perdidas (1161)

“O grande erro do Syriza foi pensar que iria encontrar apoio entre semelhantes. Renzi hesitou mas nunca se conseguiu definir; Rajoy vendeu qualquer veleidade de independência por um acordo feito debaixo da mesa que lhe permitiu receber toneladas de dinheiro sem a humilhação de ser oficialmente resgatado; Hollande foi o que se esperava e que ele próprio tinha anunciado: um “monsieur tout le monde” sem sombra de substância ou de relevância; e, de Portugal, a Grécia recebeu a mais feroz e invejosa oposição do Governo e do Presidente, acima de tudo desejosos de que não se fizesse prova de que a Europa poderia aceitar uma alternativa às políticas impostas pela troika — de que um foi entusiástico mandatário e o outro fiel avalista. E assim a Grécia sucumbiu ao pior da Europa: os holandeses, os finlandeses, os polacos, os neofascistas da Hungria e os alemães da estirpe do sr. Schäuble. E a libelinha emproada da Lagarde.

Mas mais depressa a Grécia acabará com a Europa do que a Europa acabará com a Grécia. A Grécia não é Portugal, como gosta de dizer o Governo, mas os gregos também não são os portugueses: em 150 anos, travaram cinco guerras e venceram-nas todas; correram com os turcos, resistiram aos nazis, e derrotaram, com a ajuda de Churchill, a tentativa de os transformarem em mais um satélite da URSS de Estaline. Um simples olhar ao mapa e à História poderia ter ensinado aos merceeiros europeus a importância geoestratégica decisiva que tanto a Grécia como a Turquia têm para a Europa e para o Ocidente. Mas a Europa preferiu bater com a porta na cara dos turcos e ameaçar os gregos com a expulsão se eles não se renderem e ajoelharem perante os visionários que agora mandam na UE. Ironicamente, à 25ª hora, só Angela Merkel percebeu o que está realmente em jogo.”

(Miguel Sousa Tavares, Expresso)