E contudo apetece-me dizer Natal

 

 

E contudo apetece-me dizer Natal

como quem nada em lago seco

ou voa num céu fechado

apetece-me dizer Natal fora do reino

dos cifrões

apetece-me dizer Menino

à revelia dos herodes deste reino

chamar os pastores pelo nome

e os magos a servi-los à mesa

para espanto dos burros e vacas

desta vida.

 

 

© José Brissos-Lino

19/12/14

Natal com fome

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De acordo com as conclusões de um inquérito realizado este ano pela Associação Portuguesa para a Defesa do Consumidor (Deco), pelo menos 40 mil idosos portugueses não têm capacidade financeira para comprar alimentos. A principal razão é o custo dos produtos alimentares que é caro demais para as suas possibilidades. O estudo da Deco constou de um questionário a que responderam 3400 idosos, com idades entre os 65 e 79 anos, e concluiu que “o preço é o factor que mais decide a escolha” dos alimentos para 64 por cento dos inquiridos, seguindo-se o sabor e a qualidade dos alimentos.

Os autores da investigação apuraram que três por cento dos inquiridos passou fome na semana anterior a responderem ao questionário. Sete por cento dos inquiridos não tomam o pequeno-almoço, sendo as regiões do Norte, Centro e Alentejo as que têm mais inquiridos a “comer mal”. Preferem a carne ao peixe devido ao facto deste ser muito caro para as suas possibilidades, apesar de 25 por cento se queixarem de problemas dentários. Consomem doces em excesso e os homens também álcool a mais. 76 por cento dos portugueses têm hábitos alimentares pouco saudáveis, que pioram com o avançar da idade.

A difícil situação económica e a falta de autonomia influenciam negativamente uma coisa tão básica como a alimentação dos idosos, mas também a falta de apetite e o efeito dos medicamentos, em especial nos doentes crónicos.

Como estamos nós a tratar os nossos idosos neste tempo de Advento? Quantos deles passarão sozinhos a Consoada, a sofrer dessa doença contemporânea chamada solidão? Quantos são afastados do convívio familiar ou simplesmente tolerados, impedidos de estar com os netos ou deixados ao abandono em qualquer lar ilegal?

O Natal representa acima de tudo comunhão (koinonia). Deus fez-se homem, através da Encarnação de Jesus Cristo. Ele é o Emmanuel (Deus connosco). Com a chegada dos reis magos, uniram-se Oriente e Ocidente à volta de um Deus-Menino que é de todos os povos e nações, sem excepção. Caíram as barreiras sociais juntando pastores e nobres, e o céu desceu à terra com o coro de anjos na noite de Belém. Mais. O ambiente geral foi de alegria (“novas de grande alegria”) e celebração. Como é então possível ser indiferente aos que estão desamparados, sozinhos e tristes?

Durante a Primeira Grande Guerra, a noite de Natal protagonizou um momento de tréguas entre combatentes inimigos. Há momentos em que as diferenças entre seres humanos se tornam insignificantes e mesmo ridículas, face a valores mais altos.

 

Fonte: José Brissos-Lino, O Setubalense, 19/12/14.

 

Consciência selectiva

 

Este governo, que obrigou jovens e mais velhos a emigrar, está agora muito incomodado porque parte dos nossos emigrantes não podem vir cá passar o Natal, devido à greve da TAP. Deve ser um problema de consciência. Mas será consciência selectiva, por certo, uma vez que essa mesma consciência não estica até ao ponto de evitar a venda de uma companhia, apenas por razões ideológicas (o memorando da troika não exigia a venda total!) e politicamente ilegítima (quando está em fim de mandato e tudo indica que venha a perder as eleições). Gostava de saber quem é o membro do governo que vai para a administração da companhia quando ela for privatizada. Palavra que gostava.

Os Portugueses

naom_53f31da5884feFoto: Michal e Hania Mackowiak.

 

Por mares nunca de antes navegados / Passaram ainda além da Taprobana (Luís de Camões)

 

 

eis que vão eles de novo

centríptos

à procura de mundo

por mares nunca antes esquecidos

partindo duma praia ocidental de barões

não assinalados

 

eis que vão, sem armas nem esperança

dobram de novo o Cabo das Tormentas

e espalhados entre gente remota

edificaram um novo reino

sem retorno.

 

 

© José Brissos-Lino

18/12/14

“Alegrai-vos porque já achei a minha ovelha perdida” (Lc 15:6); “Ovelhas perdidas foram o meu povo, esqueceram-se do lugar do seu repouso” (Jr 50:6).

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