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Palavras perdidas (1252)

«Numa famosa entrevista na televisão no final do ano passado, o ex-diretor-geral da Autoridade Tributária José Azevedo Pereira revelou que as 900 famílias mais ricas de Portugal, com património superior a 25 milhões de euros ou rendimento médio anual acima de 5 milhões, representavam uma percentagem irrisória da receita de IRS, da ordem dos 0,5 por cento, quando seria de esperar, de acordo com a lei, que pagassem 50 vezes mais. (…) Esta sensação de que existem na sociedade portuguesa dois grupos de pessoas, umas que tudo podem mas que nada devem e outras que pouco podem mas que devem tudo, a sensação de viver numa sociedade não só injusta mas profundamente corrompida, a sensação de impotência perante este estado de coisas, desacredita a democracia, destrói a participação cívica e corrói a sociedade. (…) Os ricos que paguem a crise? Não. Os ricos que paguem o que devem. Apenas isso.»

José Vítor Malheiros, Os ricos que paguem o que devem

Palavras perdidas (1251)

«Um jornalista radical, Serge Halimi, escreveu um dia que desde que os jornalistas começaram a viver com os salários das classes altas, nos bairros das classes altas, a ir aos restaurantes das classes altas, começaram instintivamente a defender os interesses das classes altas, dos banqueiros, dos grandes empresários, e a ignorar os trabalhadores comuns que sobreviviam com dificuldades. Num passado remoto, o jornalista era um operário como os outros. Depois dos anos 80, as coisas mudaram. (…) O facto de o país comentador ter vindo abaixo com o anúncio de um novo imposto para o património mais elevado, que vai substituir o imposto de selo criado pelo governo Passos/Portas, prova que quem tem acesso à televisão não conhece o país em que vive, onde o salário médio é de 800 euros e a acumulação de património com valor tributário de 500 mil euros é uma raridade.»

Ana Sá Lopes, O país que passa na televisão está cheio de ricos

Contraste chocante

Cristiano Ronaldo deu ontem uma lição de vida e desporto a Talisca. Mostrou como se comportar de forma digna quando se marca contra a antiga equipa que fez de si jogador. CR7 marcou um golo fenomenal, quase ao cair do pano – tal como o de Talisca na Luz foi um grande golo – mas não festejou, apesar de estar na sua “casa”, o Bernabéu, ao contrário do brasileiro, que festejou efusivamente, mesmo na Luz.

É de tal forma chocante o contraste entre o comportamento dos dois que nem é preciso dizer mais nada. Mas podíamos falar ainda da mentira de Talisca contra o Benfica, que este já desmontou pela apresentação do contrato. Não sou sou Sporting nem do Real Madrid, mas acho sempre injusto o velho hábito português de atacar Cristiano, quando ele é um exemplo acabado de atleta e de pessoa. Já o Talisca…

 

Tratar Kant ao pontapé

Juiz Carlos Alexandre

Bem afirmou Carlos Alexandre – na célebre e longa entrevista biográfica à SIC – que não tinha tempo para estudar, escrever artigos ou livros e ir a acções de formação. João de Almeida Santos dá um pequeno mas perturbador exemplo da incoerência (ou incompetência) teórica e científica do magistrado, neste trecho dum artigo publicado no jornal O Tornado.  

“Disse também que não é homem de quem se deva ter medo, porque cultiva a lei moral de Kant, ou seja: ‘age de uma forma tal que queiras que os outros ajam em relação a ti da mesma maneira´. O que é, também este, um deslize, desta vez filosófico: a lei moral de Kant (veja-se o Corolário do §7, Cap. I, Livro I da Crítica da Razão Prática, de 1788), ou seja, o ´imperativo categórico´ (´a lei fundamental da razão pura prática´), diz, sim, na Fundamentação da Metafísica dos Costumes (1785):

‘Age só segundo aquela máxima que tu podes querer que, ao mesmo tempo, se torne numa lei universal’ (´handle nur nach derjenigen Maxime, durch die du zugleich wollen kannst, dass sie ein allgemeines Gesetz werde´). O que não é a mesma coisa. Neste, a acção vale por si e por isso pode ser elevada a norma universal.

Ou seja, o imperativo categórico não resulta de um mero desejo de reciprocidade na acção moral, do tipo ´não faças aos outros o que não queres que façam a ti´! E não resulta porque o móbil aqui é o interesse. Que é diferente da universalidade e da racionalidade da lei moral!”