Publicado por: A Ovelha Perdida | Novembro 14, 2009

Florbela, a que espanca a dor

Florbela Espanca (Carlos Bottelho, 2008)

“Versos! Versos! Sei lá o que são versos…
Pedaços de sorriso, branca espuma,
Gargalhadas de luz, cantos dispersos,
Ou pétalas que caem uma a uma…”

(Versos, Poesia Completa, ed. Bertrand, 2009)

Ler os poemas de Florbela Espanca, hoje, passado cerca de um século, parece um exercício de estranho masoquismo. Com efeito, a escritora recorre de forma quase obsessiva a palavras e expressões nostálgicas, tristes e depressivas, e fá-lo na primeira pessoa, criando assim um ambiente poético cinzento, enquanto pinta constantemente o retrato abatido de uma alma sofredora e profundamente infeliz.

Toda a estética da morte está muito presente nos seus versos (cemitério, caixão, morrer, cova, túmulo, morta, esquife negro, mortalha, fria), o que se afigura surpreendente, à partida, tratando-se de uma mulher tão jovem.

A fatalidade e a falta de sorte (explicitadas quase de forma paranóica) são outras traves mestras dos seus escritos, como se o mundo inteiro se tivesse mancomunado contra ela, com vista a infligir-lhe uma dor insuportável:

“má hora em que nasci”

“tenho pena de mim”

“ficamos abraçados a chorar”

“nossas duas sinas tão contrárias”

“no fadário que é meu”

“neste penar”.

É claro que Florbela evidencia um forte sentimento patriótico, durante a Grande Guerra, escrevendo, em 1916, referindo-se certamente ao Corpo Expedicionário Português, a combater em França:

“Protegei os que andam pela guerra
A defender o seu torrão natal!”

Mas vai mesmo mais longe, quando afirma:

“A Pátria rouba os filhos, mas é mãe
A mãe de todos nós
Direito de a trair não tem ninguém
Ó mães nem sequer vós!”

Outras vezes recorre a imagens poéticas muito conseguidas, como no soneto “Neurastenia“:

“Lá fora, a chuva, brancas mãos esguias,
Faz na vidraça rendas de Veneza…”

O tema central da sua obra poética é o amor não correspondido, e nisso não é original:

“Voltaram as andorinhas…
E tu não voltaste ainda!…”

Mas há também o tema da paixão, do amor, muito platónico, muito centrado em beijos e abraços.

“Eu quero viver contigo
Muito juntinhos os dois
O tempo que dura um beijo,
Embora eu morra depois.”

Mais do que isso, há um grito, uma espécie de súplica constante por amor, nos seus versos. Amor sem o qual a vida não faz sentido:

“Que viver neste mundo sem amar
É pior que ser cego de nascença!”

Florbela escreveu dois dos melhores sonetos de sempre, em língua portuguesa, os famosos “Amar” e “Ser poeta” (soberbamente musicados, aliás), que expressam bem os dois eixos da sua vida: as venturas e desventuras do amor que tanto ansiava – sendo que, sem ter alguém a quem amar e que correspondesse a esse amor, a vida não valeria a pena – e a complexa e dolorosa condição de poeta que foi a sua.

No dia de anos do pai dedica-lhe um poema sombrio e estranho, no mínimo:

“Por que em tu morrendo / Ficamos sem um abrigo”

“Mas se tu nos morreres / Somos três desgraçados”

“Pensa na batota / E não penses em morrer.”

O mais curioso é que Florbela tinha apenas nove anos de idade quando escreveu isto…

Filha ilegítima, de pai incógnito, só dezoito anos depois da sua morte veio a ser reconhecida como filha pelo seu pai, embora ele a tenha acarinhado desde sempre. Depois de casada sofreu um aborto involuntário, que lhe deixa sequelas físicas, e provavelmente emocionais. A sua vida amorosa é conturbada, e um novo aborto e um novo divórcio terão agravado o seu estado emocional e mental.

Literariamente influenciada por Balzac, Dumas, Camilo Castelo Branco, Guerra Junqueiro e Garrett, não admira que o fatalismo e a dramaticidade associados à vida madrasta que teve lhe tenham dado o tom para o quadro quase sempre cinzento que percorre a sua escrita. Chama, sintomaticamente, ao seu primeiro livro de poemas, Livro de Mágoas (1919).

Frustrada por não ser capaz de levar avante as suas gravidezes e não conseguir ter filhos, exprimiu assim o seu sentimento:

“Eu sofro pelas saudades
Dos filhos que nunca tive!…”
, ou então:

“Ver descer sobre o ninho aconchegado
A bênção do Senhor em cada filho.”

Mas não deixou a poeta de se aventurar também pelos caminhos do erotismo, ainda que de forma tímida, como no soneto “A tua voz na Primavera”:

“Meus pequeninos seios cor-de-rosa,
Se os roça ou prende a tua mão nervosa,
Têm a firmeza elástica dos gamos…”

Os seus trinta e seis anos tumultuosos, inquietos e sofridos não resistiram ao diagnóstico médico de um edema pulmonar que a levou ao suicídio, conseguido à terceira tentativa, justamente no dia do seu aniversário. Uma história de vida trágica, agravada pela morte do irmão, falecido num acidente aéreo, desgosto do qual que ela nunca conseguiu recuperar.

É como se Flor Bela de Alma da Conceição tentasse espancar a dor crónica na sua vida, através da arte poética, numa espécie de exorcismo literário, mas sem sucesso. E por fim desistisse de tudo, como no soneto “Eu”, que começa assim:

“Eu sou a que no mundo anda perdida,
Eu sou a que na vida não tem norte,
Sou a irmã do Sonho, e desta sorte
Sou a crucificada… a dolorida…”

Se ao menos conhecesse a Graça divina, nunca Florbela Espanca teria escrito uma frase trágica como esta (“Quem?…”):

“És sorriso de Deus que não mereço…”

Publicado por: A Ovelha Perdida | Novembro 14, 2009

Palavras perdidas (505)

“Isabel, a Católica, cometeu mais atrocidades em nome da fé, do que Nero em nome dos seus vícios.”

(Will Durant)

Publicado por: A Ovelha Perdida | Novembro 13, 2009

Portugal aposta nas energias alternativas

Neste caso, a energia eólica. Ver aqui.

Publicado por: A Ovelha Perdida | Novembro 13, 2009

Contradições políticas

(Via Genizah)

Publicado por: A Ovelha Perdida | Novembro 13, 2009

Claude Lévi-Strauss: o antropólogo da alma

Morreu em 30 de Outubro o homem que devolveu a alma aos indígenas das Grandes Antilhas e aos brancos Espanhóis, após a descoberta da América. Uns enviavam comissões para se saber se os índios tinham alma, e outros afogavam os descobridores europeus para verificarem se os cadáveres entravam em putrefacção.

Ler artigo completo, de J.T.Parreira, no Papéis na Gaveta.

Publicado por: A Ovelha Perdida | Novembro 12, 2009

Palavras perdidas (503)

“Cristo quer que a verdade seja preferida a ele próprio, porque antes de ser Cristo ele é a verdade. Se alguém se distancia dele para ir à verdade, não dará muitos passos sem cair nos seus braços.”

(Simone Weil, via Ab-integro)

Publicado por: A Ovelha Perdida | Novembro 12, 2009

Bebeu? Apanhou!

Se fosse cá, os jogadores de futebol andavam quase todos com as costas marcadas das vergastadas. Podemos viver sem isso? Podemos, mas não é a mesma coisa… Leia aqui.

Publicado por: A Ovelha Perdida | Novembro 12, 2009

Muros, há muitos

A celebração da queda do muro de Berlim, sucedida há vinte anos, suscita algumas reflexões.

Desde logo, é necessário recuar até à razão que levou à construção do muro. Por alguma razão os alemães de Leste passavam-se para o Ocidente, mas o contrário não era verdade.
Depois o muro foi construído à traição, em tempo recorde e sem aviso prévio, e quando os berlinenses se aperceberam estavam divididos fisicamente.

Seguiram-se vinte e oito longos anos de ignomínia. As famílias não se podiam reunir, e quem tentasse fugir era abatido a tiro pelos guardas da Alemanha comunista. O muro representou, portanto, um atentado à liberdade, a destruição de laços familiares, a manutenção de um país dividido, e a sustentação de um regime em que uns andavam de Mercedes, Audi, BMW e outros a pé, à espera, durante anos, de ter a sorte de poder comprar um carrinho de bonecas mais conhecido por Trabant.

A destruição do muro da vergonha era uma questão de tempo, mas como o império soviético começou a ruir, a “cortina de ferro” esboroou-se como se fosse feita de gesso. A excitação e a alegria dos berlinenses, naquele dia especial de 1989, constituiu a prova de que não há muros que suportem para sempre a luta pela liberdade de um povo.

Mas talvez não fosse má ideia reflectir noutros muros que se estão a levantar na Europa, estes invisíveis, mas nem por isso menos graves e maléficos. Muros de intolerância, muros de discriminação, muros sociais, muros de corrupção, muros de indiferença, muros de sectarismo.

Sejamos capazes de deitar abaixo toda a espécie de muros levantados entre os seres humanos.

Fonte: Brissos Lino, Setúbal na Rede, 10/11/09.

Publicado por: A Ovelha Perdida | Novembro 12, 2009

Palavras perdidas (504)

“Precisamos da ficção para encontrar sentido no real.”

(Antonio Muñoz Molina, via Pavablog)

Publicado por: A Ovelha Perdida | Novembro 11, 2009

O cristão pós-moderno

O cristão pós-moderno come. Come muito. É insaciável. Está sempre com comida de plástico na mão, pronto a deglutir. Come qualquer coisa desde que não lhe dê muito trabalho a mastigar. Aliás, ele não mastiga, apenas engole. E por isso passa ciclicamente por dores de estômago, que atribui a causas desconhecidas ou a um chato dum desmancha-prazeres a que chama diabo.

O cristão pós-moderno conhece todas as marcas de fast food e está sempre atento às campanhas publicitárias de novos produtos. Um novo hamburger, um novo donut, um novo cachorro-quente, uma nova cola ou refrigerante. Mas não é capaz de dar um copo de água a quem tem sede. Tudo sabe, tudo conhece. Não há novidade que lhe escape.

O cristão pós-moderno está gordo, tem peso a mais. É extremamente sedentário. Limita-se a receber calorias em excesso, mas quer sempre mais. Mais um livro, com uma nova revelação de quem acabou de descobrir a pólvora, mais um CD de louvor xpto, com canções iguais a milhentas outras que já conhece, mais um DVD com uma alta produção de quinhentos músicos em palco, mais uma pregação de uma estrela do universo tele-evangélico, pensada e encenada para impressionar.

O cristão pós-moderno domina as tecnologias da informação. Acede aos blogues e sites dos famosos, segue-os no Twitter, está presente nas redes sociais, e pesquisa abundantemente na internet, sobre os mais variados assuntos, de preferência sobre escatologia e temas tão ou mais controversos do que este.
Esta overdose de informação dá-lhe bases para debitar uns soundbites sobre isto e aquilo, embora não consiga ter um pensamento estruturado, mas nada do que recebe tem qualquer impacte sobre o seu carácter e vida pessoal.

O cristão pós-moderno julga-se perfeito nas formas, como o homem vitruviano. Porém, está doente, gordo, feio e nu. E não sabe.

Publicado por: A Ovelha Perdida | Novembro 11, 2009

Surf

Inédito de J.T.Parreira

 


Surfar na tábua de passar
a roupa limpa, retirar vincos
que o coração faz, deslizar
o calor do ferro como marca
de posse, dissolver até ao branco
camisas, vestidos, pares de calças
para esconder a nudez mais pura.
Surfar na tábua até passar
o caos, até à ordem
do caleidoscópio das cores
até das aves estampadas
no céu azul das blusas.

J.T.Parreira

Publicado por: A Ovelha Perdida | Novembro 11, 2009

Ainda sobre muros

O lendário grupo musical Pink Floyd editou, em 1979, um álbum de ópera rock que viria a ser um best-seller mundial com mais de 30 milhões de cópias vendidas. «The wall», ou o «O muro» era a história da vida de um anti-herói chamado Pink, o qual era constantemente deitado por terra por parte da sociedade. Para se proteger dessa sociedade que constantemente o desvaloriza, Pink foi construindo um muro imaginário criando a sua zona de segurança. Cada má experiência que tinha na vida era «mais um tijolo no muro». E, pouco a pouco, Pink foi tomando consciência da necessidade de derrubar o seu muro e abrir-se ao mundo que o rodeava. Era Rousseau que se referia ao facto de que o homem nasceu livre mas em todos os lugares estava acorrentado. Muros individuais, interiores, que referimos agora, dão origem a estes muros colectivos, exteriores que referimos de seguida.

Leia o artigo completo aqui.

Publicado por: A Ovelha Perdida | Novembro 11, 2009

Palavras perdidas (502)

“O poder não está em acumular informação, mas em distribuí-la.”

(Vint Cerf)

Publicado por: A Ovelha Perdida | Novembro 10, 2009

Earth Song – Michael Jackson (legendado em Português)

(Colaboração: Rui Serodio)

Publicado por: A Ovelha Perdida | Novembro 10, 2009

Palavras perdidas (501)

“O mal é tão mau que não podemos imaginar o bem senão como um acaso; o bem é tão bom, que ficamos com a certeza de poder explicar o mal.”

(G. K. Chesterton. O homem que era 5ª feira, ed. Portugália, p. 168, via Canto do Jo)

Publicado por: A Ovelha Perdida | Novembro 9, 2009

A liberdade é um chão plano

E de repente
como um vento veemente e impetuoso
caiu o muro de separação
entre irmãos
a marca da ignomínia
de uma tirania vermelha
em nome do povo

naquele dia bolsas de alegria
transbordaram
escorreram por ambos as faces
do muro
e os olhos aproximaram
eternos vizinhos
impossíveis

também sou berlinense
também ajudei a destruir
o muro de todas as vergonhas
também vejo a liberdade
como um chão plano
igual para todos os homens.

Brissos Lino
9/11/09

Publicado por: A Ovelha Perdida | Novembro 9, 2009

Berlim:28 anos de vergonha

13 de Agosto de 1961. Eu tinha sete anos de idade. A consciência do que esperava a Europa, a partir dessa manhã cedo, era para mim completamente inexistente. Nessa altura eu só pensava em brincar e aprender as primeiras letras na escola primária.
Só mais tarde me habituaria a ouvir os adultos falar da “cortina de ferro”, “muro da vergonha” e, pela forma como falavam, dei comigo a associar a expressão a alguma coisa má. Mas não mais do que isso.
Os anos passaram e, pouco a pouco, começou a sobrar-me na adolescência a consciência que faltara em criança sobre a realidade da Europa e particularmente de uma europa “rasgada”, contranatura, em dois blocos distintos e bem marcados. De um lado os “bons”, do outro lado os “maus”. Foi sempre assim que nos abriram a história para que a aprendêssemos. Confesso que, derrubada a fronteira do tempo, me resta ainda hoje uma dúvida, mais dialéctica do que conceptual: saber quem são os “bons” e os “maus”.
Vivia-se, nesse tempo, na pequena vila de Lavre, ao ritmo do pulsar dos sentimentos e das conversas em surdina dos trabalhadores rurais alentejanos, oprimidos, sovados, torturados pela polícia política, a P.I.D.E. em conluio com a G.N.R., e explorados pelo regime político vigente então, a ditadura do estado novo de Salazar de que os grandes latifundiários do Alentejo eram cúmplices e beneficiários directos.
Não foi preciso muito para que percebesse o que se passava na Alemanha, saída, nove anos antes de eu nascer, da segunda guerra mundial.
Nessa manhã, em 1961, os soviéticos despertaram os Berlinenses com o ruído de uma barreira de homens e arame farpado, construida à pressa, e que apanhou, literalmente, toda a gente de surpresa. Mais do que rasgar uma cidade, dividiu pessoas, famílias, casais, namorados, noivos, pais, filhos, avós, netos. Ao dividir feriu de morte o futuro de um país que se encerraria por detrás de um muro durante 28 anos, até ser deitado abaixo, não sem que antes tivesse sido a causa de centenas de mortes de pessoas que arriscaram tentar a fuga para Ocidente e que cairam às balas dos guardas orientais do muro.
Vimos as imagens desse dia e comovemo-nos. A liberdade é realmente um valor universal e incontornável.
Emocionamo-nos igualmente quando sabemos ter tido a igreja evangélica, em algumas cidades da antiga RDA, um papel fundamental no despoletar de um movimento cívico que acabaria com a reabertura, forçada numa noite, pacificamente pelo povo, das fronteiras para o Ocidente e não só na Alemanha. Já lá vão 20 anos; mas claro, disso, desse papel corajoso de pastores e responsáveis de algumas igrejas evangélicas na antiga Alemanha de Leste, provavelmente não se vai falar muito.
Hoje, quando se celebram vinte anos do derrube ( prefiro o vocábulo “derrube” ao vocábulo “queda” para que não paire a ideia de que caiu por si só…) do muro de Berlim, faz mais sentido para mim a palavra de Deus: “se Cristo vos libertar, sereis verdadeiramente livres”.
.
Fonte: Jacinto Lourenço, Ab-integro.

Publicado por: A Ovelha Perdida | Novembro 9, 2009

Salmo em Éfeso

Inédito do meu amigo poeta J.T.Parreira

Os lobos apareceram no dia seguinte.
Os lobos vieram com os olhos
em baixo, o sangue sob a pele
de cordeiros,
lobos sem uivos.
E logo as ovelhas tremeriam
seu fôlego contra os lobos.
Não importa o crepúsculo
os temores róseos do crepúsculo
o trovão acordaria a sonolência
dos cordeiros, o silêncio
em guarda do rebanho
iria substituir os seus balidos.

J.T.Parreira

Publicado por: A Ovelha Perdida | Novembro 9, 2009

Fazer muitas omoletas com poucos ovos

Os seis anos da história de vida da Universidade Sénior de Setúbal (UNISETI) são testemunha de como é possível erguer projectos de vocação social sem apoios oficiais ou no âmbito do mecenato.
Com efeito, esta instituição ousou vingar, apesar das imensas dificuldades sentidas nos primeiros anos, e tornar-se rapidamente uma resposta social que a cidade reclamava, à semelhança do que tem vindo a suceder por esse país fora.
É tempo de o governo central colocar os olhos neste movimento das universidades da terceira idade (UTI’s), que já são cerca de 120, no Continente e Ilhas, estando agora a nascer instituições do género também entre as comunidades portuguesas no estrangeiro. Já tentámos sensibilizar deputados e membros de partidos políticos para esta nova realidade, mas por enquanto prevalece a inércia do costume.
É fundamental que o governo da república encontre formas de apoiar este trabalho, tão importante do ponto de vista social e cultural, da valorização e dignificação da pessoa idosa, e que desempenha uma função relevantíssima em termos de saúde pública. Mas que seja capaz de resistir à tentação de estragar o bom que está feito, através de regulamentações autistas e desenquadradas da realidade, com base em formulações teóricas de quem só conhece o país e as instituições sentado atrás de uma secretária, como vai sendo hábito.
Mas é necessário ir mais longe. Desenvolver uma nova filosofia social que encare os seniores não mais como um peso morto, como até aqui, mas como um activo social de valor, quer pelo vivido, quer pelas competências pessoais e profissionais específicas de que dispõem e que uma sociedade avisada e sensata não pode deitar pela borda fora, sob pena de se condenar a si mesma à insignificância e ao insucesso.
Durante estes seis anos a UNISETI tem cumprido um papel fundamental na sociedade setubalense, e vai continuar a desempenhá-lo. Continua a dispor de um potencial de crescimento muito grande, e vai continuar a crescer.
Preza muito a sua autonomia dos poderes políticos, religiosos ou sociais de qualquer ordem, e vai continuar assim, a assumir-se como casa comum de todos os que vierem por bem, independentemente dos seus enquadramentos particulares.
Por isso me orgulho de ser seu reitor.

Fonte: Brissos Lino, O Setubalense, 6/11/09.

Publicado por: A Ovelha Perdida | Novembro 8, 2009

Vergílio canta Eneias

António Manuel da Fonseca, 1855
Eneias salva o pai Anquises do incêndio de Tróia.

“Tão difícil empresa era fundar o povo romano.”
(Vergílio, Eneida, I)

Na esteira dos Gregos
que acabam por invadir a cidade
em sonho e vinho sepultada
repelido pelos Fados
e as insídias dos Dánaos
Vergílio canta Eneias
e dá à luz os latinos
por vontade dos deuses supernos

depois de Tróia
violada por um cavalo
semelhante a uma montanha
prenhe de Aqueus
já só resta partir
e refundar o sonho
enquanto o céu der pasto
aos astros.

Brissos Lino (publicado originalmente no Poeta Salutor)
2/11/09

Publicado por: A Ovelha Perdida | Novembro 8, 2009

Devia estar bêbado…

O arquitecto que desenhou a decoração deste muro devia estar bêbado…

Publicado por: A Ovelha Perdida | Novembro 7, 2009

Nos canais de Veneza

Poema inédito do nosso colaborador especial Rui Miguel Duarte:

 

 

Queria em todas as horas
prender num só abraço
os canais e as pontes
e cingir num laço as ilhas
encerrar num só olhar
os palácios e as igrejas
reter na concha da mão
as gôndolas
desfiar o labirinto de cada calle e fondamenta,
como só o faço aos cabelos do meu amor.

Esperava encontrar nos campi
de Veneza
os portos da minha armada
em cada sottoportego as pistas de tesouros
de piratas
soterrados detrás de cada porta
na praça de S. Marcos restauraria
a serenidade
dos veneráveis Doges de antanho
reconverteria
um sonho de grandeza
na grandeza de um sonho.

Conter-te em mim
era como a descoberta da dracma perdida
eras a cidade há muito demandada pelos meus exércitos imperiais.

Mas ao ter as tuas pedras a meus pés
percebi
que não te podia conquistar
que a grande Torre do Relógio
não é o fundo do recife
onde pudesse
a minha âncora pousar.

És tu, a Sereníssima,
quem me conduz
em cortejo pelo Grande Canal
e quem, à flor das negras quilhas das gôndolas,
cobrindo o meu rosto
com uma das tuas muitas máscaras,
me faz jogar à apanhada e às escondidas
atrás da penumbra perdida
das tuas vielas e pontes

furtivamente propícias ao amor e à conspiração.

Rui Miguel Duarte
31/10/09

Publicado por: A Ovelha Perdida | Novembro 7, 2009

Ensaio sobre o fanatismo

O ateísmo de Saramago faz lembrar uma história. Um dia perguntaram a Kingsley Amis por que motivo ele não acreditava em Deus. Amis fez cara de enfado e, razoavelmente sóbrio, explicou: “Não é bem não acreditar em Deus; é mais detestá-lO”.

Tal como Amis, Saramago não descrê em Deus; ele simplesmente detesta-O com uma força só comparável à devoção dos verdadeiramente fanáticos. Nos seus livros “heréticos”, o Mal não está apenas na religião tradicional e organizada. O Mal está na fonte. Leiam “O Evangelho Segundo Jesus Cristo”: Deus é o vilão, não Jesus. Pelo contrário: Jesus só merece a empatia do autor, que descreve o destino daquele homem, condenado a sofrer às mãos do Pai, com verdadeira caridade “cristã”.

Deus, como sempre, é o supremo criminoso. A atitude é profundamente religiosa. E Saramago é, ironia, a criatura mais religiosa da literatura contemporânea. Não somos religiosos apenas porque amamos Deus. Somos religiosos até quando O detestamos: o nosso ódio, como Graham Greene mostrou no magistral “Fim de Caso”, é também uma forma de afirmação. De afirmação pela negação. “Eu sou o espírito que nega!”, exclama Mefistófeles ao dr. Fausto.

Saramago também. É por isso que Saramago e os fanáticos religiosos que ele tanto critica falam a mesma linguagem. Ainda que habitem pontos opostos do diálogo. Essa atitude está novamente presente no último romance, “Caim”. Em termos literários, a narrativa é pobre e, sobretudo nas descrições sexuais, vulgar e risível. Razão tinha o escritor português Francisco José Viegas quando dizia há tempos que os lusos trepavam mal na literatura.

“Caim” revisita a história bíblica do irmão que mata o irmão. Por inveja? Por maldade? Saramago tem uma opinião diferente: porque Deus é caprichoso e, aceitando as ofertas de Abel, recusa as de Caim.

O Deus de Saramago é assim: uma caricatura das divindades pagãs. É um Deus colérico, mesquinho, traiçoeiro, cruel. E, em matéria de onipotência e onisciência, uma verdadeira anedota: ele não pode tudo, ele não sabe tudo. Ele é deus, sim, mas com minúscula. Ou, nas palavras do autor, um “filho da puta”.

Esse rol de vícios é desfiado em “Caim” com uma infantilidade raramente vista na literatura. Depois de matar Abel por culpa exclusiva do divino, o inocente Caim vai viajando pelo Antigo Testamento como testemunha dos crimes de Deus.

Os episódios são escolhidos com precisão cirúrgica: temos o sacrifício de Isaac por Abraão, evitado “in extremis” por Caim, prova definitiva de que Caim é bom e Deus é mau. Tão mau que, por ciúmes, destrói a Torre de Babel; permite a crueldade infanticida em Sodoma e Gomorra; tortura Job; e submerge o mundo no episódio da arca de Noé, momento final que permitirá a Caim exterminar as criaturas e confrontar-se diretamente com o Criador.

Para Saramago, Caim é uma espécie de bolchevique “avant la lettre”, um terrorista disposto a combater e a sabotar um sistema absurdo e demencial. Uma visão dessas só é possível na cabeça maniqueísta de um fanático.

Mas Saramago não assume apenas as vestes do fanatismo ateu. Ele partilha com os fanáticos religiosos o mesmo tipo de interpretação literalista dos textos sacros, incapaz de ver neles qualquer dimensão alegórica, metafórica ou evolutiva. Disse “evolutiva”? Reafirmo. O Antigo Testamento só será compreensível se o lermos como um todo. Porque só a leitura do todo permite cartografar a evolução da própria ideia de Deus: um longo processo de composição milenar que, sobretudo com as contribuições dos grandes profetas entre os séculos 6 e 8 a.C., oferece uma visão do divino que é o oposto da visão iletrada, maniqueísta e literalista de Saramago. Uma visão que seria complementada pelo Novo Testamento.

E Caim? Um mero executor de um crime autorizado e até precipitado por Deus? Não vale a pena tentar explicar que é impossível discutir Caim sem discutir primeiro o arcano problema do Mal. Mas é possível dizer que o problema do Mal é indissociável da liberdade constitutiva dos homens.
Para Saramago, o livre-arbítrio não existe. O que existe é a velha visão determinista que apresenta os homens como meros joguetes das forças inexoráveis da história. E, como joguetes, obviamente absolvidos de qualquer ato ou crime.

Enganam-se aqueles que afirmam que a ideologia política de Saramago deve ser separada da sua criação literária. Em Saramago, ideologia e literatura cumprem o mesmo papel. Doutrinar.

Fonte: João Pereira Coutinho, Pavablog.

Publicado por: A Ovelha Perdida | Novembro 7, 2009

Palavras perdidas (500)

“Lembro: há quase dois séculos, a Sociedade Bíblica teve problemas por divulgar a Bíblia em Portugal. Nessa altura, por cá, nem os padres tinham acesso a ela, só alguns bispos.”

(Ferreira Fernandes, DN, 2/11/09)

Publicado por: A Ovelha Perdida | Novembro 7, 2009

O portátil do futuro?

(Colaboração: Rui Serodio)

Publicado por: A Ovelha Perdida | Novembro 3, 2009

As ovelhas

Irmão Brissos,escrevi esta poesia em homenagem ao Ovelha Perdida pelos seus 200.000 acessos. Que pela graça de Deus, outros dobrados 200.000 possam vir. Parábens!

Seguem-te as tímidas ovelhas
amparadas por seu doce olhar
terno em cuidados
Nos percalços do caminho lá se mostra presto
a socorrer os passos da que manca

Do orvalho guarda seu rebanho
tem coração nobre o generoso zagal
Demonstra denodo ao cuidar das fracas
jamais declina seu olhar de Pai

Se perigos mil na senda espreita
acalenta e livra em assaz manobra
e assim do rebanho não se estriba
em nenhum momento pisca os olhos indolente

O lobo voraz bem perto chega
horror e dor
real tormenta
Mas eis a voz que ecoa e espanta
o vil matreiro ser do mal

Assim dispersa num fragor
os medos latentes de sua grei
e conduz impertérritos ao seu redil
as ovelhas do seu lidar

No aprisco eis unidas
num regaço de ternuras
ali presentes as guardadas
e agora trânquila
a ovelha perdida.

Geovani Figueiredo dos Santos

Publicado por: A Ovelha Perdida | Novembro 3, 2009

The Prayer: Bocelli e Dion

Publicado por: A Ovelha Perdida | Novembro 3, 2009

Palavras perdidas (499)

“Gente que está num navio a afundar-se não se queixa de distracções durante a oração.”

(Philip Yancey)

Publicado por: A Ovelha Perdida | Novembro 2, 2009

Um país de sucata?

A propósito da “Operação Face Oculta”. Ler aqui, no Manuel Sadino.

Publicado por: A Ovelha Perdida | Novembro 2, 2009

Acordei muito mais pobre

Acordei muito mais pobre. Não me foram à conta bancária, nem perdi tudo no jogo, antes a morte levou-me um herói. E eu não gosto de ver os heróis partirem. Há tão poucos.
Morreu ontem a memória suiça da Segunda Guerra mundial. Jean-François Bergier, um historiador iluminado que apesar da sua condição de suiço, assinou o relatório que viria repôr a justiça no que diz respeito aos depósitos bancários dos judeus em bancos helvéticos. « Eu não sou considerado como um homem, mas como um relatório », lamentava-se em 2002. Bergier encabeçou a Comission indépendante d’experts encarregada de investigar as relações da Suiça com o regime nazi.

Uma das razões porque fiquei pobre é porque lembrei-me que a Suiça ficou muito mais pobre, porque abriu os cofres fortes e fez sair somas consideráveis direitinhas para os bolsos de judeus, que fielmente esperavam este El dourado que era legitimamente seu.
A Suiça ficou mais rica porque se reconciliou com a História.

« Pois é… gandas malucos ! » diria um amigo meu. Ainda hoje creio que nenhum outro país neste planeta tomaria semelhante resolução. « Só os otários dos Suiços » ! No entanto volto a pensar que estou mais rico. Os valores que permacem não são avaliados pelo seu brilho e ostentação, pela sua avaliação material, mas pelo carácter espiritual das nossas atitudes e decisões. Não são avaliados por não querermos rasgar a covardia de não queremos ficar mais pobres, para ficarmos mais ricos. Ok, a seguir vou dar-vos uma conta bancária para bem da vossa alma e pureza. Não sei quem ficará mais rico.. ou mais pobre ? Não. Não se trata do socialismo. Trata-se de heroísmo. Trata-se de repôr a verdade.

Eu gosto da verdade. Depois de Deus adoro a verdade. Talvez a minha apetência voraz pelo verdadeiro tenha precisamente a haver com… Deus, pois Ele é a verdade. Mesmo que venham-me empenhadamente garantir que Deus está em lado nenhum, eu tenho que os mandar dar uma grande volta ao bilhar grande, aliás tantas voltas quantas as voltas que eles dão para acreditar na inverdade de Deus. Talvez seja por isso. Por gostar tanto da verdade, que gosto tando de ouro, pelo que representa, pela sua beleza, pureza, claro. E estou carregado d’oiro, das orelhas aos anéis. Deus d’oiro, mulher d’oiro, filhos d’oiro… Entretanto fiquei cego nas minhas cruzadas para descobrir falsos oiros, falsas verdades. Claro que não recebo um ducado d’oiro, nem de latão. Mas é como que os oiros dos judeus nos bancos helvéticos estivessem à minha espera e de repente, como que o ladrão que vem pela calada, num abrir e fechar de olhos leva toda a riqueza para a devolver logo a seguir, a quem de direito.

Ganda ladrão o Bergier! Mas que grande desfalque nos porta-moedas suiços. Com que prejuízo se constrói a história. Este pequeno ponto no mapa desta Europa globalizante, resistente por um pouco mais de tempo, deu um exemplo que ninguém seguirá.
Porque os Bergier estão em extinção. Hoje os « heróis » são construídos pelas oleadas máquinas de construção de opinião pública. São esses que apresentam soluções e traçam novos caminhos. Revolucionários. Dando sinais de nova era, de novas oportunidades, justiça e igualdade. Traçando rumos de sacrifício e de união. Messiânicos ! Salvadores ! Imitadores de Jesus !

Há tanta gente que compra gato por lebre. Mas não dá para enganar. Este Jesus, o autêntico e inimitável, veio para ficar, a preço de muito oiro.
No final estou contente por ser rico !

Fonte: Moonwalker, Alunagens.

Publicado por: A Ovelha Perdida | Novembro 2, 2009

Palavras perdidas (498)

“O medo é um gigante que se nutre da carência”

(Emilio Mira y López)

Publicado por: A Ovelha Perdida | Novembro 1, 2009

As mulheres de Deus

Poema dedicado às mulheres envolvidas no Ministério AGLOW, e lido durante o Encontro de ontem em Lisboa.

Às mulheres Aglow

Deus não tem mulher
mas fez-se homem a partir do ninho interior
de uma delas
que o amamentou nos seus peitos
em momentos de carinho

Deus não tem mulher
mas sabe a massa de que são feitas por dentro
e por isso as ama ainda mais

Deus não tem mulher
mas procura a sua intimidade
não dispensa o seu colo
o seu regaço incerto
o seu coração apertado

Deus não tem mulher
mas preferiu-as no seu gesto criador
fazendo delas fábricas de vida e ternura
onde fez repousar a sua gentileza

Deus não tem mulher
mas fez delas a peça que faltava no puzlle masculino

Deus não tem mulher
mas chamou-as a habitar todas as esquinas da História

Deus não tem mulher
mas trabalha para que todas as mulheres o desejem com ardor

Deus não tem mulher
não tem uma mulher, tem muitas
todas as Marias, Susanas, Lídias e Vitórias
Isabéis, Manuelas, Rutes, Saras, Fernandas
Josefinas, Luísas, Anas, Joaquinas
Carolinas, Martas, Antónias
e até Madalenas
todas as que queiram abrigar-se
nos seus braços de segurança e amor.

Brissos Lino
Outubro de 2009

Publicado por: A Ovelha Perdida | Novembro 1, 2009

Sem complexos nem preconceitos

CARTA DO CANADÁ

Seguramente, foi em 1959 que assentei arraiais na Brasileira do Chiado, no grupo pontificado por Tomaz de Figueiredo, Jorge Barradas, Abel Manta e Almada-Negreiros, onde fui dar pela mão de artistas plásticos cujo vasto atelier passou a ser, também, meu poiso habitual.  Meu de muitas outras pessoas.

Em tardes de inverno, com a lareira acesa e tomando chá, por ali passava a dizer poemas Vasco Lima Couto e, a inundar o espaço com a sua voz inesquecível, Eunice Muñoz. Gente do teatro, do cinema, da música, das artes plásticas, do jornalismo, das letras, ali conviviam com serenidade e gosto.

A escritora Isabel da Nóbrega começou a ser habitual e depressa se tornou uma amiga dos donos do atelier. Senhora de bom berço e fino trato, inteligente e culta, bem instalada na vida, caíu numa cilada do demónio. Apaixonou-se por um zé ninguém, nem sequer bonito, muito menos simpático e bem educado, que olhava tudo e todos de nariz empinado, numa pseudo-superioridade de quem tem contas a ajustar com a vida, quezilento e muito chato. Falava como um pregador de feira e era intragável. Mas, em atenção à Isabel, lá íamos aturando o José Saramago.

Para mim, que sou péssima, foi ponto assente: aquele não a ia fazer limpa, era um depósito de ódio recalcado. Foi por isso que não me admirei nada quando o vi director do Diário de Notícias, a  mando do Partido Comunista, onde, da noite para o dia, lançou ao desemprego 24 jornalistas, dos da velha escola, dos que escrevem com pontos e vírgulas, deixando-os, e às famílias, sem pão. Tambem não fiquei minimamente surpreendida quando soube que abandonou Isabel da Nóbrega, que tanto fez por ele, para alvoroçadamente casar com uma espanhola que foi freira e tem vastos conhecimentos no mundo da política e das letras. Para mim, estava tudo a condizer com a figura.

Cá de longe soube que publicava livros e vendia muito. Não me aqueceu nem arrefeceu, porque nunca li nada escrito por ele nem tenciono perder tempo com isso. Não me apetece, e está tudo dito. Nem o Nobel que lhe deram me impressionou, porque já vi o Nobel ser dado sem critério algumas vezes.  Acho mesmo que o prémio está a ficar muito por baixo.

E agora, o homenzinho da Golegã a chamar nomes a Deus, a insultar a Bíblia nuns raciocínios primários de operário em roda de tasca. Dizem que o fez por golpe publicitário.  Talvez. Acho que é capaz disso e de muito mais.  No entanto, creio que, no meio do aranzel, apenas houve uma pessoa que lhe fez o diagnóstico certo: António Lobo Antunes, numa magistral entrevista dada à RTP, há dias, respondeu a Judite de Sousa, que o interrogava sobre as tiradas de Saramago, que essas vociferações contra Deus lhe tinham feito medo. E adiantou: “tenho medo de chegar à idade dele assim, sem senso crítico”. Está tudo dito.  É mais um como há tantos anciãos de tino perdido em Portugal.  É deixá-lo andar.  A mim tanto se me dá.

Fernanda Leitão

(Colaboração de Rui Serodio)

Publicado por: A Ovelha Perdida | Novembro 1, 2009

Palavras perdidas (497)

“É impossível fazer um bom filme sem uma câmara que seja como um olho no coração de um poeta.”

(Orson Welles)

Publicado por: A Ovelha Perdida | Outubro 31, 2009

Halloween

A máscara propõe um rosto
esconde a verdade
joga o jogo do fingimento
troca as voltas aos incautos
permite passar para lá do espelho
da realidade
passear no reino do faz-de-conta
experimentar outra sensação
assaltar o castelo alheio
pelo gozo de ser o que não é
e meter o rosto na algibeira

quem quer ser abóbora
na janela nocturna dos homens
não se engasgue depois
com as pevides.

Brissos Lino
31/10/09

Publicado por: A Ovelha Perdida | Outubro 31, 2009

Insónia

(Colaboração: Rui Serodio)

Publicado por: A Ovelha Perdida | Outubro 30, 2009

Prosopopeia


Conta-se que Rui Barbosa, ao chegar em casa, ouviu um barulho estranho vindo do seu quintal. Chegando lá, constatou haver um ladrão tentando levar seus patos de criação.
Aproximou-se vagarosamente do indivíduo e, surpreendendo-o, quando este tentava pular o muro com os patos, disse-lhe:

- Oh, bucéfalo anácrono! Não o interpelo pelo valor intrínseco dos bípedes palmípedes, mas, sim, pelo ato vil e sorrateiro de profanares o recôndito da minha habitação, levando meus ovíparos à sorrelfa e à socapa. Se fazes isso por necessidade, transijo; mas se é para zombares da minha elevada prosopopéia de cidadão digno e honrado, dar-te-ei, com minha bengala fosfórica, bem no alto da tua sinagoga, e o farei com tal ímpeto que te reduzirei à quinquagésima potência que o vulgo denomina nada.

E o ladrão, confuso, diz:

- Dotô, resumindo: eu levo ô dexo os pato?

Fonte: Pavablog.

 

Publicado por: A Ovelha Perdida | Outubro 30, 2009

Acarinhar os bombeiros

A Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Setúbal (AHBVS) cumpriu recentemente 126 anos de existência e actividade ininterrupta em prol dos setubalenses, tendo a efeméride sido celebrada através de algumas acções alusivas.
Na qualidade de presidente da Mesa da Assembleia Geral desta associação centenária tive oportunidade de, no discurso proferido na sessão solene comemorativa do aniversário, ter referido o papel essencial da sociedade civil e, concomitantemente, do associativismo, no bem-estar e no desenvolvimento das populações.
Setúbal tem tradição, em matéria de associativismo, mas à medida que a cidade cresceu e se descaracterizou, com a vinda de fluxos cada vez maiores de pessoas de fora, perdeu algum desse elan associativo. É verdade que persiste um número apreciável de colectividades no concelho, mas a realidade é que muitas delas lutam pela sobrevivência, dificilmente conseguem captar sangue novo, e correm o risco de fechar as portas. Em especial as mais antigas, apesar do respeitável peso do seu passado e tradição. Há que renovar métodos, procedimentos e serviços, mas sobretudo mentalidades, pois a cidade de 2009 é radicalmente diferente da que existia em finais do século XIX.
Quanto à AHBVS está em pleno processo de renovação, aberta aos jovens, e a ideias inovadoras, mas sempre sem perder de vista o essencial, que é dotar o Corpo de Bombeiros de homens e mulheres, material, viaturas e equipamentos que permitam manter a eficácia no combate aos fogos e noutras acções de intervenção e socorro, no âmbito da protecção civil e da saúde das populações, de acordo com as funções e responsabilidades que lhe estão atribuídas.
Todavia, uma associação deste tipo, que se quer acarinhada pela sociedade setubalense, à semelhança da generalidade das suas congéneres por esse país fora, ainda não conseguiu sentir esse apoio em termos de número de associados, o que é pena. Se não forem os habitantes de Setúbal a acarinhar os seus bombeiros voluntários, quem o fará?
Já basta o comportamento vergonhoso, do ponto de vista cívico e institucional, que resulta do facto de as entidades competentes continuarem a reter uma verba de 30 mil euros, a que a associação tem direito, e que foi atribuída há um ano para a compra de um auto-tanque de grande capacidade, entretanto adquirido.

Fonte: Brissos Lino, O Setubalense, 30/10/09.

Publicado por: A Ovelha Perdida | Outubro 30, 2009

Palavras perdidas (497)

“De resto, a Igreja Católica, receosa das iniciativas heterodoxas de interpretação dos textos sagrados e cedo feroz repressora da tolerância erasmiana, procurou evitar que a generalidade dos crentes lesse a Bíblia. Para quem duvide, aqui fica este extracto do Catalogo dos livros que se prohibem nestes Regnos & Senhorios de Portugal, de 1581: “Quanto às trasladações do testamento velho, somente se poderão conceder aos varões doctos & pios, por parecer do Bispo, com condição de que se use delas como de declarações da trasladação Vulgata, & não como texto sagrado. Mas as trasladações do testamento novo, feitas por Autores de primeira classe deste catálogo [i. e., constantes do Index], a ninguém se concedam: porque sói da tal ligação resultar aos Lectores pouco proveito, & muito perigo.”

(Vasco Graça Moura, DN, 28/10/09)

Publicado por: A Ovelha Perdida | Outubro 29, 2009

Sejamos positivos…

Um estudo recente conduzido pela Universidade Técnica de Lisboa mostrou que cada português caminha em média 440 km por ano.
Outro estudo feito pela Associação Médica de Coimbra revelou que, em média, o português bebe 26 litros de Vinho por ano.
Conclusão: isso significa que o português, em média, gasta 5,9 litros aos 100km, ou seja… é económico!
Afinal, nem tudo está mal, neste País!

(Colaboração: Rui Serodio)

Mensagens Antigas »

Categorias