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Um grande jogo, com um resultado justo


PATRICIA DE MELO MOREIRA / AFP / GETTY

 

O Vitória jogou muito bem na Luz, de cara levantada e trouxe um ponto. Couceiro é um senhor. Se todos os treinadores optassem por uma postura pedagógica como ele o futebol seria bem melhor. O contraste com o JJ das conferências de imprensa é brutal…

Mas Rui Vitória também não esteve bem em falar do árbitro, apesar de, na segunda parte, este ter tomado algumas decisões incompreensíveis, e os sadinos terem feito algum anti-jogo. Mas a responsabilidade por não ter ganho o jogo é inteiramente dos encarnados, visto que apresentaram uma equipa desequilibrada, lenta e a falhar nos mecanismos de jogo (triangulações e passes), deixando os vitorianos ganharem quase sempre as segundas bolas.

Parece que esta época temos equipa e treinador em Setúbal.

 

Palavras perdidas (1250)

“A moeda única foi uma resposta ideológica, dada em 1989-1992, à reunificação alemã. A ideia que na altura avancei era a de que, tomando à Alemanha o seu marco [banco central e política monetária], se amarrava o gigante alemão reunificado. Foi o contrário que se produziu porque uma moeda corresponde a uma economia e uma cultura específicas. O antigo embaixador alemão em Paris, Reinhard Schäffers, dizia que, se para os franceses a moeda era um instrumento de política económica, para os alemães ela representava uma espécie de Graal, um valor sagrado. (…)

A moeda única foi concebida como um meio de provocar o parto, a ferros, de uma nação europeia, o pressuposto de qualquer construção federal. Ora, para este projecto ter algum sentido, teria de ser realizado no tempo longo da História e pela vontade dos povos. Infelizmente, conduziu a um resultado contrário ao inicialmente pretendido. Quanto tempo será preciso agora esperar para se perceber isso e, sobretudo, para encontrar uma saída colectiva para o impasse em que a Europa se extraviou?”

(Jorge Bateira, Ladrões de bicicletas)

A identidade da loucura

                              

 

Olhar para Trump e procurar uma identificação em personagens literários dos grandes escritores americanos do século XX, não é uma tarefa por assim dizer árdua, mas também não é fácil.

É um exercício que procura uma identidade da loucura, por um lado, e, por outro, o estereótipo do idiota nova-iorquino com sucesso.

Basta ir ao Soho, a Tribeca ou à Bowery e encontramos personagens assim, não sendo por acaso, que sei eu!, que Trump tenha construído o seu Hotel de luxo no Soho.

Criticamente, vejo Donald Trump pelos gestos que faz, pelos trejeitos “mussolinianos” que ensaia, mas sobretudo pelas afirmações destemperadas que produz, como uma loucura a procurar uma identidade.

Identidade literária, para começar, se bem que não estou a ver o candidato republicano à presidência dos Estados Unidos, agarrado aos escritores da primeira metade e sexta década do século XX, e às suas notáveis obras, que procuraram mostrar quem é o americano médio.

Mas há alguns escritores e Nobéis da Literatura que nos podem ajudar nesta breve observação, ficcionada?, de um amante dos escritores norte-americanos.

Deixo a loucura às atitudes e palavras do candidato, fico-me pelo estereotipado personagem que nos vai aparecendo na “pantalla” dos televisores, da CNN à FOX News.

Saul Bellow, romancista e Nobel da Literatura em 1976, criou um Herzog que, sendo um antípoda de Trump porque é judeu, procura no desenrolar do romance uma identidade falsa, tal qual Trump agora, que de imobiliário passou a “político”.

Herzog/Trump disfarça-se, tem atitudes patéticas emprestadas de Mussolini, gestos vazios, veste-se e engravata-se à vendedor de imóveis, onde se vislumbra a imagem aproximada do americano médio, cheio de crenças ingénuas, de religião dispersa entre evangelicalismo e catolicismo, Tea Party, fé no porte de armas, romântico acerca de muros nas fronteiras, e com esperança de tornar a América (do Norte, leia-se) grande novamente.

Trump perpassa, se quisermos, pelas obras de William Burroughs, Mailler, Capote, Gregory Corso, Edward Albee, onde os loucos aparecem com uma identidade que nos faz tremer, porque pensamos: “Estamos todos assim?”

Donald Trump, já que estamos no domínio da ficção literária, seria mais adequado como personagem do jornalista e escritor, já falecido, Hunter S.Thompson, no seu “Diário a Rum”, com um fato e uma gravata de seda em San Juan de Porto-Rico, a cair de bêbado, que é o que parece sempre que o vemos a discursar.

 

© João Tomaz Parreira