
“Quem caminha no sentido oposto ao Ser caminha para o nada.”
(Santo Agostinho)
Os últimos dois mil anos, período da história em que se inscreveu o Cristianismo, são riquíssimos e têm constituído objecto de aturada investigação. O tipo de organização temporal que passaremos a propor aqui não será muito ortodoxo segundo os cânones, mas cremos que a Igreja passou por diversas fases ou idades, do ponto de vista histórico, ao longo destes dois milénios.
Antes de mais, a Igreja terá experimentado uma Idade da Conquista.
Foi uma época de expansão do Evangelho, que começou com a perseguição de Jerusalém e subsequente diáspora dos cristãos pelas terras dos gentios, levando a boa semente do Evangelho. Depois continuou com as longas viagens missionárias do apóstolo Paulo, instrumento usado por Deus, que assim universalizou a fé cristã, ao fixar inúmeras igrejas locais e consolidar outras entretanto fundadas.
Tratou-se ainda de uma época de reacção contra as múltiplas heresias que surgiam, quer de inspiração pagã, quer judaica e que faziam perigar uma fé emergente que ainda não dispunha de cabedal doutrinário significativo.
Finalmente prosseguiu com o esforço de evangelização e de resistência às recorrentes perseguições do poder imperial de Roma nos primeiros séculos da era cristã, até ao Édito de Milão, que abriu aos cristãos o direito formal de existirem e cultuarem o seu Deus em todo o império.
Seguiu-se, a partir da suposta conversão de Constantino, aquilo a que podemos chamar a Idade do Poder.
Foi a instituição do Cristianismo, por decreto imperial, como religião oficial do império. Foi, mais tarde, o combate contra o Islão, essa nova fé que se afirmava pela força das armas, a partir do século VII.
No virar do milénio teve a Igreja que se debater não tanto contra um inimigo externo mas com uma séria divisão que ficou para a história como o cisma do Oriente e que a dividiu até hoje.
Foram as Cruzadas, a pretexto de libertar a Terra Santa e de combater os muçulmanos.
Veio a suceder uma nova divisão, através da Reforma protestante que varreu o norte e o centro da Europa a partir de 1517.
Mas a Igreja lutou também contra o Iluminismo, contra o secularismo e outros ismos considerados inimigos da fé.
Todos estes combates foram motivados pelo objectivo de Roma, a manutenção do poder da Igreja, em especial a partir da Contra-reforma e seus instrumentos repressores, que foram mais usados para o reforço do poder do papado do que em defesa da ortodoxia da fé. Com a sua organização imperial, Roma tornou-se o maior poder da Europa e o Papa o grande imperador do velho continente.
No tempo presente, porém, podemos dizer que a Igreja está na sua Idade Ontológica.
Neste momento a Igreja parece estar fora de tempo, pois continua a trabalhar segundo o modelo da segunda fase, quando se encontra já na terceira.
Isto é, o mundo está evangelizado, em grande parte e os princípios cristãos são conhecidos, em grande parte. Já não se está no tempo de conquistar espaço, nem no tempo de exercer o poder (se é que alguma vez se esteve), mas de, apenas, ser igreja, mas agora num mundo pós-moderno.
Tempo de ênfase no Ser e não no Parecer, no Ter ou no Poder. Tempo de falar menos e viver mais. Tempo de menos doutrinação e mais devoção. Tempo de deixar de lutar pelo controlo do Templo e de passar a acender luzes na cidade.
Dificuldades particulares
Talvez esta seja a fase mais difícil para efeitos de mobilização dos fiéis. Como mobilizar pessoas sem ser numa lógica de cruzada, de conquista, de missão evangelizadora, de preservação da ortodoxia ou de manutenção do poder?
Como fazê-las vibrar apenas (?) com a ideia de serem elas mesmas, de deixar que Cristo seja visível através da sua vida, sem qualquer propósito de estabelecimento de impérios?
Como semear nelas uma atitude de empenho pelas coisas espirituais, com o único objectivo de serem parecidas com Cristo? Só mesmo virando-nos cada vez mais para o “autor e consumador da fé”, para a pessoa de Cristo, para a intimidade com o Salvador. Só através da redescoberta da paixão por Ele, de voltar ao primeiro amor.
Tal como um ser humano, a Igreja passou por uma fase de crescimento acelerado, de expansão, de afirmação, que corresponde ao tempo da infância e juventude. Depois passou à fase do poder, da reacção aos perigos, que corresponde à idade adulta e neste momento está na fase da maturidade.
A Igreja face aos desafios da contemporaneidade
A única resposta convincente ao relativismo pós-moderno é uma vivência eticamente rigorosa da fé cristã, num quadro de cidadania responsável, de missão integral.
Embora devamos estar sempre prontos a dar testemunho da nossa fé e das suas razões, a verdade é que a dialéctica cristã, ou mesmo a apologética, de pouco servem num mundo despojado de valores civilizacionais.
Ou seja, a nossa civilização foi construída sobre fundamentos judaico-cristãos e isso de pouco serve, agora que a sociedade já não se reconhece neles, continuando a afastar-se dos seus constructos fundamentais e a entregar-se a uma orgia hedonista, individualista e relativista.
Conclusão
Não quero com isto dizer que estas fases da história da Igreja, ou idades, sejam rigorosamente estanques, mas talvez nos ajudem a compreender a mudança de paradigma que enfrentamos hoje. O desafio dos cristãos contemporâneos é essencialmente viverem o Cristianismo bíblico, serem imitadores de Cristo, deixarem-se guiar pelo Espírito Santo de modo que o Cristo que está neles possa transparecer, mas de forma natural.
É claro que a Igreja precisa, hoje e sempre, de continuar a evangelizar, a fazer Missão, mas precisa, acima de tudo, de revelar a sua natureza em Cristo. Dir-me-ão que evangelizar ou missionar é justamente isso, declarar a pessoa de Cristo, mas nem sempre foi assim, na prática, como se sabe. Quando se falava em “dilatar a Fé e o Império” não era nisto que se pensava…
A verdade é que num mundo de valores decadentes já ninguém vai bater palmas à nossa doutrina, teologia ou ortodoxia, por mais excelente que possam parecer, mas o testemunho pessoal de cada cristão continua a constituir a mais eloquente pregação dos nossos dias.
O velho orgulho denominacional da “sã doutrina”, o recurso legitimador de recorte político e oportunista à memória dos “pioneiros” já não cola, no discurso feito para dentro e muito menos para fora.
As palavras de Agostinho de Hipona tornam-se assim, hoje, cada vez mais actuais. Se a Igreja não caminhar no sentido do Ser tornar-se-á inócua e niilista. Isto é, deixa de ter serventia.
Deus nos ajude a despertar.
Brissos Lino (Fevereiro de 2010)