Arquivo da categoria: Actualidade

Se eu me chamasse Constança

Resultado de imagem para constança urbano de sousa

 

Se eu me chamasse Constança e a oposição andasse a sugerir a minha demissão de ministra, devido à catástrofe de Pedrógão Grande, se enviasse o grilo falante do PSD (mais conhecido por Marques Mendes) pedir directamente que me fosse embora, eu diria que sim.

Mas primeiro teriam que começar por me provar que, em 26/11/2015, na data de posse do actual governo:

O governo Passos/Portas tinha entregue o SIRESP a funcionar perfeitamente;

O governo Passos/Portas tinha entregue uma floresta ordenada;

O governo Passos/Portas tinha entregue uma floresta com predominância de espécies autóctones e sem sobrecarga de plantação de eucaliptos;

O governo Passos/Portas tinha entregue um interior ocupado e não desertificado;

O governo Passos/Portas tinha entregue um país em que os proprietários florestais privados mantinham a sua floresta sempre limpa;  

O governo Passos/Portas tinha entregue um país em que os proprietários das casas e empresas privadas mantinham as suas propriedades sempre limpas de mato à volta, no perímetro mínimo de 50 metros, de acordo com a lei;

O governo Passos/Portas tinha entregue um país em que todas as estradas mantinham as bermas limpas e sem árvores no espaço previsto na lei.

Se assim fosse, demitia-me. Mas como não é, o que podemos concluir é da responsabilidade de todos os governos nos últimos 40 anos. Sem excepções. A verdade é que, apesar de todas as conquistas sociais – e foram muitas e significativas – o país não foi capaz de travar a desertificação do interior e o desequilíbrio territorial, com todas as consequências que tal facto acarreta.

Pedir a demissão dum governante, nesta situação e nestas condições, é pura demagogia.

Mas para já, Passos Coelho ultrapassou todos os limites ao afirmar ter havido suicídios na sequência da catástrofe, que simplesmente não existiram. Terá sido induzido em erro, mas um ex-primeiro-ministro têm a obrigação de confirmar as fontes antes de produzir afirmações tão graves. Não vale tudo. Estamos à espera de ouvir o seu pedido de desculpas.

Como disse João Quadros “O Passos que diz que pessoas se suicidaram por falta de apoio psicológico, é o mesmo Passos que tirou os apoios as crianças do ensino especial”. E eu acrescento, e foi o mesmo Passos que promoveu a pobreza dos socialmente mais vulneráveis quando governava. Quantos se terão então suicidado?

Os deuses devem estar loucos

fog

 

Os povos primitivos atribuíam uma conotação transcendental a todas as catástrofes naturais. Se o vulcão explodia, se os campos inundavam e tudo destruíam, se a seca matava as sementeiras e inviabilizava as colheitas, se o raio caía na floresta e provocava um fogo incontrolável, a causa disso só podia ser a ira dos deuses. Havia que apresentar então sacrifícios de sangue, de preferência humanos, para aplacar a ira dessas entidades.

A civilização e o avanço da ciência permitiram compreender melhor como funciona o clima e a Natureza em geral, possibilitando prever e preparar a populações para grande parte dos seus comportamentos violentos.

Em suma, antes pensava-se que o ser humano não conseguia dominar coisa nenhuma no ambiente. Agora julga que pode dominar e controlar tudo. Puro engano. A verdade é que, por muito que a ciência avance, persistem ainda e sempre fenómenos naturais imprevisíveis e incontroláveis.

A catástrofe sucedida na região de Pedrógão Grande, nos últimos dias, é exemplo disso. A Polícia Judiciária esclareceu que as trovoadas secas estão na origem de diversas deflagrações, entre elas a que originou o incêndio que devastou a região. Segundo diversos testemunhos, até cerca das 18H00 o combate ao incêndio, que então se apresentava em duas frentes, decorria com normalidade. De repente desencadearam-se ventos cruzados, violentíssimos, atípicos e completamente inesperados, que descontrolaram o combate ao incêndio e criaram novas frentes.

Segundo o testemunho de um operacional experiente, os referidos fogos são de natureza e comportamento excepcional. Um piloto de combate aos fogos diz: “Assisti a trovoadas secas com relâmpagos brutais a cair na floresta, ventos fortíssimos e sempre a mudar de direcção e um tipo de nebulosidade que nunca tinha visto“, pelo que “o combate aéreo nestas condições é extremamente difícil e perigoso. Completei em Maio 15 anos neste serviço e quando julgava que já tinha visto tudo afinal estava enganado”. Segundo ele os meios da Proteção Civil “foram os adequados e necessários, mas contra a mãe natureza é difícil ganhar”.

Marta Soares, Presidente da Liga dos Bombeiros Portugueses diz que o combate ao fogo “foi muito dificultado pelos ventos fortes, projecções de quatro a cinco metros e pequenos tornados”, defendendo a estratégia posta em prática.

Já vi e ouvi muita coisa que me desagradou. Vi residentes em zona de floresta que não limpam o mato à volta das suas casas, vi mirones, vi jornalistas a explorar a desgraça e a dor alheias, vi os mais interessados em lançar culpas nos outros do que a socorrer as vítimas, e vi outros que têm solução para tudo mas nunca contribuem para mudar nada.

As redes sociais e os media constituem um terreno propício para a horda de dislates dos que falam do que não sabem. Mas há perguntas que têm de ser respondidas, como a que levou a GNR a enviar dezenas de pessoas para a “estrada da morte”. Alguma coisa falhou.

Uma coisa é certa, apesar de todas as conquistas, o Portugal democrático está a falhar no combate à desertificação do interior.

 

Fonte: José Brissos-Lino, O Setubalense, 23/6/17.

 

 

De como é fácil tirar o corpinho fora

fog
É fácil sacudir a água do capote e culpar as autoridades por todas as desgraças. Mas o país é dos cidadãos e muitos deles são responsáveis por muitos fogos: os que os ateiam intencionalmente (pirómanos), os que lançam foguetes, os que atiram beatas para fora das viaturas, os que fazem queimadas sem condições, os que fazem pic-nics e deixam a mata suja com garrafas de vidro, os que fazem churrascos sem segurança, os que não limpam o mato na sua floresta e ao redor das suas casas e os que trabalham com máquinas (tractores) sem cuidado e em condições altamente propícias à ocorrência de ignições.

Depois ainda temos as causas naturais, que não controlamos nem poderíamos controlar, ainda que por vezes as possamos prever parcialmente.

E depois ainda temos a desertificação do interior, a pobreza rural, as políticas da floresta, os interesses das celuloses, os dislates da autarquias, os lobis privados do combate aos incêndios, a ganância dos madeireiros.

E aqui as responsabilidades repartem-se pelos partidos que nos têm governado desde 74, no governo central e nas autarquias, pela AR e também por algumas empresas públicas e privadas.

Corrupção? Certamente.

Incompetência? Não duvido.

Desleixo? Provavelmente.

Mas sejamos honestos. Antes de apontar o dedo aos políticos, olhemos para as nossas próprias responsabilidades enquanto cidadãos.

PS – Não sou nem nunca fui político. Apenas um cidadão interessado na coisa pública, o que faz de mim um cidadão com uma atitude política.

A dama de pau carunchoso

May

 

Theresa May repetiu o erro do anterior primeiro-ministro conservador – David Cameron – ao forçar uma consulta ao eleitorado motivada por calculismo político. Cameron pariu assim o Brexit sem querer, e May perdeu a força política e parlamentar que dele havia herdado.

May quis apresentar-se como a nova Margaret Teatcher mas falhou em toda a linha. O que resulta desta campanha eleitoral é a fuga aos debates políticos com os adversários, os chavões atirados ao ar mas despojados de sentido e os zigue-zagues constantes nas propostas políticas.

Depois de ter anunciado a marcação de eleições legislativas antecipadas Theresa May anunciou pretender reforçar e fortalecer a maioria para enfrentar as negociações com o “Brexit”. May tinha garantido: “Não se iludam, pode acontecer. O facto duro e difícil é que, se eu perder seis lugares, perderei estas eleições e Jeremy Corbyn vai sentar-se para negociar com os Presidentes, primeiros-ministros e chanceleres da Europa”. O facto é que a “linha vermelha” que resolveu delimitar foi ultrapassada (perdeu o dobro dos lugares no Parlamento e com eles a maioria absoluta que detinha) e não se demitiu, o que é bem demonstrativo do ser carácter.

Dentre as múltiplas atoardas a que Donald Trump nos tem vindo a habituar, uma das mais graves do ponto de vista político e diplomático foi o ataque lançado contra o mayor de Londres, dias depois do último ataque terrorista.

Além de insultar Sadiq Khan, chamando-lhe “patético”, ainda se imiscuiu na política interna dum aliado ao sugerir que os londrinos têm todas as “razões para estar alarmados” com a atitude do autarca. Claro que o faz apenas pelo facto de o mayor ser muçulmano, sendo que a sugestão encapotada é a de que um filho de imigrantes paquistaneses não pode ter lugar numa sociedade ocidental. Mas Khan tinha tido uma atitude exemplar ao condenar os actos terroristas com palavras muito duras. Perante isto o que fez a primeira-ministra britânica? Remeteu-se a um silêncio cobarde.

E o que é que isto tudo tem a ver connosco? Muito. Há muito milhares de emigrantes portugueses a viver em terras de Sua Majestade, que talvez tenham ficado um pouco aliviados com o resultado das eleições, pois um Brexit puro e duro à la May estará fora de causa, em princípio, devido à fragilidade política da (ainda) líder conservadora e do seu governo, entre os novos inquilinos do Palácio de Westminster.

Depois de ter garantido que o acordo entre conservadores e unionistas estava fechado, estes vieram esclarecer que continuam a negociar. Em vez de dama de ferro, como a sua inspiradora política, May tornou-se numa espécie de dama de pau carunchoso, que a qualquer momento se pode desfazer em pó. É uma questão de tempo.

 

Fonte: José Brissos-Lino, O Setubalense, 16/6/17.