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Mas as crianças, Senhor?

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Mas as crianças, Senhor, / porque lhes dais tanta dor?!… / Porque padecem assim?!…(Augusto Gil, Balada de Neve)

 

O facto de Joana Marques Vidal – actual Procuradora-Geral da República – ter tido em tempos processos de adopção (que hoje se sabe terem sido forjados e ilegais) nas mãos, para verificação, sem ter detectado qualquer irregularidade, torna ainda mais urgente uma investigação independente. Se a então responsável não detectou nada de anormal é porque alguém terá forjado documentos, falsificado assinaturas ou produzido relatórios falsos que levaram ao engano MP e tribunais.

O governo tem que tomar em mãos este assunto e criar uma comissão independente que analise toda a documentação e ouça as partes e testemunhas, a fim de apurar a verdade dos factos.

É necessário também saber qual foi o móbil do crime, isto é, o que terá levado às irregularidades e se houve algum benefício pessoal da parte dos técnicos intervenientes no processo.

Tenha ou não prescrito o crime de adopção ilegal, ou qualquer outro dos que certamente foram cometidos, importa clarificar tudo.

Antes de mais porque o grupo religioso que terá estado por detrás das ditas adopções ilegais é altamente controverso e recorrentemente suspeito de diversos crimes no país de origem, além de utilizar processos pouco transparentes de recolha de fundos, para lá do facto de não pagar impostos – por estar constituído como entidade religiosa – mas sem deixar de canalizar fundos apreciáveis para actividades comerciais e de carácter lucrativo, sem se perceber muito bem onde acaba uma e começam as outras.

Depois porque instituições do Estado ou por ele tuteladas como a Segurança Social, a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, o Ministério Público e os tribunais não se podem fechar em copas e assobiar para o lado, pois terão havido responsáveis pelas ilegalidades alegadamente cometidas.

Finalmente há a questão das vítimas, já que não terão sido salvaguardados os interesses dos menores nem tão pouco as legitimas aspirações dos seus familiares. Em particular o caso dos três irmãos levanta demasiadas interrogações e põe a nu inúmeras irregularidades, a fazer fé em diversas testemunhas já ouvidas pela comunicação social.

Como é lógico e do mais elementar bom senso, o inquérito interno do MP não oferece garantias de isenção. Não se pode ser juiz em causa própria. Só uma comissão independente, constituída em exclusivo por pessoas e instituições que não tenham sido parte nos referidos processos de adopção poderá vir a credibilizar as conclusões de qualquer inquérito de averiguações.

 

Fonte: José Brissos-Lino, O Setubalense, 19/1/18.

 

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A paranóia da corrupção

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Quem seguir minimamente imprensa, rádios e televisões nacionais, tanto as generalistas como as do cabo com vocação informativa, conta desde logo com um tema que abafa qualquer outro: a corrupção. Parece que vivemos num país mergulhado em corrupção, duma ponta à outra. Mas ficamos a saber que não é assim, em particular quando comparamos os indicadores nacionais com os de outros países.

Porquê então esta percepção generalizada?

Desde logo devido a uma comunicação social cada vez mais tablóide, populista e sensacionalista, que não só tem dificuldade em se auto-regular, como pensa de forma perversa – se é isto que a população quer é isto que terá. As tiragens, os shares e a publicidade a isso obrigam.

Este tipo de jornalismo (se podemos chamar assim) apoia-se na inveja social, limitando-se a lançar os holofotes sobre famosos, figuras públicas e pessoas com alguma notoriedade (em especial políticos, empresários, artistas e gente do futebol), na tentativa permanente de lhes descobrir falhas éticas, pontos fracos e falhanços que procura explorar a qualquer preço e de forma incansável. Coloca-se tanto empenho em glorificar um personagem como em abatê-lo à mais pequena oportunidade. Se dá gozo fabricar um herói, então ainda dá mais gozo abatê-lo e fazê-lo rastejar na lama.

Mas existe uma outra razão para este estado de coisas, em especial no tocante aos políticos e titulares de cargos públicos, que é o défice de cidadania. Quando se diz “eles”, as pessoas colocam-se imediatamente fora do sistema, como se “eles” fossem uns usurpadores dos poderes que detêm. Numa democracia “eles” não são uma súcia de malfeitores. Estão lá pelo voto popular e livre. Se “eles” estão no poder é porque a maioria do eleitorado votou nos partidos que os apresentaram, ou porque, abstendo-se de votar, permitiram que outros decidissem por eles.

Esta desresponsabilização do cidadão comum pela coisa pública começa por baixo, com a cunha, a pequena corrupção, a troca de favores, a fuga aos impostos, o desinteresse pelo bem comum, pelo progresso e bem-estar da comunidade e pelo meio ambiente.

Esta mentalidade do “Há governo? Sou contra!…” é parte da causa do nosso atraso endémico. Esta mania de falar mal das nossas elites, mas dobrar a espinha às elites estrangeiras é que nos tem condenado à irrelevância em Portugal, mas também ao reconhecimento do nosso valor e potencialidades no estrangeiro. Não, não é uma questão de salário, mas sim de postura perante o mundo.

Gabar o que se faz “lá fora” enquanto se despreza o país, é um dos nossos grandes problemas. Entretanto, os estrangeiros estão a descobrir Portugal e deliciam-se com a nossa terra.

 

Fonte: José Brissos-Lino, O Setubalense, 12/1/18.

 

“Nenhum livro da Bíblia foi escrito para ser relativizado”

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O fascínio que a Bíblia tem provocado no classicista Frederico Lourenço levou-o a apresentar um conjunto de textos sobre as suas leituras pessoais da Escrituras. Facilitado pelo seu profundo conhecimento do grego em que foi escrito o Novo Testamento e a Septuaginta, apesar de não ser um teólogo, FL tece um conjunto de interessantes reflexões sobre passagens, temas e figuras bíblicas. Leituras que são suas e com as quais podemos concordar ou não.

Desejos (porventura) ingénuos para 2018

2018

  1. Que Donald Trump comece finalmente a comportar-se como um estadista, ou pelo menos como um dirigente político mundial minimamente responsável, à altura da posição que ocupa.
  2. Que o futebol português deixe de ser o reino da mediocridade, da manipulação e da boçalidade, em termos de dirigismo, e passe a comportar-se com a dignidade inerente a um campeão da Europa.
  3. Que os jornais desportivos façam eco dos intervenientes no espectáculo (jogadores e treinadores) e não de dirigentes, empresários de jogadores, paineleiros e chefes de propaganda dos três grandes (intitulados eufemisticamente “directores de comunicação”).
  4. Que a comunicação social deixe de andar a reboque das redes sociais, focada na espuma dos dias e a fazer fretes a interesses inconfessados. Que deixe de andar a lançar gasolina no fogo, numa atitude tantas vezes provocatória, para depois filmar o incêndio e os consequentes estragos. Que deixe de amplificar fait divers que a ninguém interessam a não ser à mediocridade reinante. Que passe a concentrar-se nos reais problemas do país e nas questões que realmente importam, dispensando a manipulação emocional com que costuma brindar o público por tudo e por nada, confundindo todos os dias informação com entretenimento de mau gosto.
  5. Que o governo governe tendo em vista os interesses gerais do país e não das classes profissionais com maior poder reivindicativo. Que nunca esqueça os socialmente mais frágeis e os que não têm voz.
  6. Que a oposição assuma o seu papel, em vez de passar a vida a fazer processos de intenção e assassínios de carácter aos adversários. Que diga quais são as suas propostas políticas concretas, de forma consequente e sustentada, em vez do bota-abaixismo do costume.
  7. Que o presidente da república desempenhe com rigor a função para a qual foi eleito, não cedendo à tentação de querer ser rei ou exercer uma presidência paternalista, que diminua as instituições da democracia e o jogo democrático.
  8. Que o Acordo Ortográfico de 1990 caia de vez e para sempre.
  9. Que acabem em definitivo os mega-processos na justiça portuguesa.
  10. Que a Europa passe a ser mais dos cidadãos e dos povos, e menos dos bancos e das multinacionais.
  11. Que o papa Francisco consiga operar uma limpeza na cúria romana.
  12. Que o país aposte cada vez mais na educação e na formação dos portugueses.
  13. Que nos tornemos todos cada vez mais conscientes dos nossos direitos enquanto consumidores, mais proactivos em termos de cidadania e mais responsáveis no cumprimento dos nossos deveres.
  14. Que Setúbal se torne um concelho de referência, e cada vez mais atractivo, tanto pela qualidade de vida como pela dinâmica económica, na preservação dos seus valores culturais e do ambiente.

Bom Ano.

Fonte: José Brissos-Lino, O Setubalense, 5/1/18.

Medo de quê?

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Uma obra que, não sendo exaustiva, desmonta o machismo dominante nos meios eclesiásticos.  Escrito por um consultor pontifício para o diálogo ecuménico, fundador e prior duma comunidade monástica (e não por uma mulher!) põe a nu o pecado milenar da igreja cristã contra as mulheres (ed. Guerra e Paz, 2017).