Arquivo da categoria: Actualidade

Confiança ou a falta dela

crimes-economicos1472652217 (1)

 

O exercício de cargos públicos, sejam eles de carácter electivo ou não, baseia-se sempre num pressuposto de confiança por parte dos cidadãos nos indivíduos que os desempenham a cada momento, uma vez que os representam e exercem um poder que lhe entregam em mãos, por via directa, no caso dos eleitos, ou indirecta, no caso dos nomeados.

Pode-se dizer que a legitimidade funcional de tais responsabilidade de cidadania, na polis, procede dessa coisa a que chamamos confiança. Ou seja, trata-se duma relação fiduciária.

Embora o princípio da confiança no desempenho de determinados cargos não seja exclusivo da coisa pública, uma vez que também no mundo empresarial e associativo se verifica, entre outros âmbitos, mas a verdade é que no caso da vida pública os mandatos se exercem em nome de toda a sociedade de um país e não apenas de um universo limitado de accionistas ou de associados.

Vem isto a propósito dos candidatos que se apresentam às eleições autárquicas e que foram condenados em tribunal, tendo alguns cumprido pena de prisão efectiva. A lei permite-o, mas não devia.

Dir-me-ão que qualquer cidadão condenado e com a sua pena já cumprida nada deve à sociedade, não lhe podendo ser limitados os seus direitos políticos. Permitam-me discordar.

No caso de quaisquer outros condenados é óbvio que não deve pesar sobre os tais qualquer impedimento que lhes permita refazer a sua vida profissional e social. O alvo é e deve ser sempre a reabilitação e recuperação social e humana dos criminosos, mas ninguém põe a trabalhar num banco um antigo assaltante de bancos ou como babysitter alguém que já cumpriu pena por abuso sexual de menores… Uma coisa é procurar criar todas as condições para reinserir socialmente os ex-reclusos, outra é colocar a raposa a tomar conta do galinheiro.

Aliás, alguns sectores profissionais como as forças de segurança – e não só – exigem aos candidatos o certificado de registo criminal limpo, justamente devido ao princípio da confiança. Então, se um ex-criminoso não pode ser polícia, porque razão poderá ser presidente de câmara?

Alguns ex-criminosos estão a tentar um regresso à política através da interpretação perversa da legislação que permite as candidaturas independentes, completamente contra o espírito da lei. Não foi para isto que se criou esta lei.

Só uma sociedade adormecida na sua cidadania está disposta a premiar o crime, por muito competente que o ex-criminoso pareça ser. Todos conhecemos a célebre frase de Paulo Maluf, o famoso político brasileiro que dizia: “Eu roubo mas faço!”…

 

Fonte: José Brissos-Lino, O Setubalense, 18/8/17.

 

Não é hora de ficar calado

Isto é o que membros da Administração Trump e alguns líderes cristãos americanos estão a defender. Seis ou sete neonazis a espancar e tentar matar um jovem negro, que consegue fugir, ensanguentado. “Morre, negro!”, é o que se ouve (ver vídeo).

Violência gera violência.

Os Estados Unidos tiveram uma única guerra civil (1861-1865) por causa do racismo, mais tarde a luta pelos direitos civis, nos anos sessenta, que foi regada com o sangue de mártires como o Pr. Luther King, conseguiram eleger um presidente afro-americano, pela primeira vez (2009-2017), e agora parece que alguém está apostado em fazer a História voltar para trás, em especial desde que Trump levou para a Casa Branca o supremacista branco Steve Bannon.

Compete à Igreja elevar uma voz profética, à semelhança dos profetas do Antigo Testamento e em obediência ao Evangelho. Tudo quanto for menos do que isso é vergonhoso e lamentável.

 

Franklin Graham prestou um mau serviço à América

Trump-Graham-640x480

 

Lamento, mas não posso continuar calado.

Quando os nacionalistas brancos marcharam nas ruas de Charlottesville a destilar ódio, agredir e matar, Graham resolveu culpar o governador e quem decidiu a remoção de um monumento racista da cidade, com o argumento de que “deveriam ter sabido” que a decisão não seria popular entre a extrema-direita.

O filho de Billy Graham aponta o dedo constantemente aos autores de ataques terroristas quando são muçulmanos, acusando todo um sistema de crença islâmico e afirmando que “estamos em guerra com o Islão”. Mas desta vez tentou a habilidade de condenar toda a gente menos os arruaceiros e assassinos supremacistas brancos, ou a ideologia nacionalista anti-cristã que professam.

E acrescentou que fazer a ligação natural entre a ideologia de Trump e a dos terroristas de Charlottesville (não lhes chamou assim, como é evidente!) é simplesmente uma tentativa de “Satanás dividir os cristãos”, numa altura em que Trump está a perder grande parte do apoio das igrejas.

Mas todos sabemos que os supremacistas brancos integram a base de apoio político do presidente. Daí ele ter resistido a condená-los, durante dois longos dias, só o fazendo depois de ter sido alvo de duras críticas de toda a classe política, incluindo do seu partido e de ter visto vários colaboradores seus demitirem-se em protesto, na Casa Branca.

A ideologia essencial destes grupos (Ku Klux Klan, alt-right, neonazis, movimento nacional socialista ou Partido Americano da Liberdade) é a de que a raça branca é superior a todas as outras e, por isso, deve dominar a sociedade. O KKK, por exemplo, nasceu em meados do século XIX num Sul que não aceitava a derrota na Guerra Civil americana e o fim da escravatura.

Ora, tal filosofia é profundamente anti-cristã e anti-bíblica, como é bom de ver, e chegou a dividir a poderosa Convenção Baptista do Sul há uns meses.

Os criminosos de Charlottesville vieram descrever publicamente Heather Heyer, a mulher brutalmente assassinada por um jovem nazi, admirador de Hitler, como “uma vadia gorda de 32 anos e sem filhos”. Segundo o DN, a declaração em questão dizia que “muitos estão felizes por Heather ter morrido porque ela era ‘a definição da inutilidade’ e um fardo para a sociedade por não ter filhos – mulheres sem filhos são buracos negros que sugam dinheiro e energia”.

É tristemente curioso ver como Franklin Graham, enquanto líder espiritual americano de relevo, não é capaz de ter uma única palavra de condenação para este tipo de comportamentos, preferindo apoiar cegamente um presidente sem valores nem ética, e cobrindo assim de vergonha todo o povo cristão americano.

E a mim também.

 

O meu amigo Luís Gonzaga lembrou oportunamente que em 1943, o departamento de guerra dos Estados Unidos lançou este vídeo para dizer aos americanos que rejeitassem a retórica fascista. 74 anos depois, este vídeo é profundamente actual. Lembremo-nos todos de que, como escreveu Edmund Burke: “tudo o que é necessário para o triunfo do mal é que os homens bons não façam nada”.

 

Dois golos fantásticos

sf

O golo do Sferovic não é menos fantástico do que o do CR7, só menos espectacular. Quem diz que foi um frango do guarda-redes do Chaves, só porque a bola lhe passou debaixo da pernas, não sabe o que diz, ou quer desvalorizar a obra de arte do suíço.

O guarda-redes tem um colega de equipa à frente, num espaço muito exíguo e apenas pode fazer a mancha. Ninguém contava era com um toque em jeito e improvável, pelo sítio mais difícil. A beleza do futebol está nisto, não no lixo que todos os dias as televisões nos trazem.

Alt-PSD

Pedro Passos Coelho, inaugura edifícios centrais do Parque Tecnológico de Óbidos

“We are what we pretend to be, so we must be careful about what we pretend to be.”

Kurt Vonnegut

No seu discurso no Pontal, Passos Coelho disse que não queria “qualquer um” a viver em Portugal. Nestes tempos mediáticos, por uma questão de precaução e de sanidade mental, sempre que ouço uma afirmação polémica como esta, desconfio. Infelizmente, a declaração de líder do PSD consegue ser ainda pior em contexto.

Em primeiro lugar, o seu timing. Este discurso foi proferido num fim de semana marcado por uma sangrenta manifestação nazi nos Estados Unidos. Antes destes acontecimentos, o PSD havia reiterado o seu apoio a um candidato autárquico que proferiu declarações racistas, recebendo o apoio do PNR e o repúdio do CDS.

Em segundo lugar, a afirmação completa consegue ainda ser pior. Passos não diz apenas que não quer qualquer um a viver em Portugal, mas que caso isso aconteça o país deixará de ser seguro. Segundo Passos, os estrangeiros, qualquer um deles, são assim uma fonte de insegurança e violência, ao contrário dos portugueses, que são todos cumpridores da lei.

Em terceiro lugar, revela um complexo de classe. O primeiro governo liderado por Passos criou o “visto gold”, que permitia a entrada no país a qualquer um que tivesse determinado dinheiro para gastar. Presumo que na visão de Passos criminalidade seja incompatível com riqueza.

Por outro lado, este discurso xenófobo e nacionalista parece incompatível com os seus discursos anteriores, segundo os quais os portugueses eram uns piegas que viviam acima das suas possibilidades, ao contrário dos exemplares povos do norte da Europa.

Passos Coelho nunca teve uma consistência de pensamento ou de ideologia, foi sempre modificando segundo as tendências mais recentes. Ele é uma espécie de Spinal Tap da política, mas pelo menos devia seguir o conselho de Vonnegut e ser mais cuidadoso com o que finge ser.

 

Fonte: CRG, 365 Forte.